GUERRA

'Morte lenta': após 5 meses, Conselho de Paz para Gaza não entregou resultados prometidos

Por Sputinik Brasil Publicado em 03/06/2026 às 21:15
© AP Photo / Abdel Kareem Hana

Anunciado com estardalhaço em janeiro passado, o Conselho de Paz criado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, obteve baixa adesão da comunidade internacional e suas ações permanecem no campo da retórica, segundo analistas ouvidos pela Sputnik Brasil.

Na época foram convidados 50 países a integrarem o conselho com aporte mínimo de pelo menos US$ 1 bilhão. Um mês depois, em 19 de fevereiro, houve uma reunião inaugural em Washington, com integrantes de mais de 20 países, entre eles da Argentina, Hungria e Israel. Dentre os ausentes estão outros tradicionais aliados da Casa Branca, como França, Alemanha e Suécia, que rejeitaram o convite.

Segundo o Financial Times, nenhum centavo entrou no fundo coordenado pela Organização das Nações Unida (ONU). Por outro lado, algumas doações foram utilizadas, como US$ 20 milhões enviados pelo Marrocos, que foram aplicados para pagar o escritório do alto representante da entidade, o diplomata búlgaro Nikolai Mladenov. Enquanto outros US$ 100 milhões doados pelos Emirados Árabes Unidos foram para um conta do banco privado J.P. Morgan, segundo um porta-voz do órgão, e ainda não foram aplicados.

Enquanto isso, na Faixa de Gaza a violência persiste, com bombardeios constantes do exército de Israel no território alegando atacar células do grupo palestino Hamas, apesar do cessar-fogo. O último anúncio oficial sobre o fundo foi publicado em 21 de janeiro no site do conselho.

A fraca resposta financeira ocorre enquanto as operações militares israelenses continuam em Gaza, apesar do cessar-fogo acordado em outubro de 2025. Desde que entrou em vigor, quase mil pessoas foram mortas, segundo o Ministério da Saúde do território palestino. Israel, por sua vez, ainda controla mais de 60% de Gaza, incluindo todos os pontos de entrada e saída.

"Falhou redondamente em seus objetivos", opinou o professor do Núcleo de Pesquisa sobre as Relações Internacionais do Mundo Árabe da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Nuprima/UFRGS), Bruno Mendelski.

O próprio formato informal do conselho e a falta de transparência já anunciavam o fracasso da iniciativa, segundo o pesquisador.

"Ao contrário de outros fundos que são gerenciados por organismos multilaterais, como o Banco Mundial, FMI [Fundo Monetário Internacional], quem administra esses recursos é um banco privado, J.P Morgan, um banco estadunidense que não tem obrigação nenhuma de prestar contas", comentou. "A iniciativa personalista do presidente dos EUA para ganhar capital político e enfraquecer as Nações Unidas revelou-se um grande fracasso".

O fato de Israel ser parte do conselho e seguir com a política expansionista no território palestino desde a guerra iniciada em outubro de 2023 também revela a parcialidade da iniciativa.

"O atual governo de Israel não parece preocupado em buscar reconstruir esse território, mas sim seguir avançando e anexando", ressaltou Mendelski. "Nenhuma organização palestina foi chamada a fazer parte", acrescentou.

O presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal), Ualid Rabah, foi mais enfático ao criticar as motivações e falta de transparência do conselho:

"Os doadores não aparecem, porque sabem que não é reconstrução de Gaza e nem soberania de Gaza e nem de um processo continuado para a Solução de Dois Estados e de paz duradoura em Gaza".

Para Rabah, o conselho foi criado com o objetivo de explorar economicamente a região, desde a extração de recursos – na porção norte de Gaza estão localizadas reservas de gás – à construção de um resort, como foi evidenciado pelo plano inicial de Trump de criar uma riviera.

“Os Estados Unidos e Israel não querem reconstruir Gaza [...] O próprio óbice à entrada de ajuda humanitária, de medicamento, de reconstrução dos hospitais, reconstrução da infraestrutura urbana mínima, significa manter Gaza em condição de inabitabilidade."

A professora de relações internacionais da FECAP e pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos (INCT-INEU), Isabela Agostinelli também citou a característica do centralizada do conselho na figura de Trump e seu genro Kushner.

Com foco em lucros com empreendimentos imobiliários no território o conselho tende a afastar adeptos, sobretudo, argumentou a professora, quando o Oriente Médio vive uma série de conflitos armados ligados aos EUA e a Israel:

"Gaza e Cisjordânia, onde há expansão desenfreada de colonos israelenses em terras palestinas e limpeza étnica, mas também no sul do Líbano, em processo de limpeza étnica por soldados israelenses. A guerra de EUA-Israel ao Irã trouxe distúrbios globais no comércio internacional, sobretudo de petróleo."

Sem plano B

Agostinelli reforçou os argumentos do presidente da Fepal de que o conselho busca acabar com a soberania e autodeterminação palestina e criticou o descaso da comunidade internacional com o que chamou de genocídio em curso:

"As matanças continuam, a limitação extrema de entrada de alimentos e medicamentos por parte de Israel continua. A situação é de um genocídio continuado, mas agora com mais espaçamento nos períodos de bombardeio. É uma espécie de morte lenta que Israel e EUA infligem cotidianamente aos palestinos", disse.

Os entrevistados foram uníssonos ao avaliarem que a espalhafatosa criação de um conselho internacional independente acabou por esvaziar outras alternativas orquestradas pela comunidade internacional, seja a partir das Nações Unidas e ou de potências regionais árabes para ajudar o território palestino.

Uma coordenação coletiva de países como China, países muçulmanos, como Turquia e Indonésia, do continente africano, da liga árabe, e mesmo de países como o Brasil, teria alcançado resultados muito mais promissores e comprometidos com a ajuda aos cidadãos de Gaza, afirmou Rabah.

De acordo com Mendelski, não faltam recursos, mas capacidade de coordenação entre as grandes potências.

“É fato que o sistema multilateral, que é muito simbolizado pelas Nações Unidas, está em crise, essa crise é muito em virtude da política unilateral dos Estados Unidos, e enfim, as grandes potências não parecem interessadas em resolver a situação”, opinou ele.

Essa situação, completou Agostinelli é mais uma evidência de que o consenso internacional de Solução de Dois Estados é mera falácia e o que se implementa na região é colonialismo puro e desenfreado.

"Não é possível reconstruir Gaza sem uma alta quantia de dinheiro, sem um plano logístico para retirar as toneladas de escombros que se tornaram as casas palestinas, mas principalmente sem uma solução política que de fato reflita as aspirações dos palestinos por sua autodeterminação e pelo fim do colonialismo israelense em suas terras, que só é possível com o apoio irrestrito dos EUA", concluiu.