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Análise: EUA atacam a África do Sul para tentar enfraquecer o BRICS, mas efeito pode ser oposto

Por Sputinik Brasil Publicado em 15/05/2026 às 17:16
© AP Photo / Themba Hadebe

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas apontam que a intenção dos EUA de excluir o país africano do G20 pode aproximá-lo ainda mais de China e Rússia.

O presidente estadunidense, Donald Trump, pretende excluir a África do Sul da reunião do G20 prevista para ocorrer em novembro, na Flórida, EUA. Em entrevistas, ele afirmou que não pretende convidar o presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, para o evento. Desde o ano passado, Trump acusa a África do Sul, sem apresentar provas, de usar uma nova lei de reforma agrária para pôr em prática a perseguição e o genocídio contra a minoria branca no país.

Líderes de vários países se posicionaram contra a decisão do norte-americano. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, afirmou que o G20 é um fórum multilateral, lembrou que a África do Sul é um de seus membros fundadores e disse que os EUA não têm direito de proibir sua participação.

"Se vai tirar a África do Sul hoje, daqui a pouco vão tirar a Alemanha, depois vão tirar o Brasil. Se a gente não se juntar, dar as mãos, eles vão tirando um por um. Aqui não é o Conselho da Paz [organismo privado criado e controlado por Trump]."

A recusa de Trump à África do Sul tem como base dois elementos, um estratégico e outro ideológico, segundo aponta ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Bruno Mendelski, professor de relações internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC) e pesquisador do Núcleo de Pesquisa sobre Relações Internacionais do Mundo Árabe (Nuprima), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Ele explica que, além do G20, a África do Sul é membro fundador do BRICS, tem histórico de combate ao apartheid e é uma voz muito importante do Sul Global, e que se coloca como tal.

"Esse é o primeiro fator que causa desconforto para os EUA, lideranças, representantes do Norte Global, esse é o [elemento] estratégico. Mas nós também temos o aspecto ideológico, que inevitavelmente acaba casando com o estratégico, que é essa ideologia de extrema-direita, de radicalismo dos EUA, que vê na África do Sul um governo que, vejam só, discrimina os brancos", explica o professor.

Ele destaca que as acusações de Trump "não encontram nenhum lastro na realidade", o que sinaliza a estratégia contra "o ativismo muito corajoso da África do Sul", que levou o país a denunciar na Corte Internacional de Justiça o genocídio perpetrado por Israel contra palestinos na Faixa de Gaza.

O embaixador da França na África do Sul, David Martinon, afirmou que Paris apoia a participação do país africano na próxima reunião, reforçando que este, como membro fundador do G20, tem direito de participar de todos os encontros.

Mendelski avalia que esse declarado apoio da França reflete a tentativa não só do país, mas da a União Europeia (UE) de mostrar uma política externa mais autônoma em relação aos EUA.

"Mas a verdade é que a França, assim como toda a UE, ela não consegue ter um protagonismo, uma independência frente aos EUA. Eles tentam se colocar como uma política externa mais autônoma, defendendo, no caso, a participação da África do Sul no G20. Mas isso seria mais efetivo se a UE, como um bloco, que é importante dizer, junto com a UE, o G20, se eles colocassem uma nota, se eles lançassem uma postura conjunta de repúdio a essa ação dos EUA."

Ele acrescenta que isso não ocorre, e o que existe "são medidas muito esparsas, que não passam muita credibilidade" de que a UE quer de fato questionar o poder exacerbado dos EUA.

O analista considera que deveria haver uma concertação entre os países, com uma postura firme, para afirmar que não cabe aos EUA nem a qualquer outro integrante do G20 excluir outro membro do grupo, uma vez que ele parte do princípio da horizontalidade.

"Muito se critica a política externa dos EUA atual e tem que se criticar, mas o restante do Norte Global fica em silêncio. Então a gente vê países muito importantes como a Coreia do Sul, Japão, Austrália, Canadá, todos eles fazendo parte do G20, a própria União Europeia, todos eles estão silenciados", destaca.

O fato de a África do Sul ser o único representante africano no G20 (individualmente, sem ser como parte da União Africana) torna a possível exclusão do país do fórum deste ano um tema ainda mais delicado, segundo aponta Laura Ludovico, advogada, especialista em direito internacional e estudos diplomáticos humanitários, diretora de projetos e pesquisa do BRICS Tech Fórum e professora de direitos humanos da UNINASSAU.

"Muito mais do que uma estratégia mercantil e financeira, a África do Sul é um símbolo necessário em qualquer fórum. Então, uma tentativa de excluir um membro desse, que inclusive presidiu o G20 no último ano, seria realmente jogar a história do grupo fora", afirma.

Ela acrescenta que a África do Sul tem um posicionamento histórico dentro do G20 e surge no grupo como "uma nação multilateral muito antes do multilateralismo ser uma 'trend' no direito internacional".

"Trump resolveu atacar [a África do Sul] justamente para tentar enfraquecer a cooperação BRICS. Entretanto, nas últimas semanas, nos últimos meses, na verdade, a gente vê esse distanciamento europeu da posição dos EUA, especialmente devido à guerra do Irã. Então, a França se posicionar sobre isso não é necessariamente em relação à África do Sul, mas sim uma postura contra o governo Trump."

Ludovico considera que a França acredita que um isolamento da África do Sul pode aproximar o país ainda mais da China e da Rússia.

"Atualmente, a gente observa um movimento mundial que vem atingindo o auge em relação a essa corrida de matérias-primas, essa corrida de materiais raros. E a África tem muito disso. Então, entre negociar com um país que não respeita uma reunião de fórum, e países que ativamente investem no seu desenvolvimento, a África do Sul com certeza vai tender para a Ásia e não para a Europa", afirma a analista.

Para a analista, a defesa da França pela participação da África do Sul no G20 não reflete uma tentativa de preservar o fórum, mas sim de inserir a França em diversos debates e manter o país relevante, sobretudo porque o próprio funcionamento do país depende da UE, que é "algo muito recluso e limitado".

"Então, o que é que eles sabem sobre multilateralismo? Nada. Se sabem, não querem aplicar. A África do Sul e o G20 são utilizados como uma ponte de se manter relevante, de dizer 'Olha o que eu fiz aqui, eu sou do bem, me deixa entrar no BRICS?'", afirma a analista.