POLÍTICA INTERNACIONAL

No G7, Lula defende soberania no combate ao crime organizado

Presidente também criticou o neoliberalismo, o unilateralismo e a concentração de riqueza durante discurso na França

Por Estadao Conteudo Publicado em 16/06/2026 às 12:37
Lula © ANSA/EPA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez referências ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante discurso na Cúpula do G7, em Évian-les-Bains, na França. Na reunião da qual os dois participam, Lula afirmou que o enfrentamento ao crime organizado deve considerar o respeito à soberania dos Estados.

"Outros temas, como o combate aos crimes transnacionais, também devem fazer parte da agenda de desenvolvimento. Um deles é o desafio do crime organizado, que aterroriza comunidades e desvia recursos públicos que deveriam ser direcionados para a construção de escolas, hospitais e estradas. Esse esforço deve levar em conta o respeito à soberania dos Estados", declarou Lula nesta terça-feira, 16.

O presidente também afirmou que o combate ao narcotráfico não pode ser tratado de forma separada de crimes como lavagem de dinheiro e tráfico de armas. Em discursos no Brasil, Lula costuma dizer que grande parte das armas contrabandeadas vem dos Estados Unidos. Ele também critica o fato de o estado americano do Delaware ser cenário de crimes financeiros brasileiros.

"O enfrentamento ao narcotráfico não pode ser dissociado de outros ilícitos como a lavagem de dinheiro e o tráfico de armas. Valorizar o diálogo e a cooperação institucional, inclusive por meio da Interpol, contribuirá para a localização de ativos e indivíduos vinculados a essas atividades criminosas", disse Lula.

Durante o discurso, Lula também fez críticas ao neoliberalismo. Segundo ele, o modelo econômico agravou desigualdades e contribuiu para crises políticas em diferentes países. O presidente ainda classificou o unilateralismo como uma "resposta falaciosa" para os desafios atuais.

"Ficamos aprisionados em dogmas que defendem desregulamentação de mercados, Estado mínimo e austeridade fiscal como fins em si mesmos. O neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e a crise política que hoje assolam as democracias. Agora, o protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas", declarou.

Lula também criticou o sistema financeiro internacional e afirmou que países não podem ser obrigados a escolher entre "pagar seus credores ou alimentar suas crianças".

Ao tratar da desigualdade entre países, o presidente disse que ela está aumentando. Lula citou que o primeiro trilionário do mundo, sem mencionar Elon Musk, CEO da SpaceX, tem renda superior à dos 46% mais pobres da população global. Ele também criticou o que chamou de "políticas pró-bilionários".

"A distância que separa a prosperidade de Évian da realidade enfrentada por bilhões de pessoas no Sul Global não está diminuindo. Nos últimos anos, a desigualdade entre países ricos e pobres tem aumentado. O primeiro trilionário do mundo é mais rico do que os 46% mais pobres da população mundial. A extrema concentração de riqueza decorre de décadas de políticas pró-bilionários", afirmou Lula.

Sem citar atores globais, o presidente brasileiro também declarou que as guerras atuais desviam o foco da agenda desenvolvimentista.

Lula criticou ainda a redução de recursos destinados a entidades consideradas importantes para países em desenvolvimento, como a Ajuda Oficial ao Desenvolvimento, o Programa Mundial de Alimentos, a Organização Mundial da Saúde e a Unicef. Segundo ele, esses cortes "impactam diretamente o cotidiano dos habitantes de países em desenvolvimento".

Sobre minerais críticos, Lula afirmou que os países detentores desses recursos devem participar das etapas de maior valor agregado da cadeia, "por meio da industrialização, da transferência de tecnologia e da formação de capacidades". Em relação à transição energética e digital, o presidente disse que não pode haver concentração de benefícios econômicos em poucos atores.