DIPLOMACIA

Planalto descarta pedir reunião formal entre Lula e Trump no G7

Governo brasileiro avalia que eventual contato entre os presidentes na França deve ocorrer apenas de forma informal, sem negociação substantiva

Por Estadao Conteudo Publicado em 12/06/2026 às 17:52
Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva © ANSA/AFP

Integrantes do governo brasileiro afirmam que um eventual encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no G7, na França, só deve ocorrer de maneira informal, sem espaço para discussões substantivas.

Segundo conselheiros do presidente brasileiro, até esta sexta-feira, dia 12, não houve pedido de reunião por parte do Palácio do Planalto nem da Casa Branca para que os dois líderes voltem a se encontrar.

O governo Lula não vê espaço, durante a reunião do G7, para tratar de temas conflitantes da agenda bilateral. Também não considera possível reverter, nesse ambiente, a classificação das organizações criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como terroristas ou bloquear a proposta dupla de novo tarifaço sobre exportações com base na Seção 301: uma de 25% por supostas práticas desleais e outra de 12,5%, relacionada ao trabalho forçado.

Para o governo brasileiro, não há sentido nem motivação política para uma nova interação neste momento. A avaliação é de que Trump não mudaria decisões de governo discutidas há meses e recentemente oficializadas apenas por uma conversa entre os dois presidentes.

Segundo um conselheiro do presidente, não seria realista contar com essa mudança e não há necessidade de uma reunião agora. Ele afirma que seria uma desmoralização para Trump retirar a designação das facções e que Lula não pode, neste momento, "suplicar" por uma revisão, mas deve manter a cooperação técnica entre polícias e estruturas de segurança pública.

Além disso, o prazo administrativo estabelecido pelo Representante Comercial da Casa Branca (USTR) para negociações vai até 15 de julho, e seguem em andamento contatos comerciais em nível técnico. Por isso, o Palácio do Planalto entende que Trump responderia apenas que vai aguardar o fim das tratativas comerciais.

Uma nova reunião política de status ministerial, entre o ministro Márcio Elias Rosa (Mdic) e o embaixador Jamieson Greer (USTR), estava prevista para esta semana e deve ocorrer em breve para discutir setores e tarifas.

Segundo integrantes do governo, até agora não houve decisão de discutir tarifas específicas, como a do etanol, cujas lideranças se reuniram com Lula nesta semana. Nas reuniões anteriores, o governo indicou áreas em que poderia negociar a tarifa.

O governo brasileiro nega, por isso, que tenha tomado providências para antecipar a viagem do presidente para o dia 14 com o objetivo de encontrar Trump. Lula deve chegar à França na tarde do dia 15.

A Presidência da República afirma que a chegada de Trump, estimada pela organização francesa, deve ocorrer após a de Lula, na noite do dia 15. O republicano celebra aniversário no dia 14.

De acordo com diplomatas, o que pode ocorrer em Évian-les-Bains, cidade dos Alpes que sedia o G7, é apenas uma espécie de "trombada" nos corredores ou na sala das reuniões de líderes, já que ambos devem compartilhar o mesmo ambiente.

A situação seria semelhante ao que ocorreu na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), nos "39 segundos" de "química" nos bastidores reservados aos chefes de Estado. Não se trataria de uma reunião de trabalho com equipes ministeriais, como a recente visita de Lula à Casa Branca, em Washington, ou a reunião realizada em Kuala Lumpur, na Malásia, no ano passado.

Nesses dois encontros anteriores, houve discussão detalhada sobre assuntos da pauta bilateral, inclusive com troca de documentos e propostas dos dois lados, além de acerto de métodos e prazos para discussões de interesses comuns.

Lula terá reuniões bilaterais com o presidente da França, Emmanuel Macron, e com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi.

Há mais quatro encontros em avaliação, entre eles com o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, e com os líderes da União Europeia, Ursula von der Leyen, da Comissão Europeia, e António Costa, do Conselho Europeu.

Com os europeus, Lula deve tratar da preocupação do Brasil e pressionar por uma revisão da exclusão do País como exportador de carne e produtos de origem animal ao mercado do bloco.

Com Japão e Canadá, o governo pretende discutir temas comerciais ligados ao Mercosul. O objetivo é formalizar o lançamento de uma negociação de acordo de comércio Japão-Mercosul e manter contato com vistas à conclusão das negociações do acordo Canadá-Mercosul.

Lula também participará de um almoço, no âmbito do G7, com representantes das principais big techs e chefes de Estado e de governo. O presidente deve falar sobre a proposta de regulação no País e sobre o Eca Digital.

Discurso oficial

O presidente se prepara para fazer ao menos dois discursos públicos, em sessões de debate dos líderes sobre desequilíbrios macroeconômicos globais e parcerias globais para o desenvolvimento.

Nessas falas, Lula deve se posicionar contra tarifas e decisões unilaterais, incluindo guerras e intervenções militares, além de defender a necessidade de reforma das instituições internacionais.

O discurso está sendo calibrado, mas deve responder a ações do governo Trump para não demonstrar "fraqueza política". O governo entende que a resposta se justifica por causa da disputa pré-eleições e da campanha no exterior do pré-candidato e senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Parte dos conselheiros do presidente recomendou que ele não adote o mesmo tom mais agressivo usado para o público interno no Brasil.

A expectativa é que Lula utilize uma linguagem mais diplomática e fale contra o unilateralismo e o protecionismo.