Deolane: influenciadora tinha 'cronograma estratégico' para ocultar bens do PCC, diz polícia
Os bens de luxo apreendidos pela Polícia Civil na residência da influenciada e advogada Deolane Bezerra dos Santos, suspeita de lavar um "oceano de dinheiro" da cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC), não surpreenderam tanto os delegados do caso quanto o documento encontrado em posse dela "cronograma estratégico e estruturação corporativa", segundo investigação ouvidos pelo Estadão. O material reúne um passo a passo de como o grupo investigado, ligado diretamente ao líder máximo da facção, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola 'Narigudo', atuaria para ocultar e dissimular parte do fluxo de caixa do crime organizado.
Os advogados de Deolane afirmaram ao Estadão que estão analisando o relatório final complementar da Polícia Civil, que vincula a empresária a um suposto esquema de lavagem de dinheiro por meio de uma transportadora de valores do interior paulista atribuído ao PCC. A influenciadora nega qualquer relação com a facção e sustentação. "Não sou bandido."
Deolane e outros sete investigados, entre eles Marcola e familiares do líder do PCC, e também um contador e um operador do esquema ligado à influenciada, foram indiciados pela Polícia Civil de São Paulo na sexta-feira, 29, pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro.
A defesa de Marcola, conduzida pelo criminalista Bruno Ferullo, afirmou em nota que “o indiciamento constitui ato investigatório e não implica reconhecimento de culpabilidade”.
'Verdadeiro plano estratégico'
As 12 páginas do documento apreendido na residência de Deolane, no condomínio Tamboré, na Grande São Paulo, durante a Operação Vérnix, deflagrada há duas semanas, indicam, segundo a Polícia Civil, o uso coordenado de empresas de diferentes áreas, como holdings patrimoniais, publicidade, cosméticos e apoio administrativo financeiro para a lavagem de dinheiro do esquema.
Na avaliação da Polícia, esse modelo ajudaria a ocultar a origem do dinheiro, dificultar o rastreamento dos valores e posteriormente reinserir os recursos no mercado formal com aparência de legalidade.
"Da análise do documento apreendido, verifica-se que o material não se limita a um simples levantamento cadastral, mas revela verdadeiro plano estratégico de reorganização societária, expansão comercial e adequação regulatória do grupo investigado, com definição de etapas, prazos, status de execução e pessoas jurídicas envolvidas", diz o relatório complementar subscrito pelos delegados Edmar Rogério Dias Caparroz e Ramon Euclides Guarnieri Pedrão.
O documento sob escrutínio do pesquisador também cita a empresa DB Santos Apoio Administrativo e Financeiro Ltda, ligada a Deolane. No curso das apurações, a companhia aparecia registrada em um endereço apontado pela Polícia como de fachada, em Martinópolis, no interior paulista, a 440 quilômetros de São Paulo.
Nenhum material apreendido com Deolane, porém, a empresa já consta sediada em outro endereço, no Jardim Grimaldi, na zona Leste da capital paulista. Segundo consulta dos policiais à Junta Comercial de São Paulo, uma mudança de endereço foi formalizada recentemente, em 22 de abril de 2026. Para o investigador, isso reforça a suspeita de continuidade das movimentações financeiras e societárias atribuídas ao grupo.
A Polícia destaca também que o documento “Cronograma Estratégico e Estruturação Corporativa - Grupo Deolane”, datado de maio passado, menciona medidas imediatas, expansão comercial prevista para julho e alterações recentes em empresas ligadas à estrutura investigada.
Os delegados anotaram no relatório parcial enviado à Justiça que "o documento apreendeu fortalece as hipóteses de que o grupo investigado buscava aperfeiçoar mecanismos de lavagem de dinheiro por meio de reorganização societária, ocupação empresarial, expansão de atividades comerciais e utilização de pessoas jurídicas formalmente distintas".
Cadillac, 19 relógios e moeda estrangeira
As buscas realizadas na residência de Deolane resultaram na apreensão de veículos de luxo, joias, relógios, dinheiro em espécie, moeda estrangeira, aparelhos eletrônicos e documentos considerados relevantes para a investigação. “A apreensão desse conjunto de bens revela a existência de acervo patrimonial de alto padrão, composto por ativos móveis de elevado valor, fácil transporte e potencial liquidez, compatíveis com estratégias de preservação ou conversão patrimonial em contextos de lavagem de capitais”, anotam os delegados.
Entre os bens coletados estão um Mercedes-Benz AMG G63, um Jeep Commander Limited, um Cadillac Escalade e um Land Rover Range Rover P530. Segundo o investigador, os veículos foram registrados em nome de diferentes empresas, o que levantou suspeitas sobre o possível uso de pessoas jurídicas para ocultar patrimônio.
No interior da casa de Deolane também foram apreendidos 19 relógios de alto luxo, diferentes marcas e modelos, além de 40 joias e dinheiro vivo - R$ 51,4 mil e 1.550 euros. Os agentes instalaram, ainda, celulares, notebooks, MacBooks, iPads, CPUs e computadores iMac, que passarão por uma minuciosa perícia.