RELAÇÕES EXTERIORES

Suriname pode ser a porta de desenvolvimento para a região Norte do Brasil, diz analista (VÍDEOS)

Por Sputinik Brasil Publicado em 03/06/2026 às 12:15
© Ricardo Stuckert/PR

Uma recente visita oficial da presidente do Suriname, Jennifer Geerlings-Simons, a Brasília reforça a tentativa do Brasil de dar mais peso estratégico à relação com o país vizinho. Na ocasião, o presidente Lula destacou o potencial de cooperação em energia, mencionando inclusive a possibilidade de atuação da Petrobras no setor petrolífero do Suriname.

De acordo com a análise de Iuri Cavlak, professor de Teoria da História da Unifesp e autor do livro "Breve História do Suriname", o estreitamento das relações bilaterais traz benefícios mútuos. O especialista aponta que a proximidade geográfica e política não apenas abre portas para corporações brasileiras inseridas no Suriname e, consequentemente, no Caribe, mas também pode se tornar um vetor de crescimento socioeconômico para os estados do Norte do Brasil.

"Os estados do Amapá, Pará, Amazonas e Roraima, de certa forma, têm dificuldades de intercâmbio com o restante do Brasil por serem distantes, com estradas complicadas, e a malha aérea nem sempre é um modal barato. Então, quando se pode inserir esses estados nessas relações primordiais na fronteira com o Suriname, isso pode vitaminar as próprias economias locais das cidades", disse.

O especialista destaca o turismo como um vetor essencial para o desenvolvimento regional, impulsionado pelos fortes laços culturais e migratórios entre os surinameses e os moradores do Norte do Brasil.

“Em Paramaribo há um bairro chamado ‘Belénzinho’ com cerca de 30 mil brasileiros, e só se fala português. Nesse sentido, é importante o intercâmbio cultural e explorar o turismo.

Suriname pode ser uma plataforma para a Petrobras

Após a coletiva entre Lula e sua homóloga Jennifer Geerlings-Simons, entre os acordos assinados por seus respectivos ministros, falou-se também de uma possível parceria entre a Petrobras e a estatal surinamesa Staatsolie. Para Cavlak, seria uma ótima oportunidade para a empresa brasileira ingressar no mercado por meio de serviços especializados.

“A Petrobras está próxima do Suriname e oferece uma ótima tecnologia na região [no contexto da América Latina], onde temos a Pemex, mas que está lá no México, e a PDVSA da Venezuela, que passa por uma situação política complicada. Dessa forma, o Brasil é a principal opção [para parceria]”, destaca.

O pesquisador aponta que a Petrobras, que ao longo de 2024 celebrados acordos bilaterais de cooperação técnica nas áreas de petróleo e energias renováveis, com ênfase na segurança das operações de exploração de hidrocarbonetos com o Estado, pode ser benéfico ao mercado interno brasileiro.

“Se se estabelecer ali [no Suriname] um monopólio de exploração da Petrobras pelo menos em alguns campos, com o pagamento de royalties ao governo do Suriname ou a importação de petróleo para o Brasil, torna-se possível reduzir o preço [do combustível].

Proximidade com Brasília é boa para Paramaribo

Outro ponto levantado por Cavlak é que a proximidade com o Brasil traz vantagens ao Suriname na esfera econômica, mas também em outras vertentes, como a política, já que o país tem questões territoriais a serem resolvidas com a Guiana Francesa, território e único europeu na América do Sul, e Brasília, na visão do professor, poderia servir como mediadora por ser uma potência na região.

"A relação entre Brasília e Paramaribo é uma ponte para o futuro, ou seja, para cooperações em infraestrutura e acordos econômicos que podem proporcionar melhor barganha na exploração de novas commodities. Além disso, o Suriname tem interesse porque disputa território com uma grande potência [a França] e, tendo o Brasil como um interlocutor ao seu lado, pode se fortalecer nesse sentido", conclui.

O complexo cenário global e as pressões de Washington reconfiguraram a política sul-americana. Como exemplo, Brasil e Argentina se afastaram por divergências ideológicas. Diante disso, Brasília busca novos parceiros ao norte, como Colômbia e Suriname, de olho no mercado caribenho.