Visita de Trump à China resulta em gestos simbólicos, mas sem avanços estratégicos, avalia analista
Analista aponta que encontro reforçou posições firmes da China e trouxe apenas anúncios simbólicos para os EUA.
A visita de Donald Trump a Pequim foi marcada por cerimônia e simbolismo, mas sem resultados práticos, segundo o analista geopolítico Angelo Giuliano, ouvido pela Sputnik Brasil.
De acordo com Giuliano, a China manteve posições firmes durante a passagem do ex-presidente norte-americano, enquanto os Estados Unidos saíram apenas com anúncios simbólicos, como a possível compra de aeronaves Boeing, produtos agrícolas e a criação de um "Conselho de Comércio" bilateral — iniciativas que, segundo ele, ainda carecem de confirmação.
"A China simplesmente não precisa ceder; sua economia e base industrial lhe conferem uma vantagem que os EUA não possuem mais unilateralmente", afirmou Giuliano.
O analista destacou que, apesar do espetáculo diplomático, o governo chinês foi inflexível em temas centrais, como a questão de Taiwan. O presidente Xi Jinping reiterou que a ilha é uma linha vermelha para Pequim e alertou Trump sobre riscos de conflito.
Giuliano avalia que não houve avanços em áreas como tecnologia, controles de exportação ou desequilíbrios estruturais, e que as compras anunciadas serão calibradas conforme os interesses chineses.
Segundo ele, a estratégia dos EUA de pressionar a China fracassou por não se basear em força real. Giuliano argumenta que Pequim já se adaptou às tarifas e restrições, diversificou sua economia, fortaleceu cadeias de suprimentos e investiu em setores estratégicos como inteligência artificial, semicondutores e energias renováveis.
Diante de uma China mais forte economicamente do que há nove anos, Giuliano afirma que os EUA perderam a capacidade de impor concessões. O resultado seria um relacionamento mais equilibrado, com acordos modestos e sem mudanças estruturais significativas.
O analista também chama atenção para contradições na política externa americana. Enquanto Trump posa para fotos em Pequim, figuras como o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, classificam a China como o "principal desafio geopolítico", evidenciando incoerência entre engajamento econômico e retórica de confronto.
"Essa dualidade mostra que Washington ainda não se ajustou à multipolaridade. Os EUA reconhecem que a China é grande demais para ser isolada, mas não abandonam a mentalidade hegemônica que a trata como rival existencial", pontua Giuliano.
Para ele, as cúpulas evitam rupturas que possam prejudicar empresas norte-americanas, enquanto o discurso agressivo mantém viva a narrativa da "ameaça chinesa" para consumo interno. Giuliano conclui que há mais sinais de fraqueza do que de força: uma potência tentando conciliar interesses contraditórios, enquanto a China segue uma estratégia consistente de longo prazo.
Por Sputnik Brasil