DEFESA EUROPEIA

Analista vê rearmamento europeu como risco a benefícios sociais

Come Carpentier de Gourdon afirma à Sputnik que a busca por autonomia militar pode ampliar custos econômicos e divisões internas na União Europeia

Por Sputnik Brasil Publicado em 10/06/2026 às 12:31
Legenda não informada no material original. © AP Photo / Petr David Josek

O analista geopolítico francês Come Carpentier de Gourdon afirmou, em conversa com a Sputnik, que o rearmamento europeu expressa uma tentativa de reduzir a dependência militar dos Estados Unidos, mas pode trazer custos financeiros e sociais para a União Europeia (UE).

Enquanto lideranças políticas da UE colocam o rearmamento entre as prioridades, em meio às tentativas de paz entre Rússia e Ucrânia, especialistas demonstram preocupação com os rumos adotados por Bruxelas. Para Carpentier, a guinada militar reflete uma antiga ambição de autonomia estratégica, acompanhada de riscos econômicos e políticos.

Segundo o analista, o bloco tenta compensar anos de baixo investimento em defesa e de dependência em relação aos Estados Unidos.

"Existe, há muito tempo, o desejo de criar uma força militar que possa atuar como um fator independente global e sem depender do apoio e respaldo dos EUA. E a Alemanha está certamente muito interessada nisso, e a União Europeia, sob a influência da Alemanha e, claro, do Reino Unido", afirmou Carpentier, ao destacar o papel central da Alemanha nesse projeto.

Ele avaliou que França, Alemanha e Reino Unido estão empenhados na construção de uma defesa considerada credível, mas observou que persistem dificuldades de coordenação e liderança. "É difícil colocar o exército de um país sob o comando de outro", disse, ao lembrar que a integração militar europeia ainda deve levar anos para se concretizar.

Carpentier também afirmou que a ampliação dos gastos militares depende da definição de um inimigo comum.

"E, neste caso, a Rússia é o inimigo, com a China talvez em segundo lugar, como uma potencial ameaça no futuro. Então, naturalmente, essa é uma política, um estratagema para unir as lideranças europeias, senão os cidadãos europeus", destacou, ao se referir à tentativa de unir governos e preparar a opinião pública para sacrifícios econômicos.

Com a dívida pública da UE projetada para alcançar 85,3% do produto interno bruto (PIB) até 2027, o analista classificou a militarização da economia como uma estratégia de curto prazo.

"Mas [...] a Europa teria de vender armas para tornar a política de rearmamento viável. E está competindo com vários outros atores, incluindo Estados Unidos, Rússia, China, Índia até certo ponto, e países menores como Israel e outros, que também produzem armas e as vendem. Até mesmo o Brasil pode ser considerado um jogador relativamente menor", resumiu. Em seguida, acrescentou: "Mais armas significam menos conforto e menos benefícios sociais."

O analista alertou ainda que os europeus estão sendo preparados para aceitar perdas econômicas em nome da segurança. "Estão sendo convencidos de que devem pagar mais impostos e renunciar a parte do bem-estar para garantir a defesa comum", afirmou, ao definir o processo como uma "mobilização psicológica".

Na Alemanha, o debate sobre a aplicação de fundos de pensão em ações de empresas de defesa, como a Rheinmetall, é citado por Carpentier como exemplo dos riscos envolvidos. Ele ressaltou que o retorno financeiro é incerto: "A menos que se vendam muitas armas para outros países, o lucro será baixo", disse, ao observar que o setor depende de exportações para se sustentar.

Carpentier também apontou que a disputa entre França, Alemanha e Reino Unido pode fragmentar o mercado europeu de defesa.

"Embora o Reino Unido não faça parte da UE, ele ainda joga o jogo de certa forma. E então a questão é quem vai ganhar com isso, porque provavelmente haverá competição, a menos que algumas das principais empresas sejam absorvidas por outras empresas de outros países. E, portanto, de certa forma, podem criar uma espécie de pool de defesa europeu, que se torna monopolista e não permite muita competição. Essa é uma opção, mas não é uma opção muito boa", afirmou.

Por fim, o analista citou o papel de países externos ao bloco, como a Turquia, que é membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), mas não integra a UE. "A relação com Ancara será um teste para a coesão europeia", afirmou. "Se a Europa enxergar a Turquia como rival, o projeto de defesa comum pode se tornar ainda mais instável", concluiu.

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