Ibovespa fecha em baixa com queda do petróleo e cautela sobre juros
Índice recuou 0,45%, aos 169.648,47 pontos; Braskem liderou as perdas após decisão da Justiça de Alagoas
O Ibovespa manteve trajetória negativa na tarde desta terça-feira, 16, pressionado pela queda de mais de 5% do petróleo, pela expectativa de comunicados mais duros do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) e do Comitê de Política Monetária (Copom) nesta quarta-feira, 17, além do desconforto com o cenário fiscal.
O ambiente fiscal também teve reflexo da decisão da Fitch, que reiterou a nota de crédito do Brasil em 'BB', com perspectiva estável. A agência sinalizou que a escala e a qualidade do ajuste fiscal dependerão do vencedor das eleições no Brasil.
Desde o início do dia, a nova pesquisa CNT/MDA, que apontou vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na disputa presidencial, foi acompanhada pelo mercado e adicionou prêmio de risco aos ativos domésticos. Em tese, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) representaria uma agenda mais favorável ao mercado financeiro, mas a própria Fitch avaliou que a implementação das políticas é "altamente incerta".
Depois de atingir máxima de 170.415,52 pontos, com variação zero, e mínima de 169.121,31 pontos, queda de 0,76%, ambos os movimentos pela manhã, o Ibovespa encerrou o dia em baixa de 0,45%, aos 169.648,47 pontos. O giro financeiro foi de R$ 27,51 bilhões.
A Braskem, com queda de 9%, liderou as perdas, afetada pela decisão da Justiça de Alagoas de tornar a petroquímica ré por crimes ambientais relacionados ao afundamento do solo em Maceió. Também tiveram desempenho negativo as ações consideradas cíclicas, mais sensíveis à expectativa de juros elevados por mais tempo. Entre as blue chips, a Petrobras recuou cerca de 1%.
"O petróleo em baixa com o acordo entre EUA e Irã acaba pesando sobre o índice, que é bem relacionado a commodities, em especial de óleo e gás", afirmou o analista Matheus Spiess, da Empiricus.
Nesta terça-feira, o contrato do Brent para agosto fechou em queda de 5,06%, a US$ 78,96 por barril. Investidores avaliaram o acordo entre EUA e Irã, que pode autorizar a retomada imediata das exportações iranianas como parte dos termos para encerrar o conflito. Foi a primeira vez desde março que o Brent fechou abaixo de US$ 80.
No cenário doméstico, mesmo com as vendas no varejo registrando em 2026 o pior abril desde 2020, a expectativa dos investidores é de que o Copom apresente um comunicado mais duro na reunião de quarta-feira, assim como o Fed. "A realidade ainda é de um mercado de trabalho forte e inflação ruim qualitativamente, de modo que, consequentemente, o espaço para corte de juros acaba sendo restrito", disse Spiess. Segundo ele, empresas mais sensíveis a juros, mais alavancadas ou ligadas ao ciclo doméstico, estiveram entre os destaques negativos do dia.
O economista e analista Marcos Vinícius Oliveira, da ZIIN Investimentos, observou que há possibilidade de o Copom indicar uma pausa na flexibilização monetária na reunião de quarta-feira. "Mercado já tem tido mais cautela com relação à política monetária, principalmente por dados de atividade no Brasil e inflação ainda pressionada", comentou.
A curva de juros voltou a abrir nesta terça-feira, em movimento também atribuído ao desconforto com o resultado da pesquisa eleitoral CNT/MDA, que mostrou fortalecimento das intenções de voto do presidente Lula. Para Oliveira, da ZIIN Investimentos, a deterioração de Flávio Bolsonaro voltou a aparecer nos preços, principalmente porque ele era visto como um candidato capaz de rivalizar com Lula e ampliar o potencial de alta da renda variável.
Na avaliação de Spiess, da Empiricus, em caso de reeleição de Lula, a chance de uma reforma mais profunda na questão fiscal tende a ser reduzida.
A decisão da Fitch de manter a nota de crédito do Brasil em 'BB', com perspectiva estável, não teve impacto relevante nos preços, conforme avaliação do mercado.
Para Oliveira, da ZIIN Investimentos, a agência de classificação de risco poderia até ter adotado tom mais pessimista, diante da falta de sinalização do governo e da oposição sobre um compromisso fiscal mais crível.