Procedimentos cirúrgicos concentram R$ 133 milhões em desperdícios na saúde suplementar
Levantamento da healthtech Arvo indica que sobreposição de procedimentos cirúrgicos representa mais da metade das cobranças indevidas
No Brasil, bilhões de reais em cobranças médicas indevidas passam despercebidos todos os anos — não por falta de dados, mas pela dificuldade de interpretá-los.
O que a Arvo identificou depois de processar uma base de mais de R$ 200 bilhões em despesa assistencial é que a maior parte das perdas não vem necessariamente de má-fé: são erros administrativos, processos mal calibrados, cobranças que fogem dos padrões contratuais sem que haja necessariamente intenção de causar dano.
Quando olhamos para a categoria de procedimentos cirúrgicos, esse padrão se torna ainda mais claro: em 2025, mais de R$130 milhões de toda a economia apontada pela Arvo estava concentrada nessa categoria.
Sobreposição de procedimentos: a origem do problema
Dentro da categoria, um único tipo de irregularidade responde por mais da metade de tudo o que é identificado: a sobreposição de procedimentos – ou seja, a cobrança simultânea de procedimentos que, tecnicamente, já estão incluídos um no outro. São 56,1% do total da economia identificada na categoria, um padrão que se repete em diferentes especialidades e contextos cirúrgicos.
Um exemplo comum, capturado em uma operadora de grande porte localizada no estado de São Paulo: uma cirurgia começa por vídeo, técnica minimamente invasiva, com pequenas incisões. Durante o procedimento, porém, o médico pode se deparar com uma anatomia complexa ou um sangramento inesperado e, por segurança do paciente, decidir converter para a técnica aberta. Nesses casos, a regra é clara: cobra-se apenas a via pela qual a cirurgia foi concluída. Registrar as duas técnicas como se fossem procedimentos independentes, quando na prática integram um único ato cirúrgico, é exatamente o que caracteriza a sobreposição.
O mesmo padrão de cobrança indevida aparece em cirurgias endoscópicas para remoção de cálculos renais, nas quais a dilatação do canal urinário e a retirada da pedra são frequentemente cobradas de forma separada — ainda que a dilatação seja uma etapa técnica necessária para viabilizar o procedimento principal, não um procedimento autônomo.
Além da sobreposição, outros 19,8% são irregularidades que vêm de honorários médicos, como cobranças em desacordo com as tabelas CBHPM e AMB ou com contratos firmados entre operadora e prestador.
As especialidades que mais concentram cobranças indevidas
Procedimentos de alta complexidade, com uso intensivo de materiais de alto custo como OPMEs, concentram naturalmente a maior parte da despesa assistencial cirúrgica — e é exatamente onde os apontamentos são mais expressivos.
De acordo com a base da Arvo, Neurocirurgia lidera com 22,03% de toda a economia apontada, seguida por Cirurgia Geral (20,95%) e Ortopedia e Traumatologia (14,63%).
Distribuição das cobranças indevidas no território nacional
A distribuição geográfica reforça o caráter sistêmico do problema. Sul e Centro-Oeste registram os maiores índices relativos de desperdício em procedimentos cirúrgicos — 23% e 14% acima da média nacional, respectivamente.
O Sudeste aparece 10% acima da média, o que, dado o volume de despesa assistencial da região, representa a maior oportunidade absoluta de recuperação. O Norte fica 8% acima da média, enquanto o Nordeste apresenta o melhor desempenho relativo do país, com índice 24% abaixo da média nacional.
O custo do que passa despercebido
O que fica claro é que os vazamentos na despesa assistencial de procedimentos cirúrgicos persistem por que o ambiente da saúde é estruturalmente complexo: enormes volumes de informação chegam de forma estruturada, os contratos entre operadoras e prestadores são altamente individualizados – cheios de nuances e condicionantes que tornam a verificação de conformidade extremamente difícil – e os processos administrativos ainda são, em grande parte, manuais e lentos. São custos que consomem recursos valiosos do setor e que poderiam estar sendo direcionados para gerar mais saúde para a população.