MERCADO FINANCEIRO

Juros futuros recuam com expectativa de entendimento entre Irã e EUA

Às vésperas da decisão do Copom, taxas intermediárias e longas devolveram prêmios, enquanto inflação ainda mostra pressão qualitativa

Por Estadao Conteudo Publicado em 12/06/2026 às 18:25
Reprodução / Agência Brasil

Às vésperas da decisão de junho do Comitê de Política Monetária (Copom), os juros futuros intermediários e longos voltaram a devolver prêmios nesta sexta-feira, 12. Segundo agentes do mercado, apesar de os dados de inflação indicarem um quadro qualitativo ainda pressionado, a sinalização do Irã de que um acordo de paz com os Estados Unidos está próximo ajudou as taxas a corrigirem parte dos excessos registrados na semana.

Com o ajuste no mercado local de renda fixa, a probabilidade indicada pela curva futura de que o Banco Central mantenha a Selic nos atuais 14,50%, que chegou a cerca de 70% na última quarta-feira, encerrou a sessão em 40%, conforme cálculos do banco Bmg. Em sentido oposto, a chance de nova redução de 0,25 ponto porcentual voltou a ser majoritária, passando de 30% para 60%.

A reversão observada nos dois últimos pregões fez os principais vértices negociados na B3 recuarem no acumulado da semana. O DI para janeiro de 2027 caiu cerca de 8 pontos-base em relação ao fechamento da sexta-feira anterior. Já os vencimentos de janeiro de 2029 e de 2031 tiveram queda em torno de 35 pontos-base.

No dia, porém, os trechos mais curtos mostraram resistência à queda, diante da percepção de que o Banco Central perdeu graus de liberdade na condução da política monetária. Ao fim dos negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2027 passou de 14,331%, no ajuste de quinta-feira, para 14,36%. O DI de janeiro de 2029 recuou de 14,559% para 14,455%, enquanto o DI de janeiro de 2031 cedeu de 14,462% para 14,33%.

Impulsionados pela declaração do ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, de que um memorando de entendimento entre os EUA e o Irã "nunca esteve tão perto", os contratos futuros de petróleo caíram cerca de 3% nesta sexta-feira, ficando abaixo de US$ 90 o barril. O movimento trouxe alívio às curvas globais de juros e ajudou a moderar as taxas no mercado brasileiro.

No fim da tarde, Araghchi detalhou que o memorando, a ser composto por 14 artigos, será a primeira etapa para uma tratativa, seguida de negociações para um acordo definitivo.

Gestor de renda fixa da Armor Capital, Igor Campos avalia que, considerando a melhora do cenário externo, os DIs deveriam apresentar devolução maior dos prêmios. "A curva ainda está devendo um pouco, porque ainda temos um posicionamento muito ruim, sem tanta profundidade para a quantidade de players", afirmou.

Campos lembrou que o saldo da semana ainda foi marcado por eventos negativos para os juros, como o recrudescimento das expectativas inflacionárias, o ressurgimento das preocupações com o problema fiscal do País e a continuidade do confronto no Golfo Pérsico.

"Todo mundo estava apostando em um grau de normalização do conflito que pudesse trazer alguma flexibilidade para o BC cortar juros no curto prazo. Juntando todos estes elementos, a curva se descorrelacionou do externo de maneira forte e, agora, dependendo de como a guerra se encaminhar e da próxima reunião do Copom, pode voltar a ter racionalidade", disse.

Apesar disso, o gestor da Armor afirma que, no curto prazo, o Banco Central tem menos espaço para afrouxar a Selic. Para ele, isso explica o desempenho pior das taxas mais curtas em relação aos demais vértices da curva a termo. "O BC perdeu flexibilidade em relação à condução da política monetária no curto prazo. Nosso cenário, de que deve haver mais dois cortes na Selic, já pode ser considerado otimista".

Para Ian Lima, Diretor de Investimentos de Renda Fixa da Inter Asset, a combinação de fatores que reforça a necessidade de uma postura mais cautelosa da política monetária deve levar o Copom a manter a Selic em junho. Segundo ele, os principais elementos para a manutenção dos juros seriam a deterioração das expectativas de inflação, a persistência de uma inflação corrente ainda pressionada e um nível de atividade econômica mais resiliente do que o esperado.

Divulgado na abertura dos negócios pelo IBGE, o IPCA desacelerou de 0,67% em abril para 0,58% em maio. O resultado superou em 3 pontos-base a previsão mediana de analistas do Projeções Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, que indicava alta de 0,55%.

Na avaliação do economista Adriano Valladão, do Santander, a ausência de aceleração em diversos núcleos pode ser considerada "uma boa notícia" no dado.