ENTREVISTA EXCLUSIVA

Gilmar Mendes diz que crise do Banco Master é responsabilidade do mercado, não do STF

Ministro do Supremo afirma que escândalo do Master revela falhas sistêmicas e critica associação da Corte ao caso.

Publicado em 24/05/2026 às 10:43
Gilmar Mendes afirma que crise do Banco Master é sistêmica e não responsabilidade do STF. © Foto / Marcelo Camargo/Agência Brasil

Para o decano do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, a crise envolvendo o Banco Master expôs falhas de fiscalização no sistema financeiro, mas sua responsabilidade não recai sobre o STF.

Segundo Gilmar Mendes, o escândalo atribuído ao Supremo foi, na verdade, consequência de um problema sistêmico, que deveria ser enfrentado por órgãos como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Banco Central (BC). O ministro avalia que a corte foi associada ao caso devido à revelação das relações de Alexandre de Moraes e Dias Toffoli com Daniel Vorcaro.

Em entrevista a um jornal de grande circulação, Gilmar Mendes afirma não querer "isentar de responsabilidade quem tem", mas reforça que a origem da crise não está no STF. Ele destaca que as relações dos ministros com Vorcaro "certamente estão sendo investigadas" e que cabe às autoridades competentes esclarecerem os fatos.

O ministro também comentou a rejeição de Jorge Messias ao STF, atribuindo o episódio a uma disputa "puramente política" e à falta de articulação do governo Lula com o Congresso. Para Gilmar, o atual governo atua em minoria e não conseguiu construir bases sólidas para aprovar pautas de interesse.

Outro tema abordado foi o Fórum de Lisboa, evento anual organizado pelo ministro em parceria com instituições acadêmicas portuguesas, conhecido como Gilmarpalooza. Apesar das críticas e do impacto do caso Master, Gilmar afirma que o evento, programado para 27 a 29 de junho de 2026 na Universidade de Lisboa, segue confirmado, com "mais de 470 palestrantes", e rechaça responsabilidade sobre a presença de investigados em atividades paralelas: "Não temos nenhum controle sobre isso".

Sobre a discussão de um código de ética inspirado no modelo alemão, Gilmar Mendes considera "ingênua" a ideia de que o problema estaria no fórum. Ele defende que reformas éticas respeitem os consensos e a cultura jurídica nacional, e argumenta que regras estrangeiras não se aplicam integralmente ao Brasil. O ministro também avalia que o momento político para a criação do código não é adequado e que o STF não deve ceder a pressões externas.

Ao tratar da queda de confiança no STF, apontada por pesquisa Datafolha, Gilmar atribui parte do desgaste à maneira como as perguntas são formuladas e à transferência de responsabilidades externas para a Corte. "A crise do Master não está na Praça dos Três Poderes, está na Faria Lima", afirmou, fazendo referência ao mercado financeiro brasileiro.

Questionado sobre conflitos de interesse envolvendo parentes advogados e relações com empresários, Gilmar destaca que o Código de Processo Civil já prevê impedimentos e que cabe ao Judiciário e à OAB fiscalizar abusos. Ele reconhece, porém, que "amizades íntimas" exigem cautela.

Sobre as investigações envolvendo Toffoli e Moraes, Gilmar reforça que tudo está sob apuração e rejeita conclusões precipitadas: "Qual a relação de causa e efeito?", questiona. O ministro também critica o uso de prisões para forçar delações, alertando para riscos de "autoritarismo penal-judicial".

Gilmar Mendes afirma que não há crise interna ou divisões no STF, embora reconheça que o anúncio do código de ética gerou "desinteligência". Sem criticar diretamente o presidente Edson Fachin, que defende o instrumento, o ministro defende a continuidade do inquérito das fake news diante do ambiente de radicalização e ressalta que reações a ataques, como no caso da CPI do Crime Organizado, devem seguir o devido processo legal.

Por Sputinik Brasil