COMÉRCIO

Vendas do varejo recuam 1,5% em abril, informa IBGE

Resultado foi o pior para o período desde 2020 e interrompeu três meses seguidos de alta no setor

Por Estadao Conteudo Publicado em 16/06/2026 às 12:59

A queda de 1,5% no comércio varejista brasileiro em abril, na comparação com março, foi o pior desempenho para esse período do ano desde 2020, quando as vendas recuaram 16,0% em meio ao choque da pandemia de covid-19. Os dados fazem parte da Pesquisa Mensal do Comércio, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O resultado interrompeu uma sequência de três meses de crescimento, que havia levado o varejo a operar em patamar recorde em março deste ano.

De acordo com Cristiano Santos, gerente da pesquisa do IBGE, o recuo de abril não se explica apenas pela base de comparação elevada.

"O início do ano foi mais puxado por atividades que vendem bens que não são essenciais. Tem uma diferença de comportamento em relação ao consumo nesse mês de abril, que é a volta a atividades essenciais, como supermercados", afirmou o pesquisador.

Na passagem de março para abril, seis das oito atividades do varejo tiveram queda: combustíveis e lubrificantes (-6,2%); outros artigos de uso pessoal e doméstico (-4,6%); equipamentos e material para escritório, informática e comunicação (-4,5%); móveis e eletrodomésticos (-0,8%); tecidos, vestuário e calçados (-0,1%); e artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria (-0,1%).

Houve crescimento nos segmentos de hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (1,3%) e de livros, jornais, revistas e papelarias (1,1%).

No comércio varejista ampliado, que inclui veículos, material de construção e atacado alimentício, as vendas caíram 0,7%. O setor de veículos e motos, partes e peças teve retração de 0,7%, enquanto material de construção recuou 3,6%.

"Tem efeito base. É mais difícil continuar crescendo quando você já está no topo da série. Mas além disso tem outros sinais que são de certa maneira contraditórios, mas acabam puxando um pouco para baixo", disse Santos. "Não há crescimento nem no crédito, nem no rendimento, nem no número de pessoas ocupadas. Além disso tem o componente da inflação. (...) Quando você tem um rendimento menor fica mais difícil consumir mais. Além disso, o crédito à pessoa física também parou de crescer."

Santos também afirmou que a guerra dos Estados Unidos e Israel no Irã afeta o varejo brasileiro por meio dos preços dos combustíveis, utilizados para deflacionar a receita obtida por esse segmento varejista.

"Os preços subiram bastante em março, continuaram subindo e, abril, só que com menos intensidade", lembrou. "Essa influência dos preços lá fora não é direta e síncrona com movimento de preços no Brasil. E além de preços ainda tem a receita obtida", ponderou.

O volume de vendas do varejo chegou a abril em patamar 10,9% acima do nível de fevereiro de 2020, no período pré-pandemia. No varejo ampliado, as vendas estão 7,1% acima do nível anterior à crise sanitária.

Os segmentos de artigos farmacêuticos, supermercados, veículos, combustíveis e material de construção operam acima do patamar pré-crise sanitária. Já equipamentos para informática e comunicação, outros artigos de uso pessoal e doméstico, móveis e eletrodomésticos, vestuário e calçados e livros e papelaria seguem abaixo do nível pré-covid.

"Algumas atividades ainda estão bastante distantes lá de fevereiro de 2020. Dá para começar a imaginar que a estrutura de consumo mudou, o padrão de consumo mudou a ponto de essas atividades não conseguirem realizar essa receita como realizavam anteriormente. Isso é muito claro em vestuário e calçados, e menos em outras atividades. Esse resultado tem a ver mais com uma mudança no padrão de consumo e que faz com que as pessoas optem por consumir outros tipos de produtos do que consumiam antes da pandemia", declarou Santos.

Questionado se o setor de vestuário estaria sendo impactado pela substituição por produtos importados vendidos em grandes plataformas, Santos concordou com a possibilidade, mas ressaltou que não possui esse dado. "Pode ser que seja, não tenho esse dado", afirmou.

Sobre o novo recorde de vendas dos supermercados, alcançado em abril, Santos avalia que a atividade vem sendo sustentada por famílias de renda mais restrita.

"Alimentos e bebidas voltam a ser foco das famílias que têm consumo restrito por outros condicionantes, como crédito e aumento do rendimento. Se tem menos pessoas ocupadas, elas vão optar pelo quê? Por itens mais essenciais, remédios e alimentos", disse.