GEOPOLÍTICA NO ESPORTE

Analista vê desgaste dos EUA e possível ganho de imagem para o Irã na Copa

Eduardo Gomes afirma que a presença da seleção iraniana em solo americano pode gerar solidariedade aos atletas e contestar estereótipos.

Por Sputnik Brasil Publicado em 15/06/2026 às 12:31
Seleção iraniana jogará a fase de grupos da Copa em estádios dos Estados Unidos © AP Photo / Vahid Salemi

A Copa do Mundo, disputada no Canadá, nos Estados Unidos e no México, também funciona como instrumento de soft power para os países-sede, devido ao alcance global do torneio. Nesta edição, porém, o evento é marcado por deportações, humilhações e ações de Washington contra atletas e jornalistas, além das hostilidades envolvendo o Irã, que impactam diretamente a seleção iraniana.

A equipe do Irã, que fará todos os jogos da fase de grupos nos Estados Unidos, precisou se concentrar no México por questões de segurança. Com isso, terá de se deslocar com frequência até os estádios americanos para enfrentar Nova Zelândia, Bélgica e Egito. A logística, segundo a análise apresentada, coloca em dúvida a isonomia da competição e cria uma desvantagem esportiva para os iranianos.

Ao mesmo tempo, a decisão iraniana de não boicotar o Mundial e disputar partidas em território americano pode produzir um efeito inesperado na opinião pública. A avaliação é de que parte do público pode se solidarizar com os atletas e buscar conhecer mais sobre o país, mantendo o desgaste da imagem dos Estados Unidos. A análise foi feita por Eduardo Gomes, doutor em história pela UFRJ e professor do Centro Universitário Serra dos Órgãos (Unifeso), em entrevista à Sputnik Brasil.

“Eles [os atletas] se colocarem disponíveis ao risco, a gente não pode esquecer disso, de estarem disputando essa competição e representar a sua nacionalidade. Se não o Irã como um todo, pelo menos esses atletas demonstram que o Irã não é necessariamente os estereótipos construídos pela mídia ocidental, notadamente a americana”, disse.

No início da Copa, Washington e Teerã ainda estavam envolvidos em uma guerra com restrições, inclusive no estreito de Ormuz, o que gerou impactos em diversas partes do mundo. Mesmo assim, a FIFA manteve os Estados Unidos como uma das sedes do torneio. Nesse contexto, o pesquisador avalia que algumas barreiras de preconceito contra a cultura iraniana podem ser superadas.

“A gente sabe de todas as questões [geopolíticas] que isso envolve. Acho que isso [a seleção iraniana disputar a Copa do Mundo] pode quebrar um pouco a barreira desses olhares negativos que o Ocidente constrói no modelo internacional, sem dúvida alguma”, comentou.

Copa nos EUA tem paralelos com regimes totalitários

O historiador afirma que um Mundial realizado nos Estados Unidos nas condições atuais representa um evento singular na história e que uma análise mais aprofundada exigirá distanciamento temporal. Apesar das diferenças entre os períodos, ele aponta paralelos com a Copa do Mundo de 1934, na Itália fascista, e com os Jogos Olímpicos de Verão de 1936, na Alemanha nazista.

“Isso talvez é um objeto de estudo para os acadêmicos tentar entender um pouco desse contexto. Porque mesmo o Mussolini, quando a Itália organizou a Copa do Mundo, se utilizou muito politicamente desse evento, e mesmo o Hitler na Olimpíada de 1936, os atletas negros que sofreram lá na Olimpíada, só que não sofreram tanto para entrar no país como alguns atletas estão sofrendo para entrar nos EUA hoje”, destacou.

Gomes, que também é especialista em futebol, avalia que o cenário provoca um soft power reverso. Para ele, o impacto não atinge apenas o governo americano, mas também a imagem do país, ultrapassando a esfera da política internacional entre governos, políticos e especialistas e chegando ao imaginário do cidadão comum.

“Os EUA se colocam como potência que tem o imperialismo como foco e se utiliza disso para construir a sua indústria cultural. Mas como se quer vender para o mundo negando o que o mundo traz? Porque se vende a ideia do sonho americano, da Disney e de Hollywood; as pessoas vão querer conhecer e consumir, mas ao se negar a entrada de determinadas etnias, e na maior parte sem justificativas plausíveis”, observou.

Casa Branca e a tentativa de 'ditadura internacional'

Outro ponto destacado por Eduardo Gomes é a conduta do governo americano. Na avaliação do professor, as ações de Washington apresentam semelhanças com traços ditatoriais e se projetam para fora do ambiente doméstico como uma tentativa de “ditadura internacional”, marcada pela imposição unilateral de força, mesmo diante de aliados e organismos multilaterais como a Organização das Nações Unidas (ONU).

“Mas há tentativa de uma ditadura internacional [por parte dos EUA]. Ele [Trump] há muito tempo está sem se importar com o que outras nações falam na ONU e sobre ações políticas no sentido bélico. E o que foi que ele fez na América Latina, ao intervir na soberania da Venezuela? Isso quebra todas as regras que a gente possa imaginar no pós-Segunda Guerra Mundial, na própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, da qual os EUA fazem parte da criação em 1948”, concluiu.

O esporte e a política mantêm conexões próximas por atuarem na comunicação de massa e mobilizarem interesses nacionais. Ao acionar o sentimento pátrio, o esporte projeta no campo simbólico dinâmicas da geopolítica, como mostra a atual edição da Copa do Mundo.

Por Sputnik Brasil