Gonzalo Vecina defende atenção primária diante do envelhecimento da população
Sanitarista e professor da USP afirmou, no Brasil Adiante, que o País precisa reorganizar o sistema de saúde com foco em prevenção, governança e integração entre entes federativos
O sanitarista e professor da USP Gonzalo Vecina defendeu nesta quinta-feira, 11, durante o Brasil Adiante, a reorganização do sistema de saúde a partir da atenção primária como resposta central ao avanço do envelhecimento no País.
Vecina ressaltou a importância da prevenção e do envolvimento da população no próprio cuidado. Segundo ele, a promoção da saúde exige atuação conjunta entre profissionais e pacientes. "O projeto terapêutico não é do profissional da saúde, é do profissional e do cidadão", afirmou.
Para o sanitarista, a principal mudança necessária é cultural. "Temos que voltar a pensar em saúde, e não em doença", disse.
O Brasil Adiante é um projeto do Estadão voltado à apresentação de propostas concretas para os principais problemas do País. O ciclo de debates segue até o fim de agosto, após o início da campanha eleitoral. As soluções elaboradas serão reunidas em um documento a ser entregue em novembro ao vencedor das eleições presidenciais. A proposta é encaminhar uma agenda integrada e executável para os primeiros 24 meses do próximo governo.
Na avaliação de Gonzalo Vecina, o envelhecimento da população também deve levar à criação de novos tipos de políticas públicas. "Vamos ter que ter um Estado com uma relação diferente com os velhinhos. Vamos ter que criar uma estrutura de cuidadores, centros de convivência", afirmou.
Ao tratar dos desafios impostos pelo envelhecimento populacional, o especialista defendeu mudanças na governança do sistema de saúde e maior integração entre os entes federativos. Para ele, os municípios devem ser considerados parte da solução, por concentrarem a oferta de serviços e estarem mais próximos da população.
"É no município que as pessoas moram. O município faz parte da solução", declarou. Segundo Vecina, o País precisa construir "um novo modelo de governança" capaz de coordenar melhor as responsabilidades entre União, Estados e municípios.
O sanitarista apontou a falta de coordenação entre as redes municipais e estaduais como um dos principais entraves do sistema de saúde. "A rede municipal que trabalha com a rede estadual não conversa, trabalham paralelamente", afirmou.
Como alternativa, Vecina defendeu a criação de consórcios intermunicipais com participação dos governos estaduais. De acordo com ele, esse modelo permitiria construir uma governança mais integrada e eficiente para a gestão dos serviços de saúde.
Para o especialista, a discussão sobre o financiamento da saúde não deve se restringir ao aumento de recursos. "Menos dinheiro não. Nem quero propor mais dinheiro porque acho que não vai vir", disse.
Ao comentar os modelos de contratação na área, Gonzalo Vecina afirmou que o foco deve estar na entrega de serviços à população, e não na natureza do vínculo trabalhista. "A sociedade quer consulta, exame, internação, não quer saber se é o Estado ou um PJ que fez", declarou. Segundo ele, é necessário criar indicadores para avaliar os resultados oferecidos aos cidadãos.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que a expectativa de vida ao nascer chegou a 76,6 anos em 2024. Em 1940, no início da série histórica, era de 45,5 anos.
Com uma população mais jovem, boa parte da demanda em saúde se concentra em pré-natal, parto, vacinação, pediatria, acidentes, infecções e condições agudas. Em uma população mais envelhecida, aumenta a prevalência de doenças crônicas, que exigem consultas e exames recorrentes, medicamentos de uso contínuo, reabilitação e tratamentos caros por períodos prolongados.