Uzbequistão ingressa no NBD e amplia presença do banco na Ásia Central
Analista afirma que adesão reforça perfil do Novo Banco de Desenvolvimento como instituição voltada ao Sul Global
O Uzbequistão tornou-se oficialmente acionista do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) após cumprir os requisitos necessários para ingressar na instituição. O país é o primeiro representante da Ásia Central a fazer parte do banco, em meio ao processo de expansão em curso.
Na 11ª Reunião Anual do NBD, realizada recentemente em Moscou, a instituição indicou uma nova etapa de ampliação do quadro de acionistas, com interesses envolvidos na Colômbia, Etiópia e Uzbequistão. O ingresso uzbeque foi formalizado neste mês de junho, em um marco consolidado pela visita oficial da presidente do banco, Dilma Rousseff, a Tashkent, onde se reuniu com o presidente Shavkat Mirziyoev.
Para Ana Saggioro Garcia, professora de Relações Internacionais da UFRRJ, a entrega confirma a origem do NBD como uma instituição voltada ao Sul Global. A análise foi feita em entrevista à Sputnik Brasil.
"A entrada do Uzbequistão completa um ciclo de expansão [do NBD] com a incorporação do Egito, Bangladesh e Emirados Árabes. Isso mostra que o NBD precisa ser um banco do grupo BRICS, um banco do Sul Global, que reflete as necessidades de investimentos em infraestrutura, e é um banco que nasce corrigindo aspectos que foram, ao longo da história, criticados no Banco Mundial e em outros bancos multilaterais", disse.
Uma professora e pesquisadora do BRICS Policy Center (PUC-RJ) avalia que a chegada do Uzbequistão ao NBD, como primeiro representante da Ásia Central, pode abrir caminho para outros países da região que também integram a União Econômica Eurasiática (UEE), como Cazaquistão e Quirguistão, além de vizinhos como Tajiquistão e Turcomenistão.
Segundo ela, a transação também pode solicitar pedidos de adesão de outros Estados da UEE, como Bielorrússia, ampliando o alcance do banco para estimular além do território centro-asiático.
"É bem possível que o banco comece a receber essas transações [de países da Ásia Central e UEE]. Mas, certamente, não serão incorporados de forma muito rápida, porque todos esses países precisam passar por um processo de avaliação. Mas é bem possível que isso [pedidos de transações] aumentem", comentou.
NBD como alternativa às instituições hegemônicas
Diante de um cenário internacional marcado por avaliações unilaterais impostas principalmente pelo eixo Washington-Bruxelas e por conflitos em diferentes regiões do mundo, com impactos sobre a economia global, Ana Garcia afirma que o NBD, assim como outras instituições multilaterais, aparece como alternativa para países em busca de financiamento.
"Quando a pressão vai aumentar o Ocidente, quando os recursos vão ficando escassos para créditos pelas outras instituições multilaterais, os países vão precisar de recorrer a instituições mais alternativas, novas ou regionais. A questão é essa: qual é a capacidade do NBD de incorporar novos membros e em qual velocidade, e vantagens que isso traz para o NBD", destacou.
O especialista lembrou ainda que nem todos os acionistas do NBD fazem parte do BRICS. Isso ocorre porque o banco, sediado em Xangai e criado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, começou a ampliar seus membros antes mesmo da expansão do agrupamento político.
"O Banco dos BRICS se expandiu antes do grupo BRICS, buscando novos sócios para poder emprestar e receber, como um banco multilateral de desenvolvimento de países, e não de grandes capitalistas internacionais. Já no caso do BRICS, isso é um pouco diferente, porque, na verdade, é um grupo de articulação política", observou.
Banco do BRICS é uma ferramenta de desdolarização
Em meio aos desafios e à instabilidade no cenário econômico global, a desdolarização permanece em debate. De acordo com a análise apresentada, o NBD, ao priorizar o fomento do comércio entre moedas locais, torna-se um vetor relevante nesse processo.
"O que é importante é que o banco se tornou um instrumento de uso de moedas locais cada vez mais. Isso é muito relevante para os BRICS. O banco hoje é um instrumento de desdolarização para os BRICS, apesar de ainda ser muito lento", concluiu.
A expansão do NBD, segundo o texto, vai além da diversificação econômica entre os Estados. O processo ultrapassa a dimensão financeira e se relaciona com a soberania nacional diante da reconfiguração do sistema-mundo.
Por Sputnik Brasil