CIÊNCIA E TECNOLOGIA

Tecnologias disruptivas podem levar o Brasil à soberania tecnológica?

Por Sputinik Brasil Publicado em 29/05/2026 às 17:34
© Sputnik Brasil / Rennan Rebello

Especialistas apontam que o avanço em inteligência artificial e outras tecnologias disruptivas depende menos da tecnologia em si e mais de planejamento de longo prazo, reindustrialização e fortalecimento da Base Industrial de Defesa para reduzir dependências externas e ampliar a soberania tecnológica brasileira.

O anúncio de investimentos do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) em infraestrutura, alta tecnologia e ciência reacendeu o debate sobre os caminhos do desenvolvimento tecnológico brasileiro. Embora o país carregue a herança de uma industrialização tardia e de um modelo econômico historicamente agroexportador, o Brasil mantém relevância na produção científica mundial e acumula experiências de inovação em áreas estratégicas.

Exemplos como o acelerador de partículas Sirius, a urna eletrônica e avanços biomédicos demonstram uma capacidade nacional de pesquisa e desenvolvimento que vai além do ambiente acadêmico.

Em um cenário internacional marcado por competição tecnológica crescente, áreas como inteligência artificial (IA), semicondutores e sistemas autônomos ganham importância não apenas econômica, mas também estratégica.

Nesse contexto, cresce a discussão sobre o papel das chamadas tecnologias disruptivas para reduzir dependências externas e ampliar a autonomia nacional. No campo da defesa e da Base Industrial de Defesa (BID) brasileira, a questão central passa a ser se o país conseguirá absorver e desenvolver tecnologias críticas capazes de sustentar um modelo próprio de inovação científica e tecnológica.

Soberania tecnológica

Como explica Claudio Miceli, professor do Programa de Engenharia de Sistemas e Computação (PESC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a soberania tecnológica está diretamente ligada à capacidade de um país dominar as etapas de produção das tecnologias consideradas estratégicas. Segundo ele, embora a resposta para esse desafio não seja simples, atuar na fronteira tecnológica pode ampliar a autonomia nacional.

"A soberania tecnológica vem do domínio das etapas de produção da tecnologia", afirma Miceli. Para o pesquisador, o avanço em áreas como IA e computação quântica — frequentemente classificadas como tecnologias disruptivas — não representa apenas modernização, mas uma oportunidade para que o Brasil deixe de ser mero consumidor e passe a ocupar posição de produtor tecnológico.

"Você trabalhar com essas tecnologias, estar na vanguarda disso, te força a ser produtor desses elementos e, portanto, ganhar elementos de soberania."

Miceli pondera, porém, que esse processo depende do fortalecimento do parque industrial nacional e de um ecossistema de inovação mais robusto. Ele destaca que setores como chips, fertilizantes e indústria química permanecem fundamentais para sustentar qualquer estratégia de autonomia tecnológica.

Ao citar casos internacionais, como empresas chinesas do setor de semicondutores, o professor argumenta que a inovação tecnológica costuma irradiar efeitos sobre toda a economia. "Tem que se criar um ecossistema de grandes empresas trabalhando aqui dentro do Brasil e que fomente as tecnologias, porque aí sim isso vai fazer com que a gente tenha essa soberania".

Na área da defesa, segundo a avaliação de José Augusto Zague, pesquisador do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Universidade Estadual Paulista (IPPRI/Unesp), o principal obstáculo para o desenvolvimento tecnológico brasileiro está na escassez de investimentos em ciência e tecnologia e na fragilidade financeira da BID.

De acordo com o pesquisador, diferentemente de outros setores em que a participação privada pode impulsionar inovação, a tecnologia militar brasileira depende quase integralmente dos recursos das Forças Armadas.

"A maior parte desse investimento em ciência e tecnologia é realizado com o orçamento das Forças Armadas", afirma. O problema, explica Zague, é que esse orçamento enfrenta limitações históricas, já que "a maior parte do orçamento é destinada ao pagamento de soldos e pensões", restando poucos recursos para a aquisição e o desenvolvimento de novos sistemas de defesa.

Para o pesquisador, esse quadro se soma às dificuldades estruturais mais amplas, como o baixo investimento nacional em ciência e tecnologia e os efeitos da desindustrialização. "O Brasil tem dificuldade de desenvolver tecnologias disruptivas" e investe pouco em inovação em relação a outras economias emergentes, argumenta, ressaltando que a perda de capacidade industrial ao longo das últimas décadas atingiu também o setor de defesa.

Desenvolvimento industrial

Para Miceli, o potencial das tecnologias disruptivas para impulsionar o desenvolvimento brasileiro depende menos da ferramenta em si e mais da existência de uma estratégia nacional, capaz de conectá-la ao fortalecimento produtivo.

O pesquisador lembra que, apesar de um histórico de industrialização tardia, o Brasil chegou aos anos 2000 como um país industrializado, mas perdeu parte dessa capacidade ao longo das últimas décadas com o avanço da desindustrialização e a expansão do setor de serviços.

Nesse cenário, ele argumenta que tecnologias como IA podem funcionar como catalisadoras de um novo ciclo industrial, desde que acompanhadas por políticas públicas e planejamento de longo prazo.

"O que a gente precisa mais do que a IA é uma política pública que dê ao engenheiro brasileiro e a toda essa cadeia produtiva da indústria condições para prosperar", afirma.

Segundo o pesquisador, a IA e outras tecnologias emergentes podem criar empregos, agregar valor e fortalecer cadeias produtivas, mas isso exige coordenação entre Estado, indústria e pesquisa.

