ECONOMIA ARGENTINA

Aposta de Milei em setores exportadores divide avaliação sobre emprego na Argentina

Relatório do Banco Central prevê recuperação gradual, enquanto indústria, comércio e consumo interno seguem pressionados

Publicado em 10/06/2026 às 02:02
Legenda não informada no material original. © AP Photo / Kena Betancur

O governo argentino tornou explícita a aposta de que o avanço de áreas como agricultura, mineração e hidrocarbonetos poderá irradiar crescimento para atividades que hoje seguem em queda. A estratégia aparece em meio a indicadores ainda fracos da produção industrial, do comércio e do consumo interno.

A tese foi apresentada em relatório do Banco Central, exposto por seu vice-presidente, Vladimir Werning. O documento afirma que "a recuperação da atividade econômica se consolidará, abrangendo progressivamente outros setores". A avaliação reconhece que a fase inicial do ciclo tem "vencedores naturais", mas sustenta que a expansão desses segmentos poderá criar novas conexões econômicas.

Na leitura oficial, essas atividades devem demandar insumos, infraestrutura, transporte, serviços urbanos, logística e mão de obra. Com isso, poderiam abrir oportunidades para fornecedores, pequenas e médias empresas e setores ligados de forma indireta à produção primária, energética e mineradora em diferentes regiões do país.

A estratégia econômica considera uma projeção de crescimento do PIB de aproximadamente 3,5% até 2026. O próprio diagnóstico oficial, porém, admite que esse avanço não ocorrerá de forma uniforme: os setores exportadores tendem a crescer em ritmo mais forte que a média, enquanto outras áreas devem levar mais tempo para se integrar à recuperação.

Indicadores privados mostram essa diferença. Segundo a consultoria Ferreres & Asociados, o setor de petróleo e mineração cresceu 7,3% em abril, na comparação anual, impulsionado pela exploração da formação de xisto de Vaca Muerta e por outros projetos extrativistas. Eletricidade, gás e água avançaram 7,2%, enquanto a agropecuária subiu 3,6% em razão da colheita.

Em sentido oposto, a indústria manufatureira manteve trajetória de queda, com retração de 2%. O comércio teve desempenho semelhante, com recuo de 2,4%. O relatório apontou ainda quedas de até 17,5% na produção automotiva e de 13,1% nos embarques de cimento, indicadores associados à demanda interna e à construção civil. No setor têxtil, um dos mais atingidos, quase 60% da capacidade instalada está ociosa, com fábricas operando com menos da metade de suas máquinas.

O consumo em massa também não consolidou recuperação. De acordo com a consultoria Scentia, em abril, as vendas em supermercados, lojas de conveniência, farmácias e bancas de jornal caíram 3,8% em relação ao mesmo período do ano anterior e 4,7% frente a março. Os números reforçam a distância entre o crescimento de alguns setores e a realidade cotidiana das famílias.

O Banco Central avalia que o processo gradual de desinflação pode contribuir para recompor a renda, melhorar a confiança do consumidor e ampliar o alcance da recuperação. O órgão também destaca que a redução do risco-país e a expansão do financiamento corporativo podem se tornar novos estímulos ao investimento privado.

Ao mesmo tempo, o relatório oficial alerta que as empresas precisarão se adaptar a uma economia com inflação menor e concorrência mais intensa. Na avaliação do Banco Central, a rentabilidade passará a depender mais do volume de vendas do que de reajustes de preços, em contraste com a dinâmica predominante nos anos de inflação elevada.

Nesse cenário, permanece a dúvida sobre a capacidade dos setores exportadores de funcionarem como motor suficiente para o restante da economia, especialmente diante de sua limitação para impulsionar emprego e comércio urbanos. O debate ocorre enquanto o governo tenta demonstrar que a estabilização macroeconômica começa a se converter em crescimento mais amplo, para além das atividades ligadas aos recursos naturais.

