Países asiáticos ampliam influência global com cultura e tecnologia digital
Especialistas ouvidos pelo Mundioka analisam o avanço do soft power de Japão, Coreia do Sul, China e Índia
Elementos culturais e tecnologia digital têm ampliado a capacidade de países asiáticos romperem barreiras e projetarem influência no cenário internacional. O tema foi analisado no Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, a partir do conceito de soft power.
Segundo o internacionalista Joseph Nye, citado pelo professor de história da Ásia na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Emiliano Unzer, as nações projetam seu soft power por meio de elementos culturais e linguísticos, alcançando áreas diferentes daquelas associadas ao hard power.
“Você consegue transpor barreiras, não necessariamente por aviões e nem por sanções econômicas. E nisso você consegue ter uma espécie de competição pelo campo afetivo, campo cognitivo, que as pessoas começam a receber e começam a processar”, explica o analista sobre o poder da cultura e do entretenimento.
Com as tecnologias digitais, países do continente asiático conseguem romper barreiras coloniais de representação impostas pelo Ocidente e narrar a própria história a partir de seus anseios e afetos.
Para Unzer, o horizonte de percepção de um jovem hoje é “muito mais amplificado do que daquele que cresceu nos anos 50, 60 do século passado”. Segundo ele, esse público tem mais acesso a informações, seriados, roupas, comportamentos, valores, sabores e sons.
O professor também citou sua experiência pessoal com o entretenimento asiático, especialmente no contato com animes japoneses exibidos pela televisão na década de 1980.
Expansão do soft power asiático foi programada?
A ampliação das opções de entretenimento, com a chegada de novas produções, trouxe outras perspectivas em relação aos conteúdos ocidentais, avalia Mayara Araújo, professora da Universidade de Estudos Internacional de Zhejiang.
“A gente tem procurado um consumo mais diverso e tem se adaptado a ver novos corpos, principalmente em termos de audiovisualidade”, afirma.
De acordo com a professora, os japoneses foram pioneiros na expansão desse soft power, mas de forma pouco ordenada. Segundo ela, o processo foi “um movimento de empresas privadas que exportaram o seu conteúdo” e mostrou, do ponto de vista japonês, que esse produto poderia gerar rendimentos.
A Coreia do Sul seguiu outro caminho. Hoje, o país tem prestígio e influência por meio da indústria cinematográfica e da música, além de expandir o soft power para setores como moda e beleza.
“A Coreia do Sul tem um planejamento estatal, desde a década de 80, para se exportar a cultura coreana ao redor do mundo”, diz Araújo.
Segundo Unzer, Seul agora colhe os resultados desse investimento, que tem peso significativo no PIB local. “Para cada um dólar que o governo sul-coreano fomenta nas produções culturais, tem retorno de 8 dólares”, afirma.
China e Índia também aparecem entre os mercados que vêm ganhando destaque internacional. No caso de Nova Deli, a produção de Bollywood é expressiva no setor audiovisual.
Já Pequim, conforme os analistas, tem expandido suas produções culturais de forma estruturada. O movimento vai do cinema de artes marciais de Hong Kong dos anos 1970 até a animação “Ne Zha 2”, lançada no ano passado e responsável por quebrar recordes mundiais de bilheteria.
“A grande questão para a China hoje não seria simplesmente usar a cultura a favor da economia, embora óbvio que tenha um diálogo muito forte, mas principalmente uma ideia de competir com narrativas sobre a China, de apresentar a China como um país que talvez não seja nada do que o Ocidente diz que é”, avalia Araújo.
Soft power quebra barreiras
Na circulação dos conteúdos, já há parcerias entre países ocidentais e nações asiáticas. “A Netflix passa a se tornar uma mediadora da onda coreana no Brasil”, cita a professora da universidade de Zhejiang.
Para Araújo, a plataformização dos conteúdos e a lógica algorítmica podem afetar a ideia de condições iguais entre as partes.
“A gente retoma um pouco a ideia do imperialismo, né!? E o imperialismo, ele estaria aqui sendo traduzido, num primeiro momento, pela infraestrutura tecnológica, que via de regra as plataformas são estadunidenses”, analisa.
Segundo a especialista, é necessário observar o modo de atuação das grandes empresas do audiovisual, que pode envolver desde a apropriação de mão de obra barata até interferências nas perspectivas dos produtores de conteúdo. Ela acrescenta que a regulamentação dessas plataformas, como vem sendo discutida no Brasil, é importante para que as empresas ofereçam contrapartidas ao entrar em mercados pelo mundo.
Do ponto de vista das relações diplomáticas, Unzer avalia que o soft power permite maior abertura e agrega elementos de confiabilidade entre as nações.
“Quando você começa a ter uma proximidade maior com a familiaridade, com a história, com a cultura, com a língua, você já quebra uma das barreiras mais difíceis na diplomacia, que é o distanciamento, o estranhamento”, conclui.