SPIEF 2026: Putin evidencia 'posição realista' sobre incoerência europeia e força da economia russa
Em entrevista à Sputnik Brasil, analistas apontam que Putin acertou ao chamar a Europa de míope e ressaltou tanto a força da Rússia quanto do BRICS, sugerindo uma nova reorganização global de forças diante da iminente queda da hegemonia atlântica.
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, participou nesta sexta-feira (5) da sessão plenária do 29º Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo (SPIEF) e respondeu às perguntas de jornalistas de diversos países.
Em suas respostas, Putin classificou as políticas agressivas da burocracia europeia como míopes, destacando que as elites do continente estão provocando um caos no qual tentam arrastar cada vez mais países. Para o presidente russo, o caminho harmonioso de desenvolvimento do mundo contemporâneo depende da capacidade das nações de se ouvirem mutuamente.
Eden Pereira, professor de história, doutorando em História Comparada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), membro do grupo de estudos 9 de Maio e pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul (NIEAAS), explica à Sputnik Brasil que Putin tem razão ao chamar a Europa Ocidental de míope.
O historiador conta que o desenvolvimento da região nas últimas décadas foi amparado nos Estados Unidos, citando como exemplo as relações econômicas e o desenvolvimento científico-tecnológico. A estratégia, todavia, nem sempre beneficiou a economia dos próprios países subservientes à lógica norte-americana.
"Quando o Putin coloca que a Europa se coloca nessa posição míope, que leva a erros de cálculo estratégicos, é oriundo de uma construção histórica das relações entre a Europa, EUA e Rússia no período pós-Guerra Fria, que está relacionada com uma estratégia de expansão da OTAN e de tentativa de cerco à Rússia, da qual a Europa achou que poderia se beneficiar."
Sua fala vai ao encontro de outros pontos ressaltados pelo líder do Kremlin, que ressaltou que entre 2021 e 2025, com o crescimento médio da economia mundial em 4,1% ao ano, 2% desse avanço vieram dos países do BRICS, enquanto apenas 0,8% foi garantido pelas nações do G7.
Além disso, Putin fez questão de destacar que a participação dos países do BRICS no PIB mundial em paridade de poder de compra é de cerca de 40%, enquanto a parcela dos países do G7 é inferior a 29%.
Para Pereira, o único país do G7 que ainda possui algum dinamismo econômico é os Estados Unidos. Nações como Alemanha, França e Reino Unido passam por graves crises de bem-estar social, norteadas por decisões econômicas chanceladas por Washington, mas maléficas, principalmente, aos aliados europeus.
Internamente, o mandatário russo disse que a dívida pública do país está em 16,4% do produto interno bruto (PIB) e a taxa de desemprego é de 2,2%, uma das mais baixas entre as nações industrializadas.
Na visão de Pereira, essa derrocada ocidental reforça a necessidade da reformulação de entidades internacionais, como as Nações Unidas (ONU) e a Organização Mundial do Comércio (OMC).
"Isso faz com que as regras, em alguma medida, tenham que mudar e as reformas tenham que ser necessárias, sobretudo em instrumentos não apenas da ONU, mas em outros instrumentos multilaterais, como a OMC, que foi completamente implodida a partir das tarifas do Trump."
Rodolfo Laterza, analista, pesquisador geopolítico e militar e diretor do Instituto de Altos Estudos em Segurança, Geopolítica e Conflitos (GSEC), avalia que a retórica antagônica à Rússia adquiriu "proporções irresponsáveis", colocando as finanças das nações da Europa Ocidental em xeque.
"O presidente Putin manifesta uma posição realista de ceticismo quanto à idoneidade destas lideranças europeias em buscar um reequilíbrio nas relações com a Rússia, que ainda não retaliou de forma contundente diante de tantas provocações por contenção racional de Putin."
Para Laterza, o Kremlin tenta manter canais diplomáticos com os países da Europa Ocidental com a esperança de uma mudança de postura com as eventuais trocas de governos. No entanto, o analista vê que as sanções postas por estas nações contra a Rússia, inclusive com o congelamento de fundos legais, são uma marca irreparável na reputação do continente.
