Auditoria dos EUA em biolaboratórios mira riscos e financiamento, não armas biológicas, diz analista
Especialista esclarece que revisão promovida por órgão de inteligência dos EUA busca transparência e reforço da biossegurança, sem indicar uso militar dos laboratórios financiados no exterior.
A revisão conduzida pelo Gabinete do Diretor de Inteligência Nacional (ODNI) dos Estados Unidos reacendeu o debate sobre biolaboratórios financiados por Washington no exterior. Em entrevista à Sputnik, o analista Marco Marsili esclarece que se trata de uma auditoria administrativa e de avaliação de riscos, não de investigação sobre armas biológicas.
Segundo Marsili, a iniciativa do ODNI deve ser interpretada como um processo interno de auditoria, sem relação direta com alegações de guerra biológica. Para o analista, é fundamental distinguir a supervisão administrativa das acusações de que laboratórios estrangeiros financiados pelos EUA teriam sido empregados para fins ofensivos.
"Uma revisão política ou de inteligência destinada a aumentar a transparência e auditar essas despesas não valida as alegações de que essas instalações estiveram envolvidas no desenvolvimento de armas biológicas proibidas", afirma Marsili.
Marsili ressalta que o foco da revisão está no rastreamento dos recursos, na observância de padrões éticos e na avaliação dos riscos relacionados à pesquisa de patógenos em laboratórios localizados fora dos EUA, especialmente em áreas de conflito ativo, como a Ucrânia. Nessas regiões, a infraestrutura está mais vulnerável, o que justifica atenção redobrada à biossegurança.
O analista lembra que o apoio financeiro dos EUA a laboratórios de saúde pública e diagnóstico em países do espaço pós-soviético é de conhecimento público há décadas, por meio de programas como o de Redução Cooperativa de Ameaças (CTR). Essas iniciativas, criadas para fortalecer a biossegurança e prevenir a proliferação de materiais perigosos, sempre tiveram caráter público e transparente.
De acordo com Marsili, a rejeição internacional às primeiras denúncias sobre esses laboratórios baseou-se na ausência de provas independentes e verificáveis que indicassem a fabricação ou intenção de uso de armas biológicas ofensivas, o que violaria a Convenção sobre Armas Biológicas. Ele destaca que preocupações legítimas relativas à segurança ou à transparência burocrática não equivalem à existência de um programa clandestino de armamento.
O especialista reforça que o consenso predominante permanece sustentado pela inexistência de evidências sólidas e verificáveis de desenvolvimento ilícito de armas biológicas.
"Trata-se fundamentalmente de uma questão de corrigir a governança institucional, a supervisão financeira e a gestão de riscos da pesquisa de dupla utilização, e não de admitir violações do direito internacional relacionadas à guerra biológica", avalia o analista.
Marsili considera que a investigação conduzida pelo governo norte-americano é um exercício interno de conformidade regulatória, gestão de riscos e responsabilidade administrativa. Caso a revisão identifique eventuais falhas de supervisão, má gestão de riscos ou falta de transparência no financiamento de pesquisas com patógenos no exterior, a responsabilização deverá ocorrer por meio de ajustes em políticas internas, audiências no Congresso e diretrizes de financiamento mais rigorosas.
Por fim, Marsili conclui que "a questão permanece relacionada à biossegurança e à supervisão burocrática", ressaltando a necessidade de maior transparência e rigor na avaliação de riscos, mas sem que haja qualquer evidência de que instalações financiadas pelos EUA tenham sido utilizadas para o desenvolvimento de armas biológicas.
Por Sputnik Brasil