Tokenização proposta pelo NBD é segurança contra sanções e opção ao dólar, afirma analista (VÍDEOS)
Durante a 11ª Reunião Anual do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), realizada em Moscou, a tokenização foi apontada ao longo das discussões do evento como uma das ferramentas capazes de dinamizar pagamentos, reduzir custos e aumentar a eficiência das operações internacionais, além de funcionar como uma camada de proteção contra sanções unilaterais.
O encontro ocorrido na Rússia neste mês de maio teve como lema "Financiamento do desenvolvimento em uma era de revolução tecnológica". Diante de um cenário internacional de recrudescimento de tensões que traz instabilidade para a economia mundial, inovações que permitam aos Estados dispor de opções independentes do dólar e que os protejam das sanções passam a ser necessárias, conforme elucida Laura Ludovico, diretora de Projetos e Pesquisas do BRICS+ Tech Fórum, em entrevista à Sputnik Brasil.
"Desde o início do conflito russo-ucraniano, a gente percebeu como a questão econômica e de moedas pode ser usada como armas contra países, e o tema da soberania digital vem centralizando o debate, porque uma nação se mostra preparada e forte, não quando ela responde ao que planeja, mas sim ao que não é planejado. No caso da Rússia, a gente viu inúmeros bloqueios econômicos e a economia resistiu a isso", disse.
Ludovico, que também é advogada especialista em direito internacional e estudos humanitários diplomáticos pela PUC-MG, contextualiza o que seria a tokenização e como essa plataforma pode trazer segurança a movimentações financeiras internacionais entre países.
"A tokenização é uma instrumentalização das formas de transação bancária, especialmente através do meio digital, seja de ativos, contratos, empréstimos e especialmente, moedas. A gente vê muito essa discussão no BRICS quando trazem a ideia de uma moeda para o BRICS, mas, na verdade, essa implementação de instrumentalizar e digitalizar tudo é ainda mais importante do que uma moeda única", comenta.
Digitalização da economia é vital para a soberania
O debate acerca da digitalização da economia, tendo a tokenização como um dos pilares de debate no seio do NBD, para a especialista, também acaba sendo um meio para acelerar a operacionalidade do BRICS Pay, que foi discutido na Cúpula de Kazan, em 2024, e visa ser uma plataforma de transação comercial por meio de moedas locais.
"Quando a gente fala de BRICS, falamos de países que movimentam muito a economia mundial e que precisam estruturar ideias em conjunto. No momento, a ideia de tokenização é um passo para o BRICS Pay. Recentemente, o BRICS+ Tech Fórum publicou um ranking sobre soberania digital, a Rússia ocupa o terceiro lugar nesse ranking e a China, o primeiro, ambos têm a capacidade de criar estruturas", destaca.
A pesquisadora ressalta que o esforço ao inovar em soluções digitais acaba sendo crucial para a soberania de um país, permitindo antever situações extremas e se preparar para lidar com esses desafios em um mundo cada vez mais globalizado.
"[O Ocidente] tentou isolar a Rússia de inúmeras formas, especialmente econômica. Então, imagine um país menor, sofrendo esse tipo de sanção, ele não resistiria e poderia ser invadido ou interferido completamente. Então, se há uma soberania digital plena, e eu falo também no setor bancário, acaba sendo um escudo em relação às sanções", observa.
Tokenização pode fortalecer os países do Sul Global
Todo esse processo de modernização econômica, embora seja uma tendência global, acaba sendo um entrave para países que não possuem plenas condições de desenvolver uma arquitetura financeira interna capaz de ingressar nesse sistema.
Diante desse panorama, Ludovico acredita que o NBD poderia implementar essas soluções e destaca que, de certa forma, a China já vem trabalhando em cooperação com essas nações para impulsionar o desenvolvimento na esfera digital.
"Nós vemos muito a China implementando iniciativas em países para fomentar o desenvolvimento tecnológico. Se o BRICS quer inaugurar uma nova ordem mundial, onde não estejam submetidos às sanções e ao SWIFT, precisa discutir com esses países que não têm essa estrutura. Porque existe uma possibilidade dessa tokenização se tornar um produto a ser implementado a partir de acordos com o BRICS", conclui.
Em um cenário de sanções econômicas e conflitos em larga escala em diversas regiões, a economia global se torna uma das vertentes mais vulneráveis. Diante disso, a digitalização surge como alternativa essencial para dinamizar o fluxo comercial e romper com uma arquitetura financeira dominada por potências tradicionais, tornando-se uma meta crucial para países que buscam garantir sua soberania.
Por Sputinik Brasil