MATERIAL RADIOATIVO

Incidente com tecnécio-99 em São Paulo levanta dúvidas sobre uso médico e riscos

CNEN informou que dois trabalhadores foram examinados e que a contaminação ficou restrita à área controlada do Centro de Radiofarmácia do Ipen

Por Estadao Conteudo Publicado em 12/06/2026 às 19:32
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial Nano Banana (Google Imagen)

A confirmação de um incidente com traços de tecnécio-99 no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), em São Paulo, gerou questionamentos sobre o elemento químico, sua aplicação na medicina e os possíveis riscos à saúde. De acordo com a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), a ocorrência foi registrada durante a retirada de sensores biológicos de uma máquina de esterilização usada no processo produtivo de um radiofármaco.

A Universidade de São Paulo (USP), responsável pelo campus da Cidade Universitária, e o Ipen não responderam às tentativas de contato do Estadão.

O 2º vice-presidente do Conselho Federal de Química, Wilson Botter, explicou que o tecnécio é um elemento químico radioativo empregado principalmente na medicina diagnóstica.

"Ele é um elemento radioativo e artificial da tabela. Existe natural também, mas esse que nós usamos é produzido artificialmente a partir do molibdênio." Segundo Botter, o molibdênio também é radioativo e, ao emitir radiação, transforma-se em tecnécio. Esse processo integra a chamada desintegração radioativa, fenômeno em que um elemento químico se converte em outro ao liberar energia.

Por que o tecnécio é usado na medicina?

Segundo o especialista, uma das principais características do tecnécio é o curto tempo de meia-vida, de apenas 6 horas. Botter afirma que isso faz com que a substância perca rapidamente sua atividade radioativa, condição que favorece sua utilização em exames médicos.

O elemento é utilizado principalmente em cintilografias, exames que permitem observar órgãos e tecidos por meio da radiação emitida e identificada por equipamentos específicos.

Botter explica que o tecnécio é associado a substâncias com afinidade por determinados órgãos ou tecidos. Depois da aplicação no paciente, a radiação emitida pelo elemento é captada por detectores e processada por softwares que geram imagens da área examinada.

"Você injeta o tecnécio no organismo, esse tecnécio vai estar ligado a uma molécula que os ossos, quando é cintilografia óssea, ou o coração, quando é um exame cardiológico, têm afinidade."

Quais são os riscos da exposição?

Botter afirma que materiais radioativos podem causar danos ao organismo quando a exposição é suficiente para afetar células e moléculas do corpo. "Essa energia pode aquecer o material, pode destruir ligação química." De acordo com ele, em situações mais intensas, a radiação pode provocar alterações celulares e até mutações no DNA.

"Quando você altera a estrutura do DNA dentro da célula, essa célula pode começar a produzir uma célula mutante, porque ela tem um DNA diferente, e essa célula mutante a gente chama de câncer."

Apesar disso, o especialista ressalta que a gravidade dos efeitos depende da intensidade da exposição, da quantidade de material envolvida e do tempo de contato.

"Mas veja, essa radiação do tecnécio é de baixa energia, são raios gama, e não para você ter uma ação muito intensa de produzir a mesma situação que aconteceu com o urânio em Goiânia, você precisa de alta exposição, alta exposição, uma dosagem muito grande."

O que se sabe sobre o caso do Ipen?

O incidente envolveu dois trabalhadores, que passaram por exames in vivo, no Contador de Corpo Inteiro. As contagens de radioatividade detectadas foram baixas e indicaram que não houve contaminação interna. Segundo a CNEN, a contaminação ficou restrita à área controlada do Centro de Radiofarmácia do instituto.

Com base nas informações divulgadas até o momento, Botter afirmou que não considera o episódio grave. Ele destacou que profissionais que atuam em laboratórios e centros de produção de radiofármacos seguem protocolos rigorosos de segurança.

"Esse tipo de contaminação não costuma ser grave, porque os técnicos são treinados, os técnicos sabem com o que eles estão lidando", disse.

O especialista também ressaltou a importância dos profissionais da química na produção de radiofármacos e em processos ligados ao uso seguro de materiais radioativos na área da saúde.