Noite histórica em São Paulo celebra mulheres negras viajantes, liberdade e ancestralidade.
Histórias de travessias, identidade e herança
Na última semana de maio, o Cinema Petrobras, em São Paulo, tornou-se palco de uma travessia coletiva. O lançamento de Raízes do Atlântico – Histórias de Liberdade reuniu escritoras, artistas, viajantes e convidados em uma noite marcada por emoção e pertencimento, celebrando histórias de mulheres negras e pessoas transgêneras, que encontraram nas viagens caminhos de reconexão com suas origens, sua identidade e sua liberdade.
Produzida com incentivo do Governo do Estado de São Paulo e do Ministério da Cultura, por meio do edital de fomento CULTSP – PNAB 28/2024, a obra idealizada por Rebecca Alethéia, com curadoria de O Mary Ellen, reúne histórias de mulheres negras de diversas partes do Brasil e da África que encontraram nas viagens não apenas deslocamentos geográficos, mas caminhos de reconexão consigo mesmas, com suas origens e com a diáspora africana.
Mais do que um livro, Raízes do Atlântico é um encontro entre memórias, afetos e territórios. Por meio dos relatos das escritoras, a publicação apresenta experiências atravessadas por raça, gênero, liberdade e identidade, conectando as ilhas da Amazônia às periferias urbanas e as favelas de Manaus às terras ancestrais de Angola e Moçambique. Em cada página, viajar deixa de ser privilégio e se torna ato político, ferramenta de cura e possibilidade de transformação.
Visivelmente emocionada, Rebecca Alethéia celebrou a concretização de uma obra construída por muitas mãos pretas femininas e por um homem transmasculino. Idealizadora do projeto, ela destacou que o lançamento representa muito mais do que a publicação de um livro: trata-se da materialização de histórias que por muito tempo foram invisibilizadas.
“Me sinto honrada e extremamente feliz. Dar voz a mulheres e pessoas trans pretas é, literalmente, ir à raiz da liberdade. Estar ao lado de tantas pessoas inspiradoras reforça a certeza de que nossas histórias importam, precisam ser contadas e merecem ocupar todos os espaços”, afirmou Rebeca.
A emoção também marcou o momento em que Rebecca falou sobre a primeira vez que segurou a obra pronta. Para ela, aquele não foi um ponto de chegada, mas o início de uma nova travessia.
“Foi uma sensação de começo. Como diz Nego Bispo: ‘começo, meio e começo’. Segurar essa obra nas mãos me fez pensar que agora o mundo precisa vê-la circulando com urgência. Queremos e precisamos estar nas ruas, nas escolas, nas bibliotecas, nos espaços culturais e nos territórios, para que mulheres e pessoas pretas possam se inspirar nessas histórias.”
Créditos foto: Angélica Alves
E completou: “Confesso que o sentimento já é de querer a segunda obra. Queremos a segunda obra urgente.”
Ao lado de Rebecca, o curador da obra, O Mary Ellen, também celebrou o lançamento como um marco de valorização das narrativas negras e da construção coletiva que tornou o projeto possível.
“Viver este momento ao lado de pessoas inspiradoras é, mais uma vez, reafirmar a potência de mulheres negras”, destacou O Mary Ellen..
Responsável por acompanhar e organizar os textos que compõem a publicação, ele relembrou a emoção de ver o projeto finalmente materializado.
“Segurar o livro pela primeira vez foi emocionante. Materializar ideias é algo que vem me alimentando e, sem dúvidas, esse momento foi de orgulho e satisfação.”
Ao resumir a essência de Raízes do Atlântico, O Mary Ellen recorreu a um provérbio africano que traduz o espírito da obra: “Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá acompanhado.”
Algumas das autoras compartilharam que aquela foi sua primeira viagem de avião, um detalhe que simbolizou ainda mais a dimensão transformadora do projeto. Cada escritora teve seu momento de fala, dividindo com o público suas dores, alegrias, descobertas e os significados de ocupar o mundo sendo uma mulher negra viajante.
As narrativas revelaram trajetórias diversas: da mulher madura que já viajava o mundo inspirada pela mãe e que deu continuidade a esse legado com a filha; da travesti que recusou os caminhos impostos pela exclusão social; da mulher julgada por dançar e ocupar espaços com liberdade; das viajantes que encontraram em Cuba, Angola e Moçambique um espelho de suas próprias histórias e ancestralidades.
Ao resumir a essência da publicação, Rebecca foi direta: “Leiam mulheres pretas.”
Segundo ela, Raízes do Atlântico ultrapassa os limites de uma obra literária convencional. “Vai além do que você já viu, leu e experienciou. É uma obra que atravessa memórias, afetos e territórios, convidando cada pessoa a enxergar o mundo por perspectivas que historicamente foram silenciadas, mas que sempre estiveram aqui.”
