INVESTIGAÇÃO

Médicas relataram alertas antes de cirurgia em juíza que morreu após coleta de óvulos

Procedimento de urgência teria sido autorizado cerca de 28 horas após Mariana Francisco Ferreira dar entrada no hospital com hemorragia aguda

Por Estadao Conteudo Publicado em 11/06/2026 às 10:21
Juíza morta após coleta de óvulos só passou por cirurgia 28 horas depois, dizem médicas Nano Banana (Google Imagen)

Duas médicas que atenderam a juíza Mariana Francisco Ferreira, mortas após realizarem um procedimento de coleta de óvulos, prestaram depoimento à Polícia Civil e dizendo que alertaram diversas vezes sobre a necessidade de uma cirurgia de emergência para tentar salvar a vida da magistrada.

Segundo os depoimentos, o procedimento foi autorizado pelo médico Maurício Ligabô, responsável pela coleta, somente cerca de 28 horas após a entrada de Mariana no Hospital e Maternidade Mogi-Mater.

A jornada passou pela coleta de óvulos na Clínica Invitro Reprodução Assistida, em Mogi das Cruzes (SP), na manhã de 4 de maio. Depois do procedimento, voltei para casa, passou a sentir muita dor, retornou à clínica e foi encaminhada ao hospital com quadro de hemorragia aguda.

O Estadão informou que busca contato com a defesa do médico. A seguir, constam os posicionamentos dos envolvidos citados no material original.

Agravamento do quadro e uso de morfina

Um profissional do Hospital Mogi-Mater relatou à Polícia Civil que assumiu o plantão às 19h do dia 4 de maio, quando foi informado sobre a gravidade do caso de Mariana. Paciente apresenta hemoglobina baixa e presença de líquido livre na cavidade uterina. O relato consta em depoimento ao qual o Estadão e o g1 tiveram acesso com exclusividade.

De acordo com o documento, apesar de considerar o caso um “quadro normal” decorrente de “hipereestimulação ovariana” e uma “condição autorresolutiva”, o médico informou que faria “um medicamento ginecológico para secagem do líquido”.

O depoimento também aponta que, durante a madrugada, novos exames indicaram piora no quadro de Mariana. A equipe aplicou morfina para melhorar a dor do paciente e voltou a entrar em contato com o médico. Ligabô retornou aos chamados na manhã do dia 5, dizendo que estava a caminho do hospital.

Alteração de sinais obrigatórios e recusa de cirurgia

Segundo a médica, na manhã seguinte à internação, a juíza apresentou sinais de sangramento excessivo, além de alteração em exames de imagem.

A profissional afirmou que, embora o caso não fosse da sua especialidade, entendeu que Mariana deveria passar por intervenção cirúrgica o quanto antes para identificação do foco da hemorragia.

Ainda conforme o depoimento, a médica comunicou Ligabô sobre a gravidade da situação, mas o médico teria se mostrado resistente e solicitado novos exames e medicamentos. Ele foi avisado de que casos como o de Mariana não deveriam ser programados naquela forma.

“Maurício (Ligabô) ancora sua verdade em um diagnóstico de hiperestimulação ovariana, não fornece conduta cirúrgica”, diz trecho do depoimento ao qual o Estadão teve acesso.

Sem melhorar no quadro, a equipe do hospital voltou a acionar Ligação para informar a gravidade do paciente. Segundo o depoimento, “Maurício foi avaliar pessoalmente Mariana e, na avaliação a beira leito, se deparou com alteração de sinais inadequados, alteração clínica, sinais clínicos evidentes de gravidade, mas manteve sua conduta de não intervir cirurgicamente, arrimando suas hipóteses diagnósticas na 'hipereestimulação ovariana'”.

O médico saiu do hospital por volta das 9h. Às 11h46, um profissional entrou novamente em contato com Ligabô, que informou que um médico de sua equipe na clínica iria ao hospital.

Quase três horas depois, o médico foi novamente alertado sobre a gravidade do quadro do paciente e questionado se comparecia ao hospital. Ele teria respondido que iria.

