OBRA

Kintsugi: rachaduras emocionais são transformadas em poesias sobre resiliência

Escritor Saulo Florentino usa a arte japonesa de reparar cerâmicas quebradas com ouro como metáfora para discutir saúde mental, violência cotidiana e a dor da existência humana

Por Assessoria Publicado em 02/06/2026 às 09:08
Divulgação

Entre ruas e bares vazios, insônia durante a madrugada, cansaço mental e a dura rotina que esmaga as pessoas, a poesia surge como tentativa de sobrevivência. É nesse cenário urbano, marcado por excesso, silêncio e desgaste emocional, que nasce Kintsugi, novo livro do poeta Saulo Florentino. Inspirada na técnica japonesa de restaurar cerâmicas quebradas com ouro, a obra utiliza as próprias rachaduras da existência humana como metáfora e matéria-prima para construir as mais de 50 poesias que compõem este lançamento. 

Ao longo do livro, o autor passa por temas como saúde mental, solidão, vícios, desilusão religiosa, relações afetivas e violência social sem suavizar a realidade. Os poemas carregam o peso das ruas, da exaustão coletiva e da sensação de deslocamento diante do mundo contemporâneo. Cada estrofe aparece não como resposta definitiva para a dor, mas como possibilidade de permanência diante dela: mais do que propor uma superação idealizada, o escritor foca no ato de lidar com os próprios cacos em um mundo caótico e fragmentado. Ou seja, em vez de esconder as falhas e as inseguranças, Saulo escolhe transformá-las em arte literária. 

Mas havia algo 
em mim que ainda lutava: 
amores, sangue, 
sonhos que ainda ardiam [...]  
Memórias de coisas que não fiz, 
músicas que não ouvi, 
beijos que não dei 
e abraços, abraços e mais abraços. 
segurei minha mão, 
lembrei da minha mãe, 
do meu pai 
e dos limites da dor  
que eu era capaz  
de carregar sozinho. 
(Kintsugi, p. 212 e 213) 

Entre os textos centrais da obra está Caninha da Roça, que transforma uma cena cotidiana e urbana em reflexão sobre dor, violência e conexão humana em meio ao caos. Já em Terça em chamas, o autor retrata a prisão invisível da rotina de trabalho, os corpos consumidos pelo capital e o esgotamento emocional que atravessa os centros urbanos. No intitulado Carne Assada, o leitor mergulha na solidão, na melancolia e na tentativa de encontrar honestidade emocional em meio aos excessos e silêncios da vida contemporânea. Em cada poesia, Saulo Florentino transforma o eu lírico em espaço de confissão pública, sem medo de expor rachaduras emocionais, vícios, impulsos autodestrutivos e perdas, além de confrontar o vazio cultural da era digital e discutir o abandono da memória artística e filosófica. 

O poema que dá nome ao livro concentra a principal ideia da obra: sobreviver também significa aceitar as marcas deixadas pela existência e sempre há beleza nos próprios estilhaços. Em Kintsugi, o poeta itaboraiense transforma a poesia em ferramenta de reconstrução, sem discursos de superação ou fórmulas de conforto. O autor propõe reconhecer as cicatrizes, compreender os próprios excessos e transformar a dor em linguagem compartilhada para que ajude mais pessoas a se aceitarem. Ao valorizar essas rachaduras em vez de escondê-las, o livro mostra que a arte não elimina o peso da vida, mas abre espaço para ressignificar o caos cotidiano. 
 
“Essa obra nasce da tentativa de encarar a dor, o vazio e as contradições da existência sem maquiagem. Mesmo nos momentos mais extremos, quando tudo parece ruir, ainda há algum tipo de movimento possível, ainda que mínimo, ainda que imperfeito. Kintsugi mostra que não existe reconstrução limpa: o que existe é remendo, cicatriz, adaptação. É aprender a conviver com as próprias rachaduras e, em alguns casos, transformá-las em linguagem, em arte e em permanência”, confidencia escritor. 

Ficha técnica
Título: Kintsugi 
Autor: Saulo Florentino 
ISBN: 978-65-85064-21-7r 
Edição/ano: 1ªed., 2026 
Gênero: poesia 
Número de páginas: 216 
Preço: R$ 60,00 (físico) | R$ 30,00 (e-book) 
Onde encontrarAmazon  



Sobre o autor: Saulo Florentino é escritor, poeta e produtor cultural de Itaboraí (RJ). Desde a infância, utiliza a escrita como forma de expressão diante de temas como depressão, ansiedade, amor, solidão e desgaste emocional, elementos que atravessam sua produção literária. Autor dos livros Um marginal que voou baixo demais (2017), A diferença entre o veneno e o remédio é a dose (2019) e Apagando a luz no fim do túnel ou a verdade humana (2024), constrói obras voltadas às fragilidades humanas e aos conflitos da vida contemporânea. Indicado ao Prêmio Oceanos e ao Prêmio Biblioteca Nacional, também desenvolve projetos culturais ligados à literatura e à saúde mental em CAPS do Rio de Janeiro. Com projeto selecionado pelo SESC Pulsar, percorreu cidades do estado promovendo encontros literários e rodas de conversa.  
Instagram@sauloflorentino