O professor defende que essas novas tecnologias sejam usadas para gerar efeitos de encadeamento sobre setores estratégicos da economia.

"Temos que usar essas tecnologias disruptivas como injetores de valor para ajudar a resolver nossos problemas estruturais", diz.

Para ele, iniciativas como data centers ou polos tecnológicos só produzem impacto duradouro se vierem acompanhadas de um plano capaz de integrar inovação a áreas como agronegócio, turismo e indústria, criando relações sinérgicas e um ecossistema produtivo mais autônomo. "A questão é mais o plano do que propriamente a área", conclui.

No contexto da BID brasileira, Zague acrescenta que o avanço de tecnologias emergentes pode aprofundar uma vulnerabilidade histórica do setor: a dependência de componentes e sistemas produzidos no exterior. Áreas como IA e sistemas autônomos ampliam a complexidade tecnológica dos equipamentos de defesa e, consequentemente, a necessidade de acesso a insumos e plataformas que o Brasil ainda não produz em escala suficiente.

"As novas tecnologias, como a inteligência artificial e os sistemas autônomos, vão tornar as empresas que compõem a BID brasileira ainda mais dependentes do fornecimento de sistemas, componentes e partes fabricados no exterior", afirma. Para Zague, essa não é uma dificuldade recente, mas uma característica estrutural da indústria de defesa nacional. Ele lembra que essa dependência acompanha a organização da BID desde os anos 1970, alcançando seu auge na década seguinte.

Além disso, dá como exemplo a Embraer e seus dois principais produtos na área de defesa e segurança — o KC-390 e o Super Tucano —, como também vítimas dessa dependência externa para as suas fabricações. "Alguns dos seus principais sistemas, os motores, a aviônica, são produzidos nos Estados Unidos e em alguns países da Europa", diz.

Embora tenha havido esforços recentes de revitalização do setor, o pesquisador avalia que a estrutura produtiva brasileira continua fortemente vinculada ao mercado internacional de componentes estratégicos. Em sua avaliação, o aprofundamento do uso de tecnologias de maior intensidade e caráter disruptivo tende a ampliar esse quadro, tornando a BID brasileira "ainda mais dependente do exterior".

"Essa é uma dependência crônica." Zague ressalta que o principal gargalo para o desenvolvimento tecnológico brasileiro, inclusive na área de defesa, continua a ser o baixo investimento em ciência, tecnologia e inovação.

Como grande parte das empresas instaladas no país opera com elevada dependência tecnológica externa, importando sistemas e componentes de maior complexidade e concentrando suas atividades na montagem final dos produtos, o problema tem potencial de persistir. "Muitas vezes importam pacotes tecnológicos do exterior, fazem a montagem dos produtos no Brasil e têm uma alta dependência dos componentes, sistemas e partes", explica.

Na avaliação de Zague, esse padrão produtivo limita a capacidade nacional de inovação e afeta diretamente setores estratégicos. "Muitas das empresas brasileiras são montadoras de produtos", observa.

Como os componentes de maior intensidade tecnológica permanecem majoritariamente sendo produzidos fora do país, a indústria brasileira — e, por consequência, a BID — enfrenta dificuldades para desenvolver autonomia tecnológica e ampliar sua capacidade de pesquisa e desenvolvimento.

Converter destaque internacional em inovação tecnológica

Para Miceli, o Brasil reúne condições objetivas para transformar sua relevância acadêmica em inovação tecnológica e desenvolvimento econômico, mas ainda carece de um projeto nacional capaz de articular ciência, indústria e mercado.

O pesquisador destaca que o país já possui massa crítica suficiente para sustentar um modelo próprio de desenvolvimento tecnológico. "O Brasil é um dos dez maiores publicadores de artigos científicos do planeta, uma das dez maiores economias e uma das maiores populações do mundo", afirma. "A gente tem pesquisadores capacitados, de renome mundial, tem economia, tem povo, tem talentos."

Na avaliação do professor, o principal desafio não está na falta de capacidade científica, mas na ausência de continuidade estratégica. "O que a gente precisa hoje é de um plano que dure mais do que quatro anos", diz. Para ele, um projeto de país orientado pelo desenvolvimentismo deveria criar oportunidades para pesquisadores e profissionais qualificados, evitando a perda de talentos e aproximando a produção acadêmica das demandas produtivas e industriais.

Segundo ele, o Brasil já dispõe de universidades robustas, mercado consumidor e instituições capazes de sustentar esse processo, mas ainda enfrenta barreiras institucionais e legislativas que dificultam a interação entre pesquisa e setor produtivo.

"O que precisamos é que essa tríplice academia, indústria e governo funcione melhor."

Miceli avalia ainda que políticas de fomento e editais voltados à inovação podem produzir resultados em prazo relativamente curto quando integrados a uma estratégia consistente. "Uma startup pode sair do estágio de startup ao estágio de unicórnio em menos de quatro anos. Isso é possível", afirma.

Instrumentos de financiamento, como o do NBD, e apoio à inovação têm potencial para acelerar o processo tecnocientífico e ampliar a presença brasileira em setores de maior valor agregado, desde que inseridos em um projeto de longo prazo, e não em iniciativas isoladas.

Ao olhar para a experiência internacional, o professor argumenta que o Brasil possui condições semelhantes às que permitiram o avanço tecnológico de outros países nas últimas décadas. "A gente tem espaço para isso, tem gente para isso, tem economia para isso, tem instituições para isso", afirma, citando trajetórias como as da Índia, China e Coreia do Sul.

"Soberania também passa pela decisão de protagonismo. O Brasil tem que decidir que ele é um protagonista do cenário global."