ECONOMIA INTERNACIONAL

BRICS Pay deve ampliar debate sobre pagamentos em moedas locais

Analistas ouvidos pela Sputnik Brasil apontam potencial para reduzir custos, mas citam desafios técnicos, políticos e institucionais

Por Sputnik Brasil Publicado em 15/06/2026 às 20:55
Legenda não informada no material original. © Sputnik / Sergey Bobylev / Acessar o banco de imagens

O BRICS avança no desenvolvimento de uma plataforma de pagamentos internacionais para transações instantâneas com uso direto de moedas locais entre países do grupo. Ainda em fase de testes e desenvolvimento prático, o BRICS Pay é comparado ao Pix brasileiro e utiliza tecnologia blockchain.

O tema deve estar entre os focos da 18ª Cúpula do BRICS, marcada para setembro, em Nova Deli, na Índia, país que assumiu a presidência rotativa do grupo neste ano.

No podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, desta segunda-feira (15), o especialista Matheus Cecílio, doutor em economia política internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), avaliou que o novo ecossistema digital aponta para um horizonte de desdolarização nas transações internacionais. Segundo ele, no médio prazo, a solução é mais técnica do que política.

A proposta, de acordo com Cecílio, não é substituir o dólar, mas diminuir custos de transação, facilitar o comércio entre os membros do BRICS, diversificar cestas de moedas internacionais e parceiros comerciais.

“Todos os países podem se unir. Isso pode reduzir os custos de transação, firmas e consumidores podem transacionar de maneira mais fácil, mas potencialmente muito mais rápida e sem se expor a custos cambiais”, afirmou.

O especialista ressaltou, no entanto, que, se bem instituído e fomentado, o BRICS Pay poderia representar entre 15% e 20% do comércio internacional até 2030, segundo o Conselho Empresarial do BRICS. Os países-membros do grupo já respondem por 40% do produto global.

Para Cecílio, um dos principais desafios é encontrar uma moeda forte capaz de viabilizar uma mudança estrutural no mercado financeiro.

“Reduzir o papel do dólar efetivamente tem uma contrapartida qualitativa na vida diária das economias emergentes, à medida em que elas não vão precisar no futuro se preocupar tanto com conseguir e manter moeda forte, vastos colchões de reservas internacionais, como é o caso do Brasil, como é o caso da China, por exemplo, a fim de que possam dar seguimento aos seus processos industrializantes ou reindustrializantes em alguns casos”, explicou.

No longo prazo, o especialista avaliou que a mudança exigirá esforços mais robustos, ainda sem estratégias claras.

O professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ebape), Luiz Antonio Joia, apresentou análise semelhante. Para ele, o BRICS Pay ainda não representa uma ruptura capaz de reconfigurar a ordem financeira global, principalmente por falta de capacidade política e institucional, diante da heterogeneidade dos países do grupo.

“Há diferentes infraestruturas tecnológicas, diferentes modelos regulatórios, diferentes contextos socioeconômicos e isso tudo teria que ser interligado. É uma iniciativa interessante, mas tem muita, muita, muita, muita água para rolar ainda aí”, disse Joia ao Mundioka.

Os dois entrevistados elogiaram a iniciativa, mas apontaram obstáculos políticos, geopolíticos e técnicos que ainda precisam ser superados.

Joia também destacou a dificuldade de definir a moeda a ser utilizada pelo BRICS nas transferências.

“O Pix é uma coisa maravilhosa, sensacional, sucesso, mas o Pix é local, é Brasil. Então você trabalha com o Banco Central, você trabalha com as fintechs, você trabalha com os bancos aqui, agora você está falando de uma moeda só, agora você está falando de um sistema que vai falar com diferentes moedas, diferentes países, diferentes contextos, diferentes governanças, diferentes bancos centrais, diferentes cenários políticos [...] muitas barreiras para chegar a algum consenso”, afirmou.

Cecílio lembrou que alguns países, como a China, já estão plenamente digitalizados, enquanto outros membros do BRICS ainda têm grande parte da população em processo de familiarização com serviços de pagamento digitais.

Segundo ele, no curto e médio prazo, a tarefa técnica é factível. No entanto, emular o que os Estados Unidos conseguem oferecer com o dólar é mais difícil e exige mudanças estruturais.

A avaliação dos entrevistados é que o sistema do BRICS deve conviver com o SWIFT, funcionando como alternativa atrativa para algumas transações com moedas locais, inclusive para pequenas e médias empresas.

Os especialistas alertaram, porém, que o ambiente geopolítico é muito volátil no setor financeiro e interfere diretamente nas transações comerciais. Como exemplo, Cecílio citou críticas e ações dos Estados Unidos contra o Pix brasileiro.

“O Pix é uma grande pedra no sapato das bandeiras de cartão de crédito, como VISA e Mastercard”, declarou. “A gente tem visto esse tema ser mais candente aqui na corrida eleitoral brasileira: um dos candidatos ao posto de chefe de Estado neste ano mencionou possivelmente abandonar o Pix e usar um sistema que é americano, que é o Zelle”.

Na avaliação do professor da FGV, o atual contexto do BRICS, que surgiu com Brasil, Rússia, Índia e China, e depois incorporou a África do Sul, passou a reunir novos atores e diferenças sociais, econômicas, políticas e tecnológicas relevantes.

Segundo Joia, a movimentação rumo à multipolaridade é uma tendência nas relações internacionais, com blocos que tendem a se multiplicar e a pulverizar gradualmente poderes antes concentrados em uma única potência. Ele afirmou que a China, potência que rivaliza com os Estados Unidos, tem se apresentado como defensora desse novo cenário.

“A China propõe os fóruns multilaterais, é defensora do multilateralismo e vem assumindo cada vez mais esse papel que os americanos estão um pouco deixando de lado, principalmente a partir da segunda administração [do presidente Donald] Trump”, argumentou.

Nesse sentido, Joia avaliou que o BRICS funciona como uma espécie de teste para a China, que “tenta navegar por esse vácuo deixado pelos Estados Unidos de uma maneira mais diplomática”.