COMÉRCIO E PIX

Ato na 25 de Março critica investigação dos EUA sobre comércio e Pix

Manifestantes defenderam a soberania brasileira e protestaram contra iniciativas do governo Trump voltadas ao sistema de pagamentos e ao comércio popular.

Por Sputnik Brasil Publicado em 11/06/2026 às 18:44
Manifestantes protestam na Rua 25 de Março contra ações dos EUA sobre comércio brasileiro e Pix © Sputnik / Guilherme Correia

Manifestantes se reuniram nesta quinta-feira (11) na Rua 25 de Março, no centro de São Paulo, em protesto contra iniciativas recentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, direcionadas ao comércio brasileiro e ao Pix, sistema de pagamentos mais utilizado no país.

O governo norte-americano incluiu o comércio popular da 25 de Março e o sistema brasileiro de transações em uma investigação sobre supostas práticas desleais de comércio. A Casa Branca sustenta que o Banco Central do Brasil acumula as funções de regulador e operador do sistema, o que, na avaliação de Washington, prejudicaria empresas estadunidenses de pagamentos e redes sociais.

Alex Eça, diretor do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, afirmou que o Pix movimenta R$ 35 trilhões por ano, valor que escapa às taxas cobradas por operadoras como Mastercard e Visa. Segundo ele, cerca de R$ 12,5 bilhões deixaram de ir para os cofres dos EUA. Eça também rejeitou a proposta, atribuída à família Bolsonaro, de substituir o Pix pelo sistema norte-americano Zelle nas negociações com Washington.

“Soberania do Brasil, sem intervenção norte-americana ou de qualquer outro país. A garantia de que o PIX seja a moeda corrente no nosso país, sem intervenção, principalmente norte-americana”, disse ele.

A manifestação também contou com lideranças comunitárias, entre elas Celeste Gastão, cuidadora e líder da região de São Mateus, na zona leste paulistana. Presente no ato, ela relacionou a pauta econômica à luta contra a escala de trabalho 6 por 1 e à defesa da soberania popular.

Para Celeste, a jornada exaustiva equivale a uma forma moderna de escravidão. Segundo ela, os homens não têm tempo de cuidar dos filhos nem de jogar bola, enquanto as mulheres também ficam sem espaço para outras atividades.

A liderança afirmou entender que o interesse de Washington está nos recursos brasileiros e que atacar o Pix também seria atacar a soberania nacional. “O Brasil existe e é soberano. O Pix também é nosso”, disse.

O que Trump falou do Pix?

Donald Trump vê o Pix como uma ameaça aos interesses das empresas de pagamentos estadunidenses e ao domínio global do dólar. A ofensiva dos Estados Unidos contra o sistema começou em 15 de julho de 2025, quando Washington anunciou a abertura de uma investigação sobre supostas práticas comerciais desleais do Brasil.

Na ocasião, o documento não citava o Pix diretamente. O texto fazia referência a “serviços de comércio digital e pagamento eletrônico” oferecidos pelo Estado brasileiro — na prática, o único sistema público com essa finalidade no país.

Em 1º de junho de 2026, o governo dos EUA concluiu a investigação e propôs a aplicação de uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. A medida ainda depende de decisão final de Trump.

O instrumento utilizado é a Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA de 1974, mecanismo que permite a Washington investigar países cujas políticas sejam consideradas prejudiciais ao comércio ou às empresas norte-americanas.

O cronograma prevê audiência pública para o dia 6 de julho, com prazo para comentários escritos até 1º de julho, e define 15 de julho como data-limite para a adoção de medidas corretivas contra o Brasil.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou ter sido pego de surpresa com o relatório do USTR. Ele destacou que havia uma negociação em andamento entre os dois países após encontro na Casa Branca em maio, quando foi estabelecido um prazo de 30 dias para avançar nas discussões bilaterais.

O governo brasileiro trabalha para fechar um acordo comercial até 15 de julho e evitar que os Estados Unidos imponham a sobretaxa de 25%. A avaliação é de que é possível, embora difícil, chegar a um entendimento mais vantajoso para ambos os países.

A leitura no Planalto é de que o governo Trump pode recuar na tarifa de 25%, mas apenas mediante concessões.

A disputa comercial vai além do Pix. Somadas às tarifas da investigação específica contra o Brasil, outras medidas do USTR poderiam resultar em uma taxação de até 37,5% sobre exportações brasileiras.

Diante desse cenário, Lula sinalizou que o Brasil buscará novos parceiros comerciais para reduzir os impactos de eventuais sanções norte-americanas.