GEOPOLÍTICA

Parceria Rússia-EAU em fertilizantes fortalece geopolítica dos países e segurança alimentar global

Por Sputinik Brasil Publicado em 02/06/2026 às 19:57
© Sputnik / Vladislav Shidlovskiy

Em entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, especialistas destacaram a importância de Moscou e Abu Dhabi no setor, que pode ser potencializada com a criação da Bolsa de Grãos do BRICS e a construção de soluções logísticas que não fiquem nas mãos do Ocidente.

O vice-primeiro-ministro da Rússia, Dmitry Patrushev, visitou recentemente os Emirados Árabes Unidos (EAU), onde conversou com autoridades locais sobre agronegócio. Dentre os assuntos abordados, os representantes de Moscou e Abu Dhabi discutiram a intensificação da parceria na área de fertilizantes.

"A cooperação entre a Rússia e os Emirados Árabes Unidos tem caráter estratégico. [...] Os EAU são um dos principais parceiros econômicos da Rússia no Oriente Médio. No ano passado, o comércio bilateral alcançou um recorde histórico. Vale ressaltar que a interação no setor agroindustrial tem se desenvolvido de forma consistente: nos últimos três anos, o volume de comércio bilateral mais que dobrou."

Outro assunto importante debatido por Patrushev nos Emirados Árabes Unidos foi a Bolsa de Grãos do BRICS. Essa iniciativa tem apoio de todos os países que compõem o grupo. Para a Rússia, esta é uma maneira de fortalecer a segurança alimentar global, dando a possibilidade às nações do grupo de criarem indicadores de preço independentes.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas afirmaram que o estreitamento das relações entre Rússia e EAU no setor agrícola fortalece geopoliticamente os dois países.

Pedro Moraes, analista de mercado agrícola na AMR Business Intelligence, explica que a Rússia é uma potência na área de fertilizantes graças ao baixo consumo interno desse tipo de produto no país, dada a qualidade natural do solo russo. Esse destaque no setor dá a Moscou uma oportunidade de transformar esse potencial em força geopolítica.

"A Rússia é uma superpotência nesse cenário do mercado internacional de fertilizantes. Ela é a maior exportadora mundial de nitrogenados, com 19% do mercado global, a terceira maior de fósforo, com 18%, e a segunda maior de potássio, com 19%, o que é bastante coisa. [...] A Rússia converte segurança alimentar em influência e uma moeda política muito importante."

Moraes destaca que os países que formam o BRICS possuem 49% da oferta global das principais culturas consumidas a nível global: arroz, milho, soja e trigo. O especialista também destaca que 48% da população mundial consome alimentos agrícolas plantados com a adição de fertilizantes.

"Quem controla esse insumo [fertilizante], com certeza, tem um baita poder de influenciar a vida e a morte, no sentido literal, ainda mais nos países que são mais dependentes da importação desses insumos."

Wiliander França Salomão, pós-doutor, doutor e mestre em direito internacional pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), professor de direito internacional na Universidade de Itaúna e vice-presidente da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Minas, acredita que um estreitamento nos laços agrícolas entre Rússia e EAU tende a fortalecer os dois países.

"Essa parceria entre Rússia e Emirados Árabes Unidos vai crescer, principalmente, com impactos na produção de alimentos, porque a Rússia é uma das maiores exportadoras de fertilizantes, e os EAU têm essa capacidade logística e financeira e de acesso privilegiado aos mercados do Oriente Médio, da África e da Ásia."

Para Salomão, a Bolsa de Grãos do BRICS vai ter um impacto "primordial" no sistema de preços globais, hoje fixado por agentes ocidentais nos Estados Unidos e na Europa. O especialista vê capacidades dentro do grupo que permitem construir um mecanismo desse tipo, como banco e sistema de pagamento próprio.

"Acredito que, nesse cenário de guerra, de sanções, de mudança climática, os países que controlam cadeias de fertilizantes, exportação, eles vão ganhar mais poder de barganha na geopolítica, porque, claro, o agronegócio, os alimentos, é óbvio, são recursos estratégicos para os próximos séculos. Então, isso sim tem grande impacto, talvez até mais impacto no futuro do que o próprio petróleo."

Par perfeito

Moraes comenta que a união Rússia-EAU no segmento dos fertilizantes é uma parceria de dois atores que se complementam. O especialista explica que existem três tipos diferentes de fertilizantes mais comuns: fósforo, nitrogênio e potássio.

Moscou e Abu Dhabi se encontram justamente na fabricação de fósforo. Ele conta que esse tipo de fertilizante precisa de enxofre em sua formulação, mercado liderado mundialmente justamente pelos Emirados Árabes Unidos, com cerca de 45% da produção global.

"A parceria de um grande produtor de fertilizantes, como a Rússia, com uma superpotência do mercado internacional de enxofre, no caso, os Emirados Árabes Unidos, representa, sem dúvida, uma parceria muito importante no segmento de fertilizantes."

O analista de mercado conta que o enxofre é obtido a partir do refino de gás natural e petróleo, e países, muitas vezes, destinam boa parte da sua produção e importação desses tipos de hidrocarbonetos para a fabricação de fertilizantes. Ele cita como exemplo a Índia, que aporta 30% das importações de gás para as fábricas de fosfatados.

"Já pensou se esse quase 1 bilhão de indianos morando no campo não conseguissem comprar fertilizantes, sofressem algo como uma quebra de safra, que não é difícil de acontecer? Imagina o impacto disso, se toda essa massa enorme de pessoas passar a buscar melhores condições de vida na cidade."

Se a Rússia pode se beneficiar com o enxofre dos EAU, os emiradenses podem encontrar nas terras russas uma alternativa alimentar e logística para suprir o gargalo gerado pelo estreito de Ormuz. Cerca de 90% do milho, do farelo de soja e da cevada importados por Abu Dhabi passam por esta via marítima, fechada pelo Irã após os ataques de Estados Unidos e Israel.

"Na minha opinião, isso [a crise em Ormuz] acelera o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul, o INSTC, via Irã, que é um corredor proposto por Moscou, no qual produtos russos, como fertilizantes, grãos, minerais, etc., saem do sul da Rússia, atravessam o mar Cáspio, entrando no Irã, onde são transportados via modal ferroviário ou rodoviário para os portos iranianos, tanto do golfo Pérsico quanto do golfo de Omã."