MORTE APÓS COLETA DE ÓVULOS

Irmã diz que juíza morta após coleta de óvulos sonhava em ser mãe

Mariana Francisco Ferreiro, de 34 anos, morreu depois de realizar procedimento em Mogi das Cruzes; amigos relatam expectativa da magistrada com a maternidade

Por Estadao Conteudo Publicado em 16/06/2026 às 10:59
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial Nano Banana (Google Imagen)

A juíza Mariana Francisco Ferreiro, de 34 anos, que morreu após realizar uma coleta de óvulos em Mogi das Cruzes (SP), via maternidade como um projeto de vida e sonhava em gestar. Ao Estadão, a advogada Luíza Ferreira, de 30 anos, irmã de Mariana, afirmou que a magistrada sempre quis congelar os óvulos, mas aguardava estabilidade no cargo, já que o procedimento exige alto investimento.

Segundo Luíza, Mariana decidiu iniciar o processo um pouco depois de completar os dois anos do período probatório após a posse. Ela atuou na comarca no Rio Grande do Sul. "Ela estava bem ansiosa. Era um sonho bem grande ser mãe", disse.

A expectativa também era conhecida por amigos. Maurício Silva Colferai, de 39 anos, assessor no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul e amigo da justiça, contou que Mariana foi cuidadosa com a saúde e as consequências rigorosamente o protocolo nas semanas anteriores ao procedimento.

"Ela seguiu os horários dos remédios, deixou de fazer exercícios intensos e não tomou bebida alcoólica por conta dos hormônios. Mariana estava muito feliz com o que estava vivendo", relatou à reportagem.

Mariana sofreu duas paradas cardíacas e teve dois órgãos retirados durante procedimento cirúrgico no Hospital Mogi-Mater. A cirurgia foi autorizada pelo ginecologista Maurício Ligabô, responsável pela coleta de óvulos na Clínica Invitro Reprodução Assistida, cerca de 28 horas após a entrada dela no hospital.

A defesa da Ligabô informou que ele reuniu-se com a equipe médica para prestar socorro e que aguardava laudos conclusivos.

Inspiração na própria mãe

“Ela amava o fato de querer ser mãe”, afirmou o contador Frederick Costa de Souza, de 39 anos, amigo de Mariana. De acordo com ele, a juíza era muito ligada à família. "Ela não parava de falar na mãe, sobre o quanto ela era forte e guerreira e como se espelhava nela para assumir a maternidade no futuro. Todo conhecia a mãe dela de tanto mundo que ela falava".

A mãe de Mariana acompanhou a filha durante o procedimento. A coleta de óvulos foi realizada na manhã de 4 de maio. Conforme o boletim de ocorrência, a juíza recebeu alta e voltou para casa. Pouco depois, começou a sentir fortes dores e retornou à clínica, de onde foi encaminhada a um hospital com quadro de hemorragia aguda.

Pesquisa e planos

A escolha de realizar o procedimento em Mogi das Cruzes ocorreu porque Mariana queria ficar perto da mãe, que mora na cidade, para que ela pudesse acompanhá-la. A Clínica Invitro Reprodução Assistida foi indicada por uma conhecida da família. Após buscar informações e avaliações sobre o local, a juíza decidiu fazer a coleta na unidade.

Familiares e amigos afirmam que o desejo de Mariana era ter uma concepção natural. No entanto, por entender que aquele não era o momento ideal, ela decidiu congelar os óvulos para preservar a possibilidade de ter filhos no futuro.

“Mariana se preocupava muito em buscar um bom pai pro filho dela. Ela dizia que caso o matrimônio com o futuro parceiro acabasse, ela teria a confiança de ter alguém pra estar ali doando amor pra criança. 'Fred, não existe ex-pai e ex-mãe. Isso é algo eterno. Eu quero que meu filho tenha isso no futuro', ela me disse”, relembrou Souza.

'Não foi uma fatalidade'

Como mostrou o Estadão, dois médicos que atenderam Mariana no hospital disseram, em depoimento à Polícia Civil, que alertaram várias vezes sobre a necessidade de uma cirurgia de emergência para salvar a vida da magistrada. Durante a internação, o quadro dela piorou, mas, segundo os depoimentos, Ligabô negou em diferentes momentos que ela precisava passar pelo procedimento cirúrgico.

Colferai contou que, ao receber a notícia de que havia ocorrido um problema no procedimento, ficou preocupado, mas acreditou que Mariana estaria segura por estar no hospital, sob cuidados médicos.

“Mariana não tinha que morrer, não foi uma fatalidade, foi uma sucessão de negligências que resultaram na morte dela”, criticou.

“Ela zelava muito para que o trabalho dela fosse feito da melhor forma possível, e a vida dela se foi porque alguém que não teve o mesmo zelo no trato com a saúde dela”, acrescentou.

Segundo familiares, após a morte de Mariana, Maurício Ligabô, responsável pela coleta, chegou a se oferecer para ajudar com os trâmites do velório. A família relata, porém, ter sentido pressão tanto por parte do hospital quanto do médico para providenciar rapidamente o velório e o enterro.

Depois que a família optou pela realização da autópsia, o último contato com Maurício ocorreu no hospital, quando ele comparou para revisar documentos relacionados ao exame. De acordo com a irmã, a mãe de Mariana contou que, naquele momento, o profissional “não olhou nem na cara dela”.

Dedicada, comunicativa e sonhadora

Mariana passou seis anos estudando para a magistratura. Nos momentos livres, assista a filmes e séries com a irmã. Depois que se mudou para o Rio Grande do Sul, as duas mantiveram o hábito mesmo à distância.

"A gente ligava o celular e ficava ou por vídeo ou telefone e dava para assistir juntas, porque é uma coisa que a gente fazia muito. Quando ficava isolado uma da outra, a nossa forma era ligar uma para a outra, aí deixava no mudo e, quando queria falar, ligava e ficava conversando", contou Luíza. "A minha irmã me ensinou tudo. Não desistir das coisas, acreditar em si mesma e não desistir dos sonhos".

“O que me entristece é que ela morreu sem saber o quanto era amada. Achava que as pessoas não gostaram dela por ser muito expansiva e comunicativa. Mas quando ela faleceu, eu vi o tanto de gente que gostou dela, não como juíza, como Mariana. Embora eu tenha perdido minha irmã, isso me conforta. Eu queria muito que ela soubesse disso”, disse, emocionada.

Os amigos também preservam lembranças da convivência com Mariana. Frederick, que nasceu no Rio de Janeiro, registrou que os dois planejavam explorar Porto Alegre juntos e estavam sempre em busca de novos lugares, experiências e atividades na cidade.

“Comida era uma situação que ela gostava bastante. Pizza era o alimento dela favorito. Ela conseguiu comer pizza até na Oktoberfest. São coisas que eu fecho o olho e lembro dela.”

No trabalho, Mariana era reconhecida pela dedicação e pelo cuidado com as pessoas, segundo os amigos. "Ela enxergava as pessoas e tinha apreço em querer que as coisas e montassem bem. Exigia a responsabilidade profissional de todo o mundo, mas ela também enxergava as nuances que todos temos", afirmou Colferai.