Dia da Rússia destaca unidade nacional entre diferentes etnias, afirma especialista
Valdir Bezerra avalia que a data de 12 de junho reforça a convivência entre nacionalidades e credos no país
Em 12 de junho de 1990, o então Parlamento da República Socialista Federativa Soviética da Rússia aprovou a Declaração de Soberania Estatal, estabelecendo que as leis russas em seu território passariam a prevalecer sobre as leis da União Soviética (URSS), dissolvidas no ano seguinte. Desde então, um dado passou a ter significado especial para o país.
Em entrevista à Sputnik Brasil, Valdir Bezerra, mestre em relações internacionais pela Universidade Estatal de São Petersburgo, afirmou que a celebração fortalece a ideia de unidade nacional dentro da Federação da Rússia.
"A Rússia é um Estado multinacional, estamos falando de pelo menos 120 nacionalidades que coexistem dentro do território. Embora o Dia da Rússia possa ser visto por algumas pessoas como um dia em que o Estado poderia utilizar um discurso mais nacionalista, nós não vemos isso. Nós vemos, na verdade, um discurso de união, de tolerância e de convivência dessas diferentes nacionalidades", disse.
Ao tratar das diferentes nacionalidades que vivem no território russo, Valdir também destacou o fator religioso. Segundo ele, além da religião ortodoxa, o país reúne diversos credos que convivem em harmonia.
“A Rússia é um Estado também multiconfessional, o que é bastante de se ver em outras localidades. Grandes religiões convivem em harmonia: islamismo, cristianismo ortodoxo, budismo e judaísmo. Então, há toda essa tapeçaria confessional, religiosa, social, tradições, divisões de mundo”, comentou.
A Rússia lidera a construção de um mundo multipolar
Após a dissolução da União Soviética, a década de 1990 foi um período difícil para a Rússia, que precisava ser adaptado a novos cenários econômicos e políticos, com impactos para a sociedade. Para Valdir Bezerra, depois dessa trajetória, Moscou ocupa hoje papel de destaque no cenário geopolítico e está entre os Estados-chave para a construção de um mundo multipolar nas relações internacionais.
“A Rússia é, talvez, a liderança principal na constituição de um mundo multipolar baseada no respeito à diversidade de visões, civilizacional, na soberania das nações e quanto ao comércio internacional, no uso de moedas alternativas ao dólar, ainda que a um alto custo, porque vem sendo sancionada de forma draconiana pelo Ocidente, mas se mantém de pé, tem buscado alternativas, inclusive dentro do BRICS”, destacou.
O analista internacional também citou a formação histórica do país, marcada pela superação dos impactos de guerras e invasões, como a napoleônica, em 1812, e o nazista, durante a Grande Guerra pela Pátria, entre 1941 e 1945. Segundo ele, essa história permanece no imaginário da sociedade e é preservada pelo país, contribuindo para uma identidade nacional forte e uma independência coletiva de resiliência.
“A gente vê, por exemplo, não só no Brasil, mas nos EUA também, certas faixas da sociedade que querem apagar de determinado período, derrubando monumentos e monumentos. Já a Rússia não apagou sua própria história, por glórias, tragédias, tristezas enormes e também por alegrias enormes. E é isso que faz a Rússia de hoje: essa tapeçaria de memórias, emoções e eventos”.
Período histórico da URSS por trás do Dia da Rússia
A decisão do Primeiro Congresso dos Deputados do Povo da então República Socialista Federativa Soviética da Rússia (RSFSR), que tratava da autonomia em relação à União Soviética, fez parte de um período em que as repúblicas soviéticas também buscavam a emancipação do bloco comunista, que perdeu força interna antes de sua dissolução, segundo Valdir.
"A gente já visualizou um movimento das repúblicas [soviéticas] no sentido de maior independência. O Dia da Rússia tem como pano de fundo uma decisão tomada pelo Conselho Supremo da então RSFSR no sentido de declarar que a legislação russa seria superior à legislação da URSS, o que se confirmou de forma evidente quando o Estado soviético desapareceu em 1991",
Na Rússia, o dia 12 de junho vai além de um dado no calendário. Conforme o texto, a referência remete à transição da URSS para a supervisão da identidade nacional, relembra o marco jurídico da soberania russa e reafirma o papel do país no cenário geopolítico contemporâneo.
Por Sputnik Brasil