INTERNACIONAL

A Rússia no divã: como a literatura forjou uma identidade e a exportou para o mundo?

Por Sputinik Brasil Publicado em 08/06/2026 às 20:25
© Sputnik / Evgeny Biyatov / Acessar o banco de imagens

Poucos países exerceram tanta influência sobre a literatura mundial quanto a Rússia. O idioma cruzou fronteiras e notabilizou escritores que, mais de 150 anos após publicarem suas obras, seguem figurando entre os mais lidos há milhares de quilômetros de distância de Moscou.

A literatura é para a Rússia, assim como a música popular é para o Brasil. Versos de determinada canção aparecem em determinados instantes de uma conversa cotidiana e o falante não sequer precisa citar o autor da frase para que seu interlocutor pegue a referência. É mais ou menos assim que Irineu Franco Perpétuo, jornalista, tradutor e crítico musical descreve a literatura russa em entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil.

"Versos de Pushkin é assim, os caras sabem de cor."

A nível de comparação, uma lista feita semanalmente pelo site da revista Veja mostra os livros mais vendidos do Brasil até uma data específica. O último levantamento é de 5 de junho — véspera do dia da língua russa e aniversário do poeta Aleksandr Pushkin.

No ranking, Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski, aparece em segundo lugar. Outras duas obras do autor figuram entre os 20 livros mais lidos: Memórias do Subsolo e Crime e Castigo. Lev Tolstói também tem um romance emplacado, trata-se de A Morte de Ivan Ilitch.

Já na MEC Livros, plataforma gratuita do governo federal para o empréstimo de livros digitais, Dostoiéviski aparece duas vezes no top 5 autores mais lidos, com Noites Brancas e Crime e Castigo.

Fato é que aquela Rússia, descrita nos inúmeros romances e poesias que se espalharam mundo afora, resiste ainda hoje. Ao passo que atletas russos foram impedidos de desfilar com sua bandeira nas Olimpíadas e a seleção de futebol ficou fora das eliminatórias para disputar uma vaga para a Copa do Mundo que se avizinha, ninguém suspendeu as edições de Dostoiévski. Nenhuma sanção econômica retirou Tolstói das prateleiras ou apagou as cartas de Tchékhov.

"Se o mundo cancelasse a literatura russa, acabaria cancelando a si mesmo, cancelando a sua própria literatura", sintetiza Perpétuo ao dimensionar a importância da arte escrita da Rússia.

O tradutor conta que a literatura russa se internacionaliza no século XIX e, "de imitadora do que faziam as outras literaturas europeias, ela passa rapidamente a ditar tendências para o que se fazia e se faz no mundo todo, inclusive aqui no nosso Brasil".

Perpétuo reforça, também, que "o russo tem um senso de pertencimento com a sua literatura e tem um orgulho muito grande dela", mas nem sempre os russos tinham boas relações consigo, algo que também foi visto no Brasil ao longo da história, em situações em que o pensamento e os costumes dos europeus começam a ser emulados.

"A gente tem, não por acaso, vários romances russos cujos personagens falam francês. [...] Inicialmente no século XVIII quando o Pedro, o Grande dá aquele grande cavalo de pau modernizador e quer que a Rússia copie o que tem de melhor na Europa, ele traz inovações técnicas e traz também os costumes. A elite russa acha que tem que ser francesa, acha que tem que ser alemã, mas, em algum momento eles resolvem se voltar para si mesmos e valorizar o que estão fazendo. A arena primeira em que isso se dá é a arena literária", explica.

O momento de eclosão de grandes autores da literatura russa no século XIX é também o momento do czarismo, período no qual o debate público era cerceado e as obras literárias eram os refúgios para discussões sobre filosofia, sociologia e política.

"De repente, a Rússia estava no divã, lendo a si mesma nos grandes livros. É por isso que na Rússia dizem que literatura é mais do que literatura. Foi um momento que era o debate de todas as grandes questões existenciais e nacionais."

O Sul Global no espelho russo

Embora o cotidiano russo há 150 anos atrás não converse em nada com o Brasil de hoje — ou de anos atrás — o leitor vai se identificar, mesmo lendo a saga de personagens de Dostoiévski no subsolo, atormentado naquela neve horrível de São Petersburgo, estando no verão de Salvador, avalia Perpétuo.

Dostoiévski, em Crime e Castigo, "refletiu sobre aquilo tem uma reverberação mundial e que parece ter uma tendência a ser universal", acrescenta. Além disso, temas como desigualdade, situações de violência e humilhação atravessam os textos dos autores russos. De alguma forma, isso tende a criar ressonâncias no Sul Global.

Quando a literatura russa chegou ao Brasil, encontrou um terreno fértil de maneira surpreendentemente precisa. "Lá tinha a servidão que acabou ficando cada vez mais próxima do regime de escravidão que a gente tinha aqui", nota Perpétuo.

A diferença pontual, é que no Brasil se escravizou gente "arrastada" de outro continente; na Rússia, fez-se o mesmo com a própria população local, atrelada à servidão por dívida, comum também na Europa do século XIX. Mas aspectos como a brutalidade da dominação, a desumanização do servo, o direito de vida e morte do senhor eram estruturalmente análogos.

"Talvez por isso a gente tenha uma chave de por que essa literatura quando chegou aqui no Brasil causou uma febre tão forte cuja temperatura não baixou até hoje".

Pérpetuo ressalta que a literatura russa é constitutiva da literatura brasileira. Machado de Assis absorveu Gogol. Clarice Lispector, Lima Barreto, Nelson Rodrigues, Lúcio Cardoso foram marcados pela leitura dos russos num momento decisivo de formação. Dos autores mais recentes, Jefferson Tenório coloca "Crime e Castigo como uma chave fundamental, como um livro fundador dentro do seu Avesso da Pele."

Talvez uma das lições que a literatura russa oferece ao Sul Global ultrapasse as analogias históricas e se dê no campo de uma autoconfiança estética. A Rússia foi, durante décadas, como ressalta Perpétuo, um país que se enxergava como periférico, que imitava os modos europeus e creditava muito mais valor ao que vinha de fora.

Ao se da conta que ser russo era, sim, algo a celebrar, ou, nas palavras do jornalista e tradutor, "quando eles acham que talvez não tenha só que ficar falando francês e dançando minueto, mas que eles podem assumir a sua produção de subjetividade como própria", os russos criaram uma das tradições literárias mais poderosas da humanidade.

Aos países periféricos do Sul Global, estar diante de uma literatura que mostre que você não está em Paris, Berlim ou Nova Iorque "talvez seja a lição mais forte que eles têm para dar para a gente do lado de cá."

"Não é para a gente se ver como uma cópia imperfeita e por tempo correr atrás de copiar e tentar fazer igual aos caras. A gente pode fazer diferente e, fazendo diferente, a gente pode ter a nossa própria voz e o nosso próprio ser e estar dentro do mundo."