"A aplicação de sanções internacionais contra a Rússia foi um precedente grave de violação de toda uma arquitetura de regras de direito internacional que expôs fortemente a falta de confiança em se manter países europeus como centros fiduciários e garantidores de reservas monetárias ou investimentos mobiliários."
Ações dos EUA aceleraram desdolarização
Durante discurso no SPIEF, Putin afirmou que mais de 65% das exportações russas já são pagas em rublo. Segundo Pereira, esta marca está diretamente relacionada ao uso de sanções econômicas como uma forma de coerção dos países, liderada pelos Estados Unidos.
Para o historiador, a exclusão de países importantes do sistema financeiro internacional, como a Rússia, acelerou o processo de desdolarização e causou um efeito rebote em Washington. O BRICS, por sua vez, assume papel central nesta mudança comercial, proporcionando o ambiente perfeito para essa transição.
"O BRICS já é o centro do dinamismo da economia global, inclusive em termos de inovação científico-tecnológica, porque, se pegarmos a Rússia, a Índia e a China, são três polos em termos de avanço [...] de uma série de áreas cruciais para o desenvolvimento e o dinamismo das próximas décadas."
Um momento que poderia ser de crise para a Rússia, devido às sanções financeiras ocidentais, acabou se tornando uma oportunidade de explorar outros mercados, como a África. Já para a Europa, sobrou o ônus financeiro.
"A Rússia perdeu o mercado energético europeu a partir da sua literal expulsão da Europa, mas, em alguma medida, conseguiu ampliar espaço em outras partes do mundo, sobretudo no continente africano, onde recentemente a Rússia tem feito uma relação muito profunda em âmbito econômico, especialmente em alguns acordos relacionados com a agricultura e também com energia no âmbito nuclear."
Laterza destaca que foi natural para os países do Sul Global buscar diversificação de títulos e migrar as transações comerciais e cambiais para outras reservas de valor à luz das sanções à Rússia. Essa autonomia, atrelada ao avanço financeiro do que antes era visto como terceiro mundo, muda a dinâmica comercial global.
"O crescimento econômico e da relevância produtiva de países do Sul Global demonstra uma mudança gradativa do centro de gravidade comercial, industrial e de desenvolvimento econômico de países fora do G7, o que influencia a dinâmica das relações internacionais e fortalecimento de novos blocos de cooperação, como o BRICS."
Ucrânia não ficou fora da discussão
Apesar do Fórum de São Petersburgo ser um ambiente para discussões econômicas, perguntas sobre a Ucrânia não deixaram de ser feitas à Putin. Em determinado momento, o líder do Kremlin voltou a comentar sobre a necessidade de novas eleições na Ucrânia para a construção de um acordo de paz com bases legais.
O líder atual do país, Vladimir Zelensky, foi eleito pelos ucranianos para um mandato que se encerrou em 2024. No entanto, desde então, o regime que comanda a nação se nega a realizar um novo pleito para a manutenção ou substituição do então mandatário.
"O governo de Kiev, o governo de Zelensky, é um governo que carece de legitimidade política da própria população ucraniana. Então não tem como haver uma imposição de uma paz a partir de fora para dentro, mesmo se não houver um consenso político na própria sociedade ucraniana", conta Pereira.
Na visão do historiador, o governo da Rússia busca um acordo de paz que seja o início de um "processo de resolução definitiva do conflito a partir de uma nova estabilidade estratégica no Leste Europeu", em vez de um simples armistício. Para Pereira, Moscou entende que Washington pode ser um garantidor deste tratado, dada a subserviência ucraniana aos norte-americanos.
"A Rússia quer a segurança de que esse acordo vai ser cumprido e, para isso, a presença dos EUA nas negociações. Também é importante a legitimidade daqueles que serão os negociadores ucranianos, porque pode acontecer de o Zelensky assinar a paz, ser derrubado, o outro governo ucraniano ascender e ele denunciar o acordo e continuar a guerra."
Laterza avalia que "seria altamente arriscado" fechar um acordo com a assinatura de Zelensky, que vive uma "situação política ilegal perante o próprio ordenamento jurídico" ucraniano. Para o especialista, o líder do regime de Kiev sequer tem autonomia para realizar qualquer tipo de negociação.
"Serão as realidades militares no terreno que definirão a possível resolução deste conflito e a reação da Rússia perante uma OTAN cada vez mais assertiva e militarizada."