MERCADO ENERGÉTICO

Restrições em Ormuz podem levar países a ampliar busca por gás russo

Pesquisadora da FGV Energia avalia que tensões no Oriente Médio pressionam rotas de GNL e podem estimular fornecedores alternativos

Por Sputnik Brasil Publicado em 10/06/2026 às 12:00
Legenda não informada no material original. © Sputnik / Sergei Guneev

Mesmo com a redução das hostilidades no Oriente Médio após ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, o estreito de Ormuz permanece sob restrições que afetam rotas comerciais globais, incluindo o fluxo de gás natural liquefeito (GNL).

Nesse cenário, apesar das sanções ocidentais, a Rússia passa a ser considerada uma alternativa na distribuição desse ativo energético, segundo avaliação de Luiza Guitarrari, pesquisadora de óleo, gás e biocombustíveis da FGV Energia, em entrevista à Sputnik Brasil.

Como o mercado de GNL depende fortemente do transporte marítimo, outras rotas começaram a ser estruturadas como alternativas a Ormuz. Para a especialista, parceiros mesmo sob sanções podem ser considerados na comercialização entre países.

“O GNL é um mercado altamente dependente da via marítima porque é capaz de transportar o gás de maneira liquefeita. Isso foi uma saída muito importante para a União Europeia em 2022 [a partir do conflito da Ucrânia]. Então, considerando as restrições em Ormuz, tanto a UE quanto países da Ásia dependem desse recurso e que vão, talvez, apostar em outro fornecedor à disposição, que no caso é a Rússia”, disse.

A pesquisadora afirma que a instabilidade geopolítica com impacto direto na segurança energética internacional amplia a necessidade de diversificação de fornecedores. Em alguns casos, segundo ela, países também podem recorrer novamente a matrizes convencionais.

“Os países começam a tentar recompor esse fornecimento que foi restrito em Ormuz, desde fevereiro, seja com outros parceiros ou seja com outros recursos que têm à disposição. Alguns voltam para o que têm à disposição, como carvão e fontes mais poluentes, outros buscam a transição [energética]. Mas opção de curto prazo, é realmente importar de outros parceiros”, comentou.

Flexibilização entre sanções e crise geopolítica

De acordo com Guitarrari, a volatilidade do mercado de energia em um ambiente de tensões abre espaço para que governos flexibilizem decisões, mesmo sob risco de sanções, para garantir o abastecimento necessário às demandas internas.

“Isso é um pouco o que o mercado de GNL tem experimentado, quando a gente fala na geopolítica que o poder não admite vácuo, no mercado de energia também é assim, porque é preciso que a população tenha energia. Então, apesar de um país ser sancionado, outros países vão estar importando, seja de energia russa ou outra, porque é mais barato e porque cumpre os requisitos necessários internamente”, destacou.

Além do GNL, o quadro geopolítico instável também pode influenciar a compra de outros recursos energéticos. A especialista citou a relação comercial entre Brasília e Moscou no caso do diesel.

“O próprio Brasil tem vindo nessa esteira, não com o GNL russo, mas com o diesel russo. No passado, a gente não importava tanto quanto hoje. Por exemplo, 1% do nosso market share de diesel, que os EUA eram o principal parceiro, hoje em dia a Rússia domina mais de 40% da nossa importação de diesel. Então, há esse cálculo, os países vão optar por aquilo que seja mais barato e benéfico para a população”, observou.

Rússia adapta logística naval diante das sanções

Com sanções unilaterais impostas à Federação da Rússia pelo eixo Washington e Bruxelas, o país precisou reorganizar alternativas para atender à demanda de Estados que buscam recursos russos, conforme explicou a pesquisadora.

“Do ponto de vista logístico, o que se tinha nos dois anos iniciais do conflito [russo-ucraniano], era uma reorganização dos fluxos comerciais, não saindo mais do mar Negro, mas sim, do mar Báltico. Pelo menos o que observo é um apoio logístico maior saindo do Báltico, em um cenário restritivo, que permitiu a Rússia comercializar com países, principalmente na parte sul-americana, na costa africana e atlântica”, concluiu.

As consequências de conflitos militares somadas a sanções impostas unilateralmente afetam diretamente a segurança energética, com reflexos na política, na economia e na vida da população, como inflação de preços e restrição de insumos e serviços básicos.

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