Psiquiatra publicado em 90 países, Augusto Cury mira presidência, propõe 'Make Humanity Great Again'
Em entrevista à Sputnik Brasil, o psiquiatra e pré-candidato à Presidência pelo Avante defende a reforma do STF, critica a polarização política, alerta para uma crise global de saúde mental e propõe uma agenda inspirada no lema "Make Humanity Great Again".
Em uma sala de reuniões na zona norte de São Paulo, o psiquiatra, autor publicado em 90 países e agora pré-candidato à presidência pelo Avante, Augusto Cury, conversou com a Sputnik Brasil sobre suas visões de mundo e projetos políticos.
Ao longo de quase uma hora de entrevista, ele falou sobre intoxicação digital, a epidemia silenciosa causada por medicamentos para emagrecer, a dívida americana que se aproxima do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, a necessidade de reformar o Supremo Tribunal Federal (STF) e o que classifica como um colapso global da saúde mental. Tudo isso embalado por uma candidatura que, segundo ele próprio admite, cerca de 90% dos brasileiros ainda não sabe que existe.
Cury justifica a entrada na política pelo mesmo diagnóstico que faz da sociedade, um ambiente tóxico que precisa de um médico, não de mais um político.
"Justamente por isso", respondeu, quando questionado sobre o que o levou a se lançar num cenário tão polarizado. "Porque eu gostaria de me colocar como a voz da pacificação, a voz contra o radicalismo, a voz que soma. O Brasil tem de ser o Brasil que soma e não o Brasil que divide."
O psiquiatra diz que líderes de todos espectros estão mais interessados em destruir adversários do que em construir projetos para o país. "Nunca encontrei um ambiente tão tóxico como esse. Há uma necessidade neurótica de poder, a necessidade de projetar o ego."
Sem experiência eleitoral, Cury diz não precisar da política financeiramente, que poderia "morar em qualquer país do mundo gozando o sucesso", mas que escolheu se candidatar por amor ao Brasil.
Saúde pública
O médico entende que a intoxicação digital é uma crise de saúde pública, por meio do uso excessivo de celulares, que interferiria na dopamina e serotonina do cérebro, provocando uma dependência comparável quimicamente à da cocaína. Para ele, tal fenômeno está na raiz do aumento global do radicalismo político.
"Uma criança de 7 anos tem mais informações que o imperador romano. Imagina, com tantas informações, super estimulada”, exemplifica.
Ele alertou também para o aumento de automutilação em jovens e também sobre o boom de medicamentos injetáveis para emagrecimento, como o Mounjaro e o Ozempic, originalmente desenvolvidos para diabéticos.
"As canetas ou os medicamentos que são usados para diabetes ou pré-diabetes estão sendo usados excessivamente para o emagrecimento. Está havendo uma epidemia de sarcopenia no mundo", disse, mencionando o déficit de musculatura causado pela perda de peso sem dieta adequada e sem exercícios físicos.
Para ele, governos de diferentes países devem adotar políticas de Estado com critérios clínicos claros para o uso desses medicamentos, que só deveriam ser prescritos em casos de obesidade mórbida com risco de vida.
Geopolítica
No âmbito da geopolítica, ele disse estudar a fundo o tema há 25 anos, e um dos principais alvos é a dívida dos Estados Unidos, que, segundo ele, ultrapassa 100 trilhões de dólares, "quase o PIB mundial".
Cury diz reconhecer a lógica por trás das tarifas de Donald Trump. Há, segundo ele, "um desejo intenso e ansioso" de resolver a crise fiscal americana, mas alerta que, se não for resolvido, "o mundo pode entrar em colapso, porque nós dependemos do dólar".
"Make Humanity Great Again. Faça a humanidade grande e nova”, afirmou.
STF, Banco Master e escala 6 por 1
Questionado pela Sputnik Brasil, Cury prometeu que, na primeira semana de um eventual governo, convocaria o Congresso para acabar com o que chamou de "mandato eterno" dos ministros, com mandatos de oito anos, e com maior participação de mulheres.
Sobre o escândalo do Banco Master, ele criticou os altos valores envolvidos e disse: "Como é que pode milhares de pessoas que investiram os seus recursos, às vezes investiram tudo que tinham, ter o seu dinheiro solapado? Aonde foi esse dinheiro?", questionou, dizendo que é preciso punir "sem concessão, seja de direita ou seja de esquerda”.
No campo econômico e trabalhista, Cury defende a escala 5 por 2 como medida de saúde pública, com 30% dos trabalhadores brasileiros sofrendo de síndrome de burnout. "Ao contrário do que muitos pensam, a escala 5x2 pode ser muito favorável, não apenas ao trabalhador, mas também ao empresário."
Também defendeu o financiamento de milhões de microempresas nos próximos dez anos, com juros acessíveis, para absorver trabalhadores que perderão postos tanto em funções manuais repetitivas quanto em profissões cognitivas como direito, medicina e engenharia, provocados pelo avanço da inteligência artificial. Ele também defendeu a regularização fundiária de favelas que, segundo ele, acumulam 30 milhões de residências sem escritura.
"Se escriturarmos essas residências, o morador pode usá-las como garantia para abrir uma microempresa. Só isso traria cerca de 1,5 a 2 trilhões de reais para dentro da economia", afirmou.
Os ‘istas’ e o fantasma de Hitler
Cury analisou o radicalismo brasileiro recorrendo à psicologia do nazismo. Na leitura de Cury — contestada por historiadores, que atribuem o nazismo a fatores estruturais mais amplos que a psicologia de um indivíduo — a rejeição de Adolf Hitler numa escola de Belas Artes em Viena gerou uma "janela traumática" que moldou toda a sua psicologia de poder e mortes.
Para ele, o nazismo encontrou numa "falta de pensamento crítico" um terreno fértil, o que tem acontecido nos dias atuais, alimentado pelas redes sociais. Ele disse que um dos problemas da humanidade tem sido os "istas". Isto é: "Os piores inimigos de Lula são os lulistas. Os piores inimigos de Bolsonaro são os bolsonaristas. Os piores inimigos de Trump são os trumpistas", enumerou.
"Toda vez que você é um ista, você endeusa quem valoriza e suspende a capacidade de ver erros."