Dólar fecha a R$ 5,0867 pressionado por eleições e queda do petróleo
Moeda americana subiu 0,39% ante o real em dia de cautela antes das decisões de juros no Brasil e nos Estados Unidos
O dólar registrou alta consistente frente ao real nesta terça-feira, 16, em movimento contrário ao observado no exterior, e chegou a se aproximar da linha de R$ 5,10 no fechamento. Operadores associaram a pressão sobre a moeda brasileira às preocupações com o cenário fiscal, após nova pesquisa reforçar o favoritismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na corrida presidencial, e à forte queda do petróleo, que reduziu posições ligadas à tese de melhora dos termos de troca.
A postura cautelosa antes da chamada superquarta, com decisões de política monetária no Brasil e nos Estados Unidos, também favoreceu a busca por posições defensivas. No mercado, há receio de que o Federal Reserve, o banco central norte-americano, mantenha um tom duro, apesar do alívio nos preços do petróleo.
No Brasil, a deflação do Índice Geral de Preços - 10 (IGP-10) de junho e o resultado fraco do varejo em abril indicam espaço para a continuidade do movimento de calibração da taxa Selic. O possível estreitamento do diferencial entre os juros internos e externos, embora ainda tenda a permanecer elevado, poderia servir de gatilho para uma redução do apetite pelo real.
Depois de cair na primeira hora de negócios, quando marcou mínima de R$ 5,0495, a moeda americana passou a operar em alta. O dólar à vista atingiu máxima de R$ 5,1030 no fim da manhã e encerrou o dia com avanço de 0,39%, cotado a R$ 5,0867. A divisa acumula ganho de 0,50% nos dois primeiros pregões da semana e valorização de 0,87% em junho, após subir 1,82% em maio. No ano, ainda registra perdas de 7,33%.
O economista Fabrizio Velloni avalia que o ambiente interno deve ganhar peso na formação da taxa de câmbio com um cessar-fogo mais prolongado no Oriente Médio e a proximidade das eleições. "A pesquisa eleitoral de hoje faz o mercado precificar a continuidade do atual governo e da política fiscal expansionista, o que se reflete no dólar e também na curva de juros", afirma Velloni.
Pesquisa CNT/MDA, divulgada por volta das 11h, confirmou a desidratação da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), abalada desde o chamado Flávio Day 2.0, em 13 de maio, quando houve a revelação de ligação entre o senador e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Em simulação de primeiro turno, Lula passou de 39% para 31,8% de abril para cá, enquanto Flávio recuou de 30% para 28,2%. No segundo turno, o presidente vence o senador por 49,3% a 36,8%. Em abril, a vantagem do petista era menor, de 45% a 40%.
As cotações internacionais do petróleo caíram mais de 5%, dando sequência às perdas da segunda-feira, diante da possibilidade de que o acordo de cessar-fogo traga autorização para a retomada imediata das exportações iranianas, segundo informação do The Wall Street Journal. O contrato do Brent para agosto fechou em baixa de 5,06%, a US$ 78,96 o barril, abaixo da marca de US$ 80 pela primeira vez desde março.
Sócio da Veedha Investimentos, Rodrigo Moliterno observa que a queda do petróleo é negativa para a bolsa local e pode ter provocado saída de recursos de investidores estrangeiros, em um momento no qual o fluxo para o país já está afetado pela rotação de carteiras favorável ao mercado acionário americano. "Temos também a questão eleitoral e a expectativa pela decisão do Copom amanhã. Isso está afugentando um pouco o investidor estrangeiro do nosso mercado", afirma Moliterno.
Indicador do desempenho do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY operava em alta de 0,06% no fim da tarde, perto dos 99,550 pontos, após máxima de 99,791 pontos. O iene teve leve depreciação, apesar de o Banco do Japão (BoJ), como esperado, ter elevado a taxa básica de juros de 0,75% para 1%, o maior nível desde 1995.
O estrategista de câmbio Francesco Pesole, do ING, observa que a permanência do Dollar Index nos níveis atuais, mesmo com a queda do petróleo após o acordo entre Estados Unidos e Irã, sugere um "dólar estruturalmente mais forte", com investidores mais atentos aos sinais dos bancos centrais.
"Isso coloca a reunião do FOMC (comitê de política monetária do Fed) como ponto central para o câmbio. O dólar pode se manter resiliente, mas precisa de um aceno dos diretores do Fed, especialmente do novo presidente, Kevin Warsh, de que aumentos da taxa de juros são uma possibilidade real", afirma Pesole, em nota.