Protestos prolongados pressionam governo de Rodrigo Paz na Bolívia
Bloqueios, inflação, ajustes econômicos e falta de diálogo ampliam a instabilidade política e social no país
A Bolívia enfrenta há mais de 40 dias uma crise política e social marcada por bloqueios de ruas, impactos na distribuição de alimentos e combustível e desgaste no governo do presidente Rodrigo Paz, que está há oito meses no cargo.
No mês passado, a inflação boliviana chegou à casa dos 14%. O Congresso autorizou o uso das Forças Armadas contra a população que protesta nas ruas. Paz, por sua vez, atribuiu as manifestações a “narcoterroristas” e promulgou uma lei que estabelece regras para determinar estado de exceção no país.
As tensões ocorrem em um cenário de instabilidade política recorrente. “A Bolívia é o país da América do Sul que teve o maior número de presidentes ao longo da sua história. Isso é uma demonstração clara do quanto instabilidades e protestos têm sido constantes”, afirmou Ricardo Luigi, geógrafo, internacionalista e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), em entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil.
Segundo o analista, a prática de protestar é tão presente na vida política boliviana que se reflete em um dito popular: toda sexta-feira, em frente ao Palácio Presidencial, é dia de protesto.
Apesar do governo conturbado e de falsas promessas, Luigi avalia que atribuir toda a responsabilidade da crise ao atual presidente seria equivocado. Para ele, há um contexto histórico em várias camadas no país, ainda que Paz seja um representante da elite, diferentemente de figuras que o antecederam nos últimos anos.
A Bolívia é um país pouco industrializado, importa produtos alimentícios básicos e depende fortemente da exportação de gás natural e, cada vez mais, do lítio. De acordo com Luigi, durante quase 20 anos de governos de esquerda, principalmente com Evo Morales, o país cresceu em média de 4% a 5% ao ano, enquanto as transferências sociais melhoraram a qualidade de vida de parte significativa da população. Esse modelo, no entanto, começou a se esgotar.
“A população ficou mal acostumada com esse crescimento, ou bem acostumada, acreditando que os benefícios que o Estado concedia durante esse período deveriam ser progressivos. Aí há uma grande frustração da população com a falta de continuação desse desenvolvimento econômico. Não querendo simplificar tudo apenas na questão econômica, mas isso levou até um esgotamento do próprio governo do MAS [Movimento ao Socialismo], e isso traz prejuízos até hoje com o governo do Rodrigo Paz”, explicou.
Os ajustes econômicos, como o fim dos subsídios ao petróleo e ao gás natural, também contribuíram para o agravamento da crise. As medidas provocaram aumento expressivo dos combustíveis para a população em geral, com reflexo nos preços dos alimentos.
“Todos os presidentes que tentaram, na Bolívia, fazer esses ajustes estruturais neoliberais passaram por problemas semelhantes. A gente teve a ‘Guerra da água’ no começo dos anos 2000, a gente teve a ‘Guerra do gás’ em 2003, que derrubou dois presidentes na Bolívia. Sempre que há medidas de diminuição do Estado, de tentativa de criação de um Estado mínimo na Bolívia, isso pesa muito forte sobre a população em geral”, destacou Luigi.
Mario Tito de Almeida, professor de relações internacionais da Universidade Federal do Pará (UFPA), aponta a falta de diálogo como um problema central. “O grande problema hoje na Bolívia é a falta de capacidade de diálogo entre vários setores produtivos e os trabalhadores. Está faltando interlocução”, avaliou. Sem essa mediação, segundo ele, qualquer ajuste econômico se transforma em combustível para o conflito.
Evo Morales é o caminho para o diálogo?
Condenado pela Justiça boliviana e refugiado na região do Chapare, o ex-presidente Evo Morales reapareceu publicamente se oferecendo como mediador para a paz.
Para Luigi, a situação de Evo representa “as contradições do Estado boliviano”: ao mesmo tempo em que o Estado simboliza sua força no cotidiano da população, também dá exemplo de sua debilidade institucional.
Enquanto isso, Evo “se coloca como um grande líder político ainda e, embora se ofereça para trazer a pacificação da Bolívia no momento, ele defende também a necessidade de convocação de novas eleições porque entende que o governo Rodrigo Paz não está conseguindo representar os interesses de grande parte da população boliviana”.
Almeida avalia que o ex-presidente aparece diante de uma “janela de oportunidade”. “Entendo muito mais o Evo Morales se colocando aí como quem diz assim: ‘Olha, querendo ter algum salvador da pátria, aqui estou eu’.”
Os dois analistas apontam um diagnóstico preocupante: a Bolívia enfrenta escassez de novas lideranças. De um lado, estão os grupos ligados aos ex-presidentes Luis Arce e Evo Morales; de outro, uma direita vinculada às elites tradicionais e aos interesses dos Estados Unidos. “A ausência de novas lideranças traz consigo esse problema de falta de horizonte para o país”, acrescentou o professor da UFPA.
Estados Unidos de olho, Brasil na retaguarda
A crise boliviana também envolve um contexto geopolítico. A Bolívia é considerada peça estratégica na América Latina e no cenário global por deter uma das maiores reservas de lítio do planeta, além de possuir reservas de gás relevantes para países vizinhos. Essa combinação atrai interesses de grandes potências.
“Há uma óbvia escalada de interesse dos Estados Unidos sobre a Bolívia, configurada no apoio ao governo de Rodrigo Paz”, afirmou Almeida.
China e Rússia mantêm presença discreta. Empresas chinesas e russas já firmaram parcerias para exploração do lítio, mas, segundo os analistas, sem interferência direta na política interna, diferentemente da postura atribuída aos Estados Unidos.
O Brasil, parceiro estratégico de La Paz, já se colocou de prontidão para ajudar o país vizinho. Um exemplo foi o apoio logístico solicitado por Paz ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que cedeu um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para auxiliar na distribuição de alimentos durante os bloqueios de estradas.
Por outro lado, Almeida alerta para o risco de aumento do fluxo migratório caso a crise se aprofunde, especialmente pela vulnerabilidade de uma fronteira ainda pouco monitorada.
“São fronteiras com certas porosidades, o que preocupa em termos de soberania”, disse. Para ele, a situação deve acender o alerta do governo brasileiro, já que é “interessante para o Brasil manter a Bolívia tranquila”.