CRISE POLÍTICA NA BOLÍVIA

Evo Morales sugere novas eleições em 90 dias para conter crise e protestos

Ex-presidente defende transição política e renúncia de Rodrigo Paz como alternativas à escalada da violência; país enfrenta bloqueios e agravamento da crise econômica.

Publicado em 24/05/2026 às 18:01
Evo Morales propõe novas eleições para conter protestos e crise política na Bolívia. © AP Photo / Julie Jacobson

Ex-presidente defende política de transição e renúncia de Rodrigo Paz para evitar escalada da violência; bloqueios e confrontos agravam crises econômicas e sociais no país.

O ex-presidente da Bolívia, Evo Morales, propôs neste domingo (24) a realização de novas eleições gerais em até 90 dias como alternativa para superar a crise política e social que paralisa grande parte do país. A declaração foi feita durante seu programa semanal na Rádio Kawsachun Coca, em meio ao avanço dos protestos e bloqueios contra o governo do presidente Rodrigo Paz.

Segundo Morales, o presidente Rodrigo Paz enfrentou duas opções diante do cenário atual. Para ele, a pacificação da Bolívia depende da renúncia à paz e da formação de um governo encarregado da transição de convocar novas eleições, o que evitaria mortes e feridos.

“Tem dois caminhos: uma decisão suicida, a militarização, ou (...) pacificação, transição e eleições em 90 dias”, afirmou o ex-mandatário.

Os protestos, que se intensificaram desde o início de maio, reuniram trabalhadores, professores, camponeses, indígenas, transportadores e setores sindicais ligados à Central dos Trabalhadores da Bolívia (COB). Muitas manifestações ocorrem em regiões como Cochabamba, Santa Cruz, Potosí e Chuquisaca, com ofertas de bloqueios rodoviários que afetam principalmente os acessos a La Paz.

Parte dos manifestantes resiste às propostas de reformas econômicas do governo e acusa Rodrigo Paz de ignorar demandas relacionadas a tradições, terras, saúde e educação. O presidente, que está há seis meses sem carga e enfrentou a pior crise econômica boliviana em quatro décadas, atribuindo os protestos à articulação política de Morales.

A crise econômica é marcada pela escassez de dólares, inflação crescente e dificuldades no abastecimento. Os bloqueios das últimas semanas provocaram falta de alimentos, medicamentos e combustível em La Paz, agravando ainda mais o aumento dos preços. Em abril, a inflação atingiu 14% em comparação ao mesmo período do ano anterior.

Morales rejeita as acusações de estar por trás das manifestações. Em entrevistas recentes, o líder indígena afirmou que o governo tenta responsabilizá-lo pela insatisfação popular e atribuiu a revolta social às políticas adotadas pela administração atual, especialmente ao Decreto Supremo 5503, promulgado logo após a posse de Paz.

“A partir de uma reivindicação setorial — salário, posse de terras, atenção às demandas em saúde e educação — transforma-se em uma revolta popular contra o modelo neoliberal e contra o Estado neocolonial”, declarou o ex-presidente.

No sábado (23), forças policiais e militares lançaram a Operação Bandeiras Brancas para tentar desbloquear a rodovia La Paz-Oruro e outras estradas estratégicas. A ação resultou em confrontos violentos, especialmente na região de Senkata, em El Alto, onde agentes utilizaram gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes, que resistiram e fortaleceram os bloqueios.

O governo boliviano denunciou manifestações à Organização dos Estados Americanos (OEA), alegando que eles queriam desestabilizar a ordem democrática, e voltou a acusar Morales de promover os protestos. Presidente da Bolívia entre 2006 e 2019, o líder cocaleiro foi impedido de disputar as eleições presidenciais do ano passado após decisão constitucional que limitou as reeleições.

Por Sputnik Brasil