Eterno debate

"O termo 'teoria do gotejamento' não surgiu na Argentina, nem é uma invenção recente", disse o economista Martín Pollera à Sputnik. Segundo o consultor, a ideia parte da premissa de que "se setores como mineração ou hidrocarbonetos crescerem sem restrições, esse crescimento acabará por se disseminar para o resto da economia".

Pollera questiona essa lógica por entender que ela pressupõe que "não é necessário nenhum tipo de política redistributiva, nenhum tipo de vínculo e nenhuma condicionalidade". Para ele, a abordagem sugere que "o Estado deve basicamente ficar de braços cruzados" e que "o mercado se encarregará" de distribuir os benefícios.

"O próprio fracasso do efeito cascata justifica mais cascata", afirmou Pollera, ao analisar precedentes argentinos. De acordo com o economista, quando esses ciclos são observados, "a distribuição se torna muito mais regressiva, não menos" e, além disso, "não se gera emprego de qualidade nem em larga escala".

O tema divide avaliações. Consultado pela Sputnik, o economista Eduardo Jacobs apresentou outro ponto de partida: "A indústria argentina está atrasada há pelo menos 30 anos". Para ele, o avanço do petróleo, do gás e da mineração "é uma bênção e não a raiz do problema", já que "o desenvolvimento industrial argentino está estagnado há décadas".

Segundo Jacobs, "a Argentina é um fracasso industrial em termos do que tem sido um modelo fechado e subsidiado, com altas barreiras tarifárias". Na visão do economista, o desafio atual é "fazer o setor industrial decolar agora" em uma economia mais aberta e submetida a novas regras de concorrência.

Jacobs avaliou que o processo exigirá "entrar em uma nova era" e passar por "uma reconfiguração massiva". Ainda assim, advertiu que "a indústria não liderará o processo de crescimento", papel que deve ficar concentrado em setores com maior dinamismo exportador.

Uma economia de 'duas velocidades'?

Pollera descreveu o quadro como uma economia em formato de "K": de um lado, "havia uma parte que estava crescendo", como mineração e hidrocarbonetos; de outro, "o restante dos setores, como construção, comércio e indústria", estava em declínio. "Foi exatamente isso que acabou acontecendo", afirmou.

"Há um contraste entre o crescimento de setores altamente concentrados, como hidrocarbonetos e mineração, com forte crescimento, enquanto aqueles que geram mais empregos estão experimentando um declínio significativo", disse o consultor. Ele explicou que mineração, hidrocarbonetos e agricultura "continuarão a crescer fortemente", ao contrário de segmentos voltados ao mercado interno, dependentes de "consumo, salários reais e crédito interno".

Para Pollera, o principal limite está no emprego. Ao se referir aos setores ligados aos recursos naturais, afirmou: "Estes são setores fundamentalmente intensivos em capital". Segundo ele, essas atividades "precisam de mais máquinas pesadas e tecnologia importada, mas de poucos trabalhadores". Por isso, a relação entre investimento e emprego "tende a ser muito baixa".

O economista comparou esse perfil ao da indústria, que "emprega pouco mais de 1,2 milhão de pessoas" e tem "uma densidade territorial muito maior". No entanto, alertou que esses segmentos "não são os que, em última análise, se beneficiarão desse modelo, num contexto de câmbio sobrevalorizado e salários deprimidos".

Jacobs também reconheceu a diferença nos ritmos de crescimento. "É muito razoável pensar que, nos próximos meses, veremos o setor relacionado a Vaca Muerta crescendo a um ritmo diferente, assim como a mineração", afirmou. Ao mesmo tempo, disse que "a indústria começará a se recuperar, embora nem todos os setores consigam sustentar essa recuperação".

Para o economista, a tendência será de reestruturação: "Começaremos a ver o setor industrial abastecendo certas partes do mercado interno", mas também "começará a adotar uma abordagem voltada para a exportação". Na avaliação dele, "a indústria não liderará o processo de crescimento".

Por Sputnik Brasil