Política anti-imigração da Europa intensifica conflitos internos entre europeus, diz analista (VÍDEOS)
Diversos países da Europa vêm recrudescendo medidas que visam limitar e até deportar imigrantes. No entanto, essas ações, motivadas muitas vezes pela insatisfação com a crise econômica que atravessa o continente, podem gerar efeitos colaterais inclusive entre cidadãos europeus, devido à assimetria na relação entre os Estados no âmbito do bloco.
Nesse sentido, Fabiana de Oliveira, mestre e doutora em relações internacionais pelo PROLAM/USP, explica em entrevista à Sputnik Brasil que a perseguição a grupos específicos de estrangeiros acaba ocultando um cenário ainda mais complexo: a migração intraeuropeia. Nela, o cidadão de um país menos abastado do continente migra para outro mais rico e sofre preconceito, embora também possua o passaporte europeu.
"Esse é o risco que as pessoas não percebem, porque há um alvo em comum, que é o imigrante árabe, islâmico e turco. Só que isso pode se voltar contra imigrantes de países mais pobres na Europa. Por exemplo, a Bulgária ingressou na União Europeia e é óbvio que trabalhadores búlgaros emigrem para a Alemanha ou França. Portanto, há condições para que esse sentimento se volte contra outros cidadãos europeus", disse.
Fabiana, especialista em temas relacionados à imigração e que já viveu na Inglaterra, relembra que a propaganda do Brexit, referendo que retirou o Reino Unido da União Europeia em 2020, era marcada por discursos sobre os impactos da migração de outros europeus para dentro do território britânico.
"Durante a campanha do Brexit no Reino Unido, em 2016, já existia muito dessa ideia de que o problema era culpa do polonês ou do romeno, por exemplo. Esse sentimento já estava presente", comenta.
Movimentos contra a imigração influenciam a política
Outro ponto levantado por Fabiana é que o espaço institucional, ocupado por partidos que elegem representantes por sufrágio público ou votação indireta, acaba sendo dominado por figuras que dão voz a movimentos contra a presença de estrangeiros, antes restritos às ruas.
"Existe um mal-estar generalizado, amplo, que alcançou até mesmo países considerados mais estáveis, como a Suíça. As elites políticas não conseguem dar uma resposta rápida. O que há de mais simples para oferecer a esse eleitorado frustrado é a ideia de que a imigração está por trás de todos esses problemas", destaca.
A pesquisadora também ressalta que essa tendência não se restringe apenas a partidos da direita, uma vez que há até coligações da esquerda, por ambições eleitorais, acabam absorvendo essas pautas por estarem em alta no seio da população de seus respectivos países.
"Vou dar um exemplo bem simples. Na Espanha, há um partido pequeno chamado Frente Obrero, que tenta disputar o eleitorado de esquerda e se diferenciar do Vox, da extrema direita, dizendo que não é a favor de humilhar os imigrantes, mas sim de prendê-los e colocá-los em centros de detenção por tempo indeterminado", observa.
Cidadãos da América Latina também serão afetados
A recente proposta suíça de limitar a população a 10 milhões até 2050 soma-se a um movimento mais amplo de endurecimento migratório na Europa, como em Portugal, cujas mudanças recentes aumentaram o tempo necessário para estrangeiros solicitarem cidadania; e, na Itália, o governo restringiu o acesso à cidadania por descendência, afetando especialmente o Brasil, entre outras comunidades da América Latina, como observa Fabiana.
"Quando há endurecimento das regras, a dificuldade aumenta para todos. Por exemplo, vão sendo impostas barreiras para os descendentes [europeus], e com isso o acesso ao passaporte fica restrito. Além disso, há também uma multiplicação de vistos que são muito frágeis e colocam os imigrantes, como os brasileiros, em uma situação de muita precariedade", conclui.
Em um mundo cada vez mais globalizado, países que ainda carregam as chagas do colonialismo europeu enfrentam sérias dificuldades de desenvolvimento e continuam tendo a Europa, sua antiga metrópole, como referência para trabalhar. No entanto, o outrora idealizado modelo de bem-estar social europeu não apenas é questionado externamente, mas também passa a gerar profundas contradições econômicas e assimetrias entre os próprios europeus.
Por Sputinik Brasil