EDUCAÇÃO

Especialistas defendem alfabetização, tempo integral e valorização docente como prioridades

Propostas foram apresentadas no segundo encontro do projeto Brasil Adiante e devem compor documento ao presidente eleito

Por Estadao Conteudo Publicado em 11/06/2026 às 17:57
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial Nano Banana (Google Imagen)

Garantir o aprendizado básico e a erradicação do analfabetismo até 2030, ampliar os investimentos em escolas de tempo integral e melhorar a formação dos professores foram apontadas como três prioridades para os dois primeiros anos do próximo governo federal.

As propostas foram apresentadas por especialistas nesta quinta-feira, 11, durante o segundo encontro do Brasil Adiante, série de eventos promovida pelo Estadão até agosto.

O ciclo de debates tem como objetivo reunir medidas concretas para enfrentar problemas do País. As soluções serão consolidadas em um documento a ser entregue em novembro ao vencedor da eleição presidencial.

“Se não tiver um fanatismo em educação por parte da maior liderança política do País, o Brasil não vai dar um salto. Precisamos de líderes obcecados em resolver os problemas da educação”, afirmou o presidente da Fundação Lemann, Denis Mizne, um dos palestrantes do painel.

Segundo Mizne, “vontade política se cria”. Para ele, mesmo que a educação não seja prioridade dos governantes, cabe à sociedade civil exigir esse compromisso.

Garantir o aprendizado básico e elevar a meta de alfabetização para 100% até 2030

Os participantes destacaram que é essencial manter políticas públicas já existentes, entre elas o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA). “O pior erro que pode acontecer no Brasil é mexer no que está dando certo”, disse a cofundadora e presidente-executiva do Todos Pela Educação, Priscila Cruz.

Ela observou que, embora a educação básica seja responsabilidade dos municípios, o governo federal tem papel de coordenação nacional do ensino.

De acordo com Priscila Cruz, essa coordenação envolve estruturar programas que estados e municípios executam diretamente, como desenvolvimento de material didático, definição de metas, avaliações de resultado e incentivos financeiros.

“Se não, o aluno aprenderia de acordo com o seu CEP, e sabemos que isso não é justo. Além disso, o governo federal tem um papel muito importante de provocar o modo turbo dos Estados e Municípios”, afirmou.

Em 2019, 55% dos estudantes do 2º ano da rede pública avaliados pelo MEC eram considerados alfabetizados. O índice caiu para 49% em 2021, durante a pandemia. Em 2023, ano de criação do CNCA, o percentual subiu para 56%. Em 2025, último ano com dados disponíveis, o Indicador Criança Alfabetizada (ICA) chegou a 66%.

Mizne afirmou que os resultados foram possíveis pela combinação de estratégias baseadas em ações que já haviam dado certo em governos estaduais, como no Ceará.

“O governo federal oferece aos municípios material didático e formação de professores para alfabetização. Depois, cria uma prova (ICA) necessária para receber a formação e o material de graça. Também cria uma premiação com base no resultado da prova, em que os melhores municípios recebem dinheiro. Ainda tem uma cerimônia do prêmio com o presidente, governadores e prefeitos, e incentivos no orçamento”, explicou.

Para o presidente da Fundação Lemann, somente a implementação conjunta das medidas gera resultado. “Você pode dar o bônus financeiro que quiser. Mas não terá resultado nenhum sozinho.”

A meta atual do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada é alcançar 80% até 2030. Para os especialistas, o objetivo deve ser ampliado.

“Precisamos subir a barra, chegar a 100% até 2030 e garantir que erradicamos o analfabetismo escolar até o final da próxima gestão”, avaliou Mizne.

Ele também defendeu que o mesmo modelo seja replicado para a matemática.

O relatório anual mais recente da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Education at a Glance, mostra que o Brasil investe US$ 3,8 mil por aluno ao ano na educação básica. O valor é inferior ao aplicado por Argentina e Chile e corresponde a um terço do investimento feito pelos países da OCDE.

O fundador do Parceiros da Educação e da Proz Educação, Jair Ribeiro, concordou com a necessidade de foco nas aprendizagens essenciais. “Precisamos dar para esses alunos o básico de matemática e língua portuguesa. E isso não é saber trigonometria avançada. Eles precisam sair do ensino médio dominando a linguagem com profundidade e sabendo o básico de matemática.”

No Pisa de 2022, 73% dos estudantes brasileiros tiveram baixo desempenho em matemática e 50% apresentaram o mesmo resultado em leitura. A média entre os países da OCDE é de 31% e 26%, respectivamente.

“Precisamos focar muito em resgatar esses milhões de crianças, e tem muitos projetos já testados em vários estados que o governo federal deveria induzir, dar material didático e apoiar financeiramente”, afirmou Ribeiro.

Como exemplo, ele citou o programa Professor Tutor, do Estado de São Paulo. Criada em 2024, a iniciativa prevê a contratação de tutores para auxiliar estudantes a superarem defasagens em matemática e português.

Intensificar os investimentos em escolas em tempo integral

Jair Ribeiro também defendeu a expansão das escolas em tempo integral com metas consideradas “agressivas”. “Um ano de escola em período integral equivale a três anos de uma regular. Isso tem evidência, tem prova.”

“A escola em tempo integral com professores de dedicação exclusiva é fundamental”, disse Mizne.

Ribeiro criticou o governo federal e o Congresso Nacional por priorizarem o programa contra a evasão escolar Pé de Meia em detrimento dos colégios integrais. “Ano passado, o governo reduziu em mais de 90% o volume de investimentos do MEC para as escolas de tempo integral por causa do Pé de Meia, que não tem evidência de resultado.”

