MEIO AMBIENTE

Lula defende dados do Inpe e contesta acusação dos EUA sobre desmatamento

Presidente visitou observatório da OTCA em Brasília; governo cita queda de 61,4% na Amazônia e 8,2% no Cerrado

Por Sputnik Brasil Publicado em 11/06/2026 às 13:07
Lula visitou observatório da OTCA em Brasília e defendeu dados do Inpe sobre desmatamento © Sputnik / Leonardo Sobreira

Brasil apresentou dados do Inpe para rebater ameaça de tarifa norte-americana contra produtos brasileiros.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou, nesta quinta-feira (11), o Observatório Regional Amazônico (ORA), da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), em Brasília (DF). Ele esteve acompanhado do ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Luciana Santos, e do secretário-geral da OTCA, Martín Von Hildebrand, entre outras autoridades.

Durante a visita, técnicos ambientais oficiais apresentaram dados do Sistema de Detecção de Desmatamentos em Tempo Real (Deter), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Os painéis exibidos indicam redução do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, resultado, segundo o governo federal, do fortalecimento das políticas públicas ambientais e da retomada do setor após anos de sucateamento.

Os números consolidados apontam queda de 61,4% no desmatamento da Amazônia em relação a 2024/2025, a maior redução da série histórica. No Cerrado, a diminuição foi de 8,2% no mesmo comparativo. O Deter informa os órgãos de controle em tempo real, e os dados são públicos.

De acordo com as informações apresentadas, o avanço é atribuído a ações coordenadas. Os embargos do Ibama aumentaram 20% na comparação do ano passado com o ano retrasado. Na região da BR-319, que liga Manaus a Porto Velho, o desmatamento na beira da estrada foi reduzido em mais de 70%, com o governo assumindo o controle ambiental da área.

As autoridades ambientais também destacaram a importância de diferenciar o desmatamento ilegal do legal. Segundo o governo, o Brasil alcançou as menores taxas de desmatamento da história na Amazônia e segue no fortalecimento das políticas públicas voltadas ao objetivo de desmatamento zero.

Entre as medidas citadas estão a criação e ampliação de 16 novas Unidades de Conservação federais e a elaboração do Plano Clima, que define caminhos para o país enfrentar a crise climática até 2035, com foco em justiça climática.

Durante o evento, também foi ressaltada a contribuição econômica da Amazônia para o Brasil e para a região. Como exemplo, foi citado o Fundo Amazônia, que hoje registra R$ 1,3 bilhão por ano em aportes, com 153 projetos aprovados e aumento no número de doadores, de 2 para nove.

Reação à ameaça de tarifa dos EUA

A divulgação dos dados ocorre em meio a um embate diplomático e comercial. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) ameaçou impor um novo tarifaço contra produtos brasileiros, sob a alegação de que o Brasil estaria, supostamente, praticando desmatamento irregular, o que constituiria uma forma de "dumping".

O governo brasileiro rejeita a acusação. Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, os dados já foram apresentados aos Estados Unidos de forma detalhada em Washington.

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, as negociações entre os países para tentar reverter a ameaça acontecem até no máximo esta sexta-feira (11).

Em discurso, Lula criticou a postura de Washington e as justificativas associadas ao governo de Donald Trump. O presidente declarou: "Eles mentiram".

Lula afirmou que os Estados Unidos não estão se comportando "de forma civilizada" para negociar e disse: "A minha guerra é provar que vocês estão errados e nós estamos certos".

Ao tratar da soberania nacional, o presidente enviou um recado direto ao homólogo americano: "Você (Trump) não foi eleito imperador do mundo. O Brasil quer respeito. Queremos civilidade, comércio e desenvolvimento para os dois países".

Lula também afirmou que a sustentabilidade deve ser vista como ativo financeiro. Segundo ele, "o não desmatamento é mais lucrativo que o desmatamento". O presidente ainda destacou que o Brasil é exemplo de política ambiental no mundo.

Sobre o uso estratégico das informações de monitoramento, Lula cobrou organização: "Quero saber se temos obrigação de mandar isso para as pessoas. Quem cuida da OTCA em cada país".

O presidente defendeu a ampla divulgação dos resultados oficiais para responder a narrativas externas. "Vamos ter que pegar esses dados e mandar para o cidadão que coloca a questão do desmatamento e vamos comparar o que acontece aqui e lá", afirmou.

O chefe do Executivo acrescentou que "nosso objetivo não é proibir de fazer as coisas" e pediu mais investimentos nos municípios em medidas de combate ao clima, de forma integrada com outras esferas do poder.

Defesa técnica dos dados e transparência

A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, endossou as críticas do presidente ao afirmar que "muitos dos dados que são usados para atacar o Brasil não têm base". Ela ponderou, porém, que "a disposição do nosso governo com os EUA é para o diálogo".

O ministro João Paulo Capobianco detalhou a solidez científica dos dados do Inpe que sustentam a posição brasileira.

"Estamos trabalhando para em 31 de julho para termos a menor taxa da história da Amazônia. Isso põe por terra a acusação injusta dos EUA para justificar a imposição de tarifas", afirmou. Ele também rechaçou suspeitas sobre a cadeia de produção nacional, ao assegurar que "o Brasil não está produzindo madeira ilegal".

Capobianco confirmou o envio prévio dos relatórios às autoridades americanas e defendeu a abertura dos sistemas de monitoramento. "Todos os dados foram mostrados para os EUA em Washington, mas mesmo assim veio essa acusação injusta contra nós", disse.

O ministro também informou o cronograma de liberação dos relatórios e sua aplicação nas negociações diplomáticas: "Os dados se tornam públicos a partir de hoje, às 12h, e qualquer cidadão poderá entrar no site do Inpe em qualquer lugar do mundo para verificar. Esses dados serão usados nas negociações com os EUA".

Capobianco acrescentou que "a transparência voltou a ser a marca do governo", que "não estamos respondendo a algum governo, e sim dando respostas à sociedade", e confirmou que "esses dados serão levados para os EUA".

O papel da OTCA e os desafios regionais

O secretário-geral da OTCA, Martín Von Hildebrand, contextualizou o funcionamento técnico e político do bloco e destacou a complexidade da articulação entre as nações amazônicas.

"O tratado está sob o controle das chancelarias e dos ministérios relevantes. O tratado não executa projetos, e sim cria processos para que os países executem os projetos. Isso não é fácil, leva tempo", afirmou. Ele alertou ainda para a gravidade da situação ecológica global: "Evitar o ponto de não retorno é o nosso objetivo".

Para Hildebrand, reverter o cenário de degradação exige esforço que ultrapassa os limites governamentais. "Precisamos da sociedade civil, das comunidades locais, as universidades, os movimentos religiosos. Essa participação é fundamental, caso contrário não vamos conseguir manter a selva", disse.

O secretário-geral também defendeu uma abordagem integral de desenvolvimento para a região, com inclusão das demandas sociais e humanas de seus habitantes.

"Desenvolvimento sustentável não é só sobre bioeconomia. É também sobre segurança, com a crise de segurança pública na Amazônia. É também sobre investimentos em saúde. O que se busca é o bem-estar do povo", afirmou, ao concluir que "a OTCA precisa avançar nessas questões".

Por Sputinik Brasil