Interferência interna

No depoimento, a médica disse que recebeu ligação de outro médico do hospital informando que havia sido contatado pela Ligabô, que estaria “procurando indicação de outra equipe de intensivista para acompanhar Mariana, descreditando o trabalho da declarante” e pedindo indicação de um cirurgião.

Ligado retornou ao hospital somente às 18h30 do dia 5. Na visita, outro profissional do hospital reiterou a gravidade do caso, mas o médico manteve a hipótese diagnóstica.

Foi realizado um procedimento de paracentese, com introdução de uma agulha para punção do líquido, para demonstrar que havia sangue e que a cirurgia era necessidade com urgência.

“Arruma um médico urgente para operar o paciente”

De acordo com um profissional, outro colega teria dito a ela: “arruma um médico urgente para operar o paciente, pois ela está lutando pela vida, não deixa isso quieto”, demonstrando insatisfação com a conduta de Maurício Ligabô, segundo o documento.

Mariana foi encaminhada ao centro cirúrgico por volta das 21h. "Em oito anos, nunca vi um médico ali tão resistente e tão teimoso. Nunca vi isso... A gente tem que orar a Deus agora, para a cirurgia ser boa e ele conseguir resolver o problema logo. Não era para estar acontecendo isso. 'Isso era para você ter resolvido já cedo'", relatou um profissional à polícia. Ainda conforme o depoimento, Ligabô teria dado risada. “Aí ele ficou rindo”, diz trecho do diálogo da equipe do hospital.

Mariana morreu na manhã do dia 6, por volta das 6h.

O que dizem os envolvidos

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que a mãe da vítima compareceu à delegacia e confirmou que Mariana havia realizado uma coleta de óvulos para tratamento de fertilização.

Após o procedimento, a mulher voltou para casa e sentiu muita dor, quando retornou à Clínica Invitro Reprodução Assistida. Depois, foi encaminhada ao Hospital e Maternidade Mogi-Mater, na Rua Marechal Deodoro, também em Mogi das Cruzes, com quadro de hemorragia aguda. “Ela passou por um procedimento cirúrgico, mas não resistiu”, informou a secretaria.

O caso foi registrado como morte suspeita no 1° DP de Mogi das Cruzes, onde segue em andamento as diligências para esclarecimento dos fatos. O Estadão informou que procurou a Clínica Invitro Reprodução Assistida e aguarda retorno.

O Hospital e Maternidade Mogi-Mater afirmou que paciente teve entrada com hemorragia aguda. “Diante da gravidade do caso, ela foi atendida pela equipe do pronto-socorro e encaminhada imediatamente para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI)”, informou o hospital.

Segundo a rede hospitalar, desde a admissão, todas as medidas médicas e assistenciais cabíveis foram adotadas pelas equipes multiprofissionais com o objetivo de estabilizar o quadro clínico do paciente.

“Como ela não havia realizado nenhum procedimento anterior no hospital, o médico responsável pela clínica foi acionado para acompanhar o caso e assim o fez, incluindo no procedimento cirúrgico realizado na terça-feira, 5. Apesar de todos os esforços trabalhados pela equipe hospitalar, infelizmente ela teve um óbito no dia seguinte”, disse o hospital, ao lamentar a morte.

Quem era a juíza

Nascida em Niterói, no Rio de Janeiro, Mariana Francisco Ferreira disse que tinha o sonho de se tornar juíza desde a adolescência. Ela ingressou no Poder Judiciário do Rio Grande do Sul em dezembro de 2023, após ser aprovada em concurso, e foi designada para a 1ª Vara Judicial da Comarca de Parobé.

Mariana também exerceu a magistratura na 1ª Vara Regional de Garantias, na Comarca de Porto Alegre, e na 1ª e 2ª Vara Criminal de São Luiz Gonzaga, antes de chegar ao Juizado da Vara Criminal de Sapiranga, em fevereiro deste ano.