Segundo ele, o problema não é falta de recursos, mas a destinação do dinheiro. “Programas mais eleitoreiros, populistas e assistencialistas ganham prioridade em cima daqueles com evidência.” A proposta apresentada por Ribeiro é reduzir o orçamento do programa contra evasão e direcionar os recursos para a educação em tempo integral.

Ao tratar de metas concretas para as escolas de tempo integral, o fundador do Parceiros da Educação afirmou que o cenário varia entre os estados. “A população mudou de lugar. Onde há mais demanda é na periferia, porque a população mudou para lá. Então, você precisa construir escola e isso demanda tempo.”

Para Priscila Cruz, o investimento em educação não deve ser visto apenas como garantia de um direito, mas como um “pilar” do desenvolvimento nacional. “Nenhum país se arrependeu de priorizar a educação.”

Ela afirmou que muitos agentes políticos ainda não enxergam a educação como tema estratégico para o crescimento do País. “Precisamos fazer a conexão da educação com crescimento econômico, com empregos melhores, preparação para o mercado de trabalho.”

Melhorar a formação dos professores

A cofundadora do Todos Pela Educação também apontou como urgente a adoção de medidas para tornar a carreira docente mais atrativa e melhorar a formação dos professores. “Qual o fator mais importante para garantir que todos os alunos aprendam? É o professor.”

“Nossos mestres são as pessoas que menos aprenderam na educação básica, que tiveram a menor média do Enem. Os cursos de licenciatura são 80% educação a distância (EAD), ou seja, eles não aprendem nada, muito menos a ser professor”, afirmou.

Mais de um terço dos professores brasileiros avaliados pelo MEC não tem condições para dar aulas. A principal falha na formação aparece em matemática, área em que mais da metade dos docentes não alcançou o nível básico considerado pelo governo federal.

Os resultados da Prova Nacional Docente (PND), conhecida como “Enem dos professores”, foram divulgados no mês passado pelo MEC e abrangem 1.508 municípios do País, incluindo 18 capitais, além de 22 redes estaduais.

O dado se soma a estudo realizado por pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV), com apoio do Instituto Península, segundo o qual o professor é responsável por quase 60% do resultado dos alunos no ensino fundamental no Brasil. Isso significa que o docente pesa mais do que todas as demais variáveis da escola pública somadas, como número de alunos por turma, escolaridade dos pais, acesso à internet e até o partido do prefeito.

Para enfrentar esse cenário, o governo estrutura com a sociedade civil o programa Mais Professores. “A ideia é atrair os melhores alunos que fizeram o Enem, com nota acima de 650, com uma bolsa para quem for fazer licenciatura, em universidade paga ou pública. Ele vai ter uma bolsa para não precisar trabalhar em outra área, poder se dedicar aos estudos e conseguir pagar essa faculdade privada, se for o caso”, explicou Priscila Cruz.

Pesquisas internacionais indicam que um bom salário inicial é relevante para atrair talentos à carreira docente. Estudo divulgado pelo Movimento Profissão Docente neste ano analisou salários de 2025 com base em dados oficiais e mostrou que um professor no Brasil, sem considerar gratificações e prêmios, inicia a carreira com média de R$ 6,2 mil, equivalente a quase quatro salários mínimos. O piso estipulado por lei no ano passado foi de R$ 4.868.

Evento faz parte do projeto Brasil Adiante; veja cronograma

Às vésperas das eleições de outubro, o Estadão promove a série Brasil Adiante com o objetivo de construir uma agenda integrada e executável de soluções para os primeiros 24 meses do próximo governo.

“Reunimos especialistas, gestores e lideranças para discutir como mudar o que estamos cansados de saber que precisa mudar”, disse Eurípedes Alcântara, diretor de Jornalismo do Grupo Estado.

A curadoria do projeto é do executivo Fábio Barbosa, que organizou três eixos de trabalho para os encontros, com temas como saúde, educação, segurança pública e instituições.

No primeiro encontro, realizado em maio, o debate abordou a eficiência do sistema de Justiça, o avanço dos custos do Judiciário e os efeitos da baixa previsibilidade judicial sobre investimentos, ambiente de negócios e atividade econômica.

No segundo encontro do Brasil Adiante, realizado nesta quinta-feira, também houve um painel sobre como a saúde precisa se adaptar ao envelhecimento da população.

Até agosto, estão previstos mais três encontros, com discussões sobre Segurança Pública e Crime Organizado, Produtividade, Infraestrutura e Sustentabilidade.

As soluções elaboradas serão reunidas em um documento a ser entregue em novembro ao presidente eleito. A proposta é encaminhar uma agenda integrada e executável para os primeiros 24 meses do próximo governo.

Veja o cronograma:

27 de maio: Encontro 1: Eixo I: Estabilidade Institucional e Fundamentos do Crescimento;

11 de junho: Encontro 2: Eixo II: Capital Humano e Coesão Social (Educação e Saúde);

23 de julho: Encontro 3: Eixo II: Capital Humano e Coesão Social (Segurança Pública e Crime Organizado);

19 de agosto: Encontro 4: Eixo III: Produtividade, Infraestrutura e Sustentabilidade;

27 de agosto: Encontro 5: Apresentação do documento consolidado, divulgação da agenda e fechamento do projeto;

Novembro: Entrega da agenda de soluções ao presidente eleito.