Créditos foto: Angélica Alves
A mediação da jornalista Letícia Vidica conduziu o público por uma noite intensa e sensível, apresentando as escritoras e toda a equipe da Bitonga Travel com escuta cuidadosa e profunda conexão com as histórias compartilhadas no palco.
Conhecida por sua atuação no jornalismo e pela sensibilidade ao abordar pautas ligadas à cultura e à diversidade, Letícia definiu a atmosfera da noite como uma verdadeira “celebração em movimento”.
"Estar aqui hoje, como mestre de cerimônias da Bitonga Travel, é sentir o coração quentinho por ver que a nossa história não está mais presa ao silêncio. Essa noite tem cheiro de axé, tem o som das ondas do Atlântico que antes nos separavam e hoje nos reconectam. É um sentimento profundo de pertencimento. É olhar para o lado e entender que nenhuma de nós está caminhando sozinha", afirmou.
Para a jornalista, o livro carrega uma mensagem poderosa sobre liberdade, mobilidade e protagonismo.
“Historicamente, o deslocamento dos nossos corpos pelo oceano foi sinônimo de dor. Mas o que as mulheres do Brasil, de Angola, de Moçambique e de Guiné-Bissau fazem nessas páginas é reescrever o mapa. Elas mostram que o turismo e a literatura são formas de autonomia.”
Letícia também destacou a importância da representatividade negra nos espaços da literatura e do turismo.
“Quando uma mulher negra escreve sobre as suas viagens, ela quebra aquele velho estereótipo de que nós só servimos para servir ou para ser o cenário exótico das férias de alguém. Não é só sobre turismo, é sobre soberania narrativa. É sobre dizer: nós também podemos e devemos desfrutar do mundo.”
Entre lágrimas, aplausos e abraços, o evento também marcou o lançamento do curta-documental Amefricanas: Reconexão em Cuba, dirigido por Dani Romão e com fotografia de Anapê, projeto totalmente viabilizado pela Bitonga Travel.
O filme acompanha integrantes da Bitonga Travel em uma imersão profunda pela ilha caribenha, revelando encontros entre mulheres negras brasileiras e a população cubana em meio às cores vibrantes de Cuba, à música, à dança e às marcas vivas da diáspora africana.
Para Dani Romão, a obra nasceu de um desejo antigo de transformar em audiovisual as experiências vividas durante as viagens promovidas pela Bitonga Travel.
“Esse curta era um sonho. Eu sempre dizia: ‘Já pensou se essa viagem virasse um curta?’. Quando surgiu a possibilidade de estarmos em Cuba e produzir essa obra, tudo aconteceu de forma muito leve, exatamente por ser um sonho que seria realizado.”
Créditos foto: Angélica Alves
Ao pensar a construção do documentário, Dani buscou traduzir para as telas as emoções despertadas pela experiência.
“Eu me perguntava o que eu gostaria de ver nas telas, que sentimento aquele momento trazia e como poderia transmitir aquelas cores, texturas e sensações em uma obra audiovisual. O resultado foi além do que imaginávamos. Os espectadores da pré-estreia saíram emocionados e com vontade de viajar. Então, deu tudo certo.”
Com imagens potentes e delicadas, o documentário constrói uma narrativa íntima sobre pertencimento, comunidade e ancestralidade. Vindas de diferentes regiões do Brasil, as viajantes encontram em Cuba reflexos de suas próprias vivências, fortalecendo laços e reafirmando a importância de mulheres negras viajarem não apenas para conhecer o mundo, mas para reencontrar a si mesmas.
Dani acredita que o impacto do filme pode ir além das telas e inspirar novas gerações.
“Eu espero que esse curta possibilite que jovens negras se vejam como viajantes. Eu sou uma mulher negra que sempre sonhou, e quero que outras meninas também entendam que podem ocupar o mundo, conhecer outros territórios e viver experiências transformadoras.”
Segundo a diretora, uma das grandes forças da narrativa está justamente em apresentar uma forma diferente de viajar.
“Viajar com a Bitonga Travel é totalmente diferente de qualquer outra experiência. Primeiro, porque estamos entre mulheres negras, o que torna o ambiente seguro e acolhedor. Depois, pelo cuidado na construção dos roteiros, sempre conectados ao afroturismo, permitindo encontros com pessoas negras de diferentes lugares do mundo e criando identificações profundas com histórias, culturas e ancestralidades compartilhadas.”
As participantes do documentário presentes na plateia vibraram e se emocionaram ao se verem na tela do cinema. A fotografia de Anapê, sob direção de Dani Romão, arrancou elogios do público e revelou imagens dignas de uma exposição fotográfica.
A grande noite da Bitonga Travel terminou deixando no ar a sensação de começo. Um recomeço coletivo construído por mulheres que decidiram ultrapassar fronteiras físicas e simbólicas para escrever novas narrativas sobre liberdade, identidade, ancestralidade e futuro.
E, para muitas delas, essa travessia é apenas o início de uma longa jornada.
Créditos foto: Angélica Alves