SAÚDE PÚBLICA

Arminio Fraga defende tratar bets como questão de saúde pública

Ex-presidente do Banco Central cita custos associados ao jogo problemático e volta a defender uma reforma profunda da Previdência

Por Estadao Conteudo Publicado em 11/06/2026 às 13:46
Armínio Fraga Reprodução / Banco Central do Brasil

O ex-presidente do Banco Central e cofundador do Ieps (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde), Arminio Fraga, afirmou que bets e cassinos online devem ser tratados pelo governo como uma questão de saúde pública, e não apenas sob a ótica financeira.

"Isso é um assunto de saúde, não é da área financeira-econômica. Existem amplas evidências", disse Fraga nesta quinta-feira, 11, durante o Brasil Adiante. "Quando a gente joga roleta, são 38 números, sendo dois da casa (0 e 00). Nas bets, quantos números são da casa?", questionou o economista.

O Brasil Adiante é um projeto do Estadão voltado à apresentação de propostas concretas para os principais problemas do País. O ciclo de debates segue até o fim de agosto, após o início da campanha eleitoral. As soluções elaboradas serão reunidas em um documento a ser entregue em novembro ao vencedor das eleições presidenciais. A proposta é encaminhar uma agenda integrada e executável para os primeiros 24 meses do próximo governo.

Um estudo do Ieps estimou em R$ 38,8 bilhões por ano o custo dos danos associados ao jogo problemático. Desse total, R$ 30,6 bilhões correspondem a danos à saúde. Nos dois primeiros meses de operação da plataforma, o Sistema Único de Saúde (SUS) realizou, em média, 12 atendimentos virtuais diários em saúde mental para pessoas viciadas em bets.

De 3 de março a 18 de maio, foram registradas 883 consultas por vídeo com apoio de psicólogos e psiquiatras, segundo dados do Ministério da Saúde.

As teleconsultas são gratuitas e confidenciais, com duração aproximada de 45 minutos. Cada paciente pode receber até 13 atendimentos por ciclo, individuais ou em grupo. Familiares e integrantes da rede de apoio também podem participar das sessões, realizadas pelo SUS em parceria com o Hospital Sírio-Libanês.

Sistema previdenciário está em "estado pré-falimentar"

Arminio Fraga também voltou a defender uma nova reforma da Previdência, embora tenha reconhecido que o tema pode provocar certo "cansaço" na população brasileira. "Mas é preciso ter uma certa lucidez coletiva que nem sempre podemos contar", afirmou.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida ao nascer chegou a 76,6 anos em 2024. Em 1940, início da série histórica, era de 45,5 anos. Com uma população mais jovem, boa parte da demanda se concentra em pré-natal, parto, vacinação, pediatria, acidentes, infecções e condições agudas.

"Não dá para falar de envelhecimento sem falar de previdência", declarou Fraga. De acordo com o ex-presidente do Banco Central, o sistema previdenciário está em "estado pré-falimentar" e representa um "problema enorme". "Não há chance de as coisas darem certo aqui sem reforma da previdência profunda", completou.

Ao tratar dos desafios do financiamento da saúde, Arminio Fraga defendeu mais realismo na incorporação de novas tecnologias e tratamentos ao sistema. Para ele, a discussão deve levar em conta os limites financeiros disponíveis.

"Tem que haver uma dose de realismo por parte das autoridades", disse. Fraga afirmou ainda que é necessário ajustar os processos de incorporação de tratamentos e aceitar que, em alguns casos, os custos também precisam ser considerados na decisão sobre a oferta de determinados procedimentos.