Transferência extrema de massa entre anãs brancas em órbita de 8,5 minutos intriga astrônomos
Sistema binário ATLAS J1013−4516 revela fenômeno raro de devoração estelar e promete avanços na detecção de ondas gravitacionais.
Um raro sistema de estrelas anãs brancas ultracompactas surpreende cientistas ao exibir uma transferência de massa extrema: em órbitas de apenas 8,5 minutos, uma estrela devora a companheira, formando um disco superaquecido que desafia o entendimento atual da astronomia.
A descoberta, liderada por Emma Chickles, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), apresenta uma das análises mais detalhadas já feitas de sistemas ultracompactos que trocam massa em órbitas extremamente curtas. Esses objetos são fundamentais para os futuros detectores de ondas gravitacionais.
Em sistemas binários muito próximos, a transferência de massa pode ser violenta, mas ainda há dúvidas sobre a intensidade desses processos quando as órbitas duram apenas alguns minutos. As anãs brancas — núcleos estelares do tamanho da Terra, mas com massa semelhante à do Sol — representam um desafio para os astrônomos nessas condições extremas.
Chickles explica que até mesmo esses remanescentes estelares podem ser despedaçados sob certas circunstâncias. Em órbitas inferiores a dez minutos, cada sistema observado apresenta comportamentos distintos, dificultando a criação de um modelo universal para essas interações.
Para avançar na compreensão desse fenômeno, a equipe analisou milhões de imagens coletadas ao longo de uma década por diferentes levantamentos astronômicos. Um método algorítmico refinado permitiu identificar variações de brilho quase imperceptíveis, indicando episódios de transferência de massa em objetos tão compactos quanto anãs brancas isoladas.
Com esses indícios, Chickles viajou ao Chile para usar a câmera de alta velocidade proto-Lightspeed nos telescópios Magellan. Observações em tempo real revelaram oscilações luminosas durante eclipses sucessivos, destacando o sistema binário ATLAS J1013−4516, cujas estrelas completam uma órbita em pouco mais de 8,5 minutos.
Nesse sistema, uma das anãs brancas está sendo dilacerada pela companheira, cuja densidade interna é cerca de 250 vezes maior que a do chumbo. O material arrancado forma um disco de acreção extremamente quente e compacto, com dimensões semelhantes às de Saturno e temperaturas superiores às da superfície solar.
Por ser um sistema eclipsante, os astrônomos conseguem observar uma estrela passando diante da outra a cada órbita, o que permite medir massas e dimensões com precisão inédita para objetos tão exóticos. Essa observação direta sugere que fenômenos semelhantes podem ser mais comuns no Universo do que se pensava.
Os resultados têm implicações importantes para o LISA, futuro observatório espacial de ondas gravitacionais previsto para a década de 2030. O sistema ATLAS J1013−4516 está entre os candidatos que o LISA deverá detectar, indicando que muitos outros binários extremos podem estar ocultos em arquivos astronômicos, aguardando métodos mais sensíveis de identificação.
Por Sputnik Brasil