Tecnologia brasileira: como funciona a nova ferramenta da FAB para monitorar satélites
Sistema desenvolvido pelo COMAE amplia capacidade nacional de prever movimentos orbitais e proteger ativos espaciais.
A Força Aérea Brasileira (FAB) apresentou recentemente, em um fórum nos Estados Unidos, uma ferramenta inovadora desenvolvida pelo Comando de Operações Aeroespaciais (COMAE). O sistema é capaz de detectar manobras de satélites, analisar e prever comportamentos orbitais, contribuindo para a proteção dos meios espaciais brasileiros e de países aliados.
Idealizada pelo major engenheiro Rafael Luz, a tecnologia utiliza algoritmos matemáticos avançados para simular e interpretar o movimento de satélites e outros objetos espaciais. Segundo a FAB, essa abordagem permite uma compreensão mais precisa das dinâmicas orbitais.
Em entrevista à Sputnik Brasil, Erick Andrade, doutorando em ciências militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), explica que o sistema reúne um conjunto de algoritmos capazes de realizar cálculos complexos, "permitindo reconstruir indicadores de fenômenos orbitais a partir de informações coletadas pelo rastreamento de objetos em órbita".
Na prática, a ferramenta analisa e interpreta as manobras executadas por satélites em operação, tornando possível identificar padrões, áreas de interesse e possíveis fins estratégicos, como ações de inteligência e vigilância, destaca o pesquisador.
Com essa tecnologia, a FAB pode, por exemplo, "evitar colisões ou qualquer movimento que comprometa os satélites nacionais", esclarece Patrícia Matos, professora da Universidade da Força Aérea (UNIFA).
De acordo com Matos, ferramentas de detecção de movimentos de satélites já existiam no Brasil, graças a acordos de cooperação com os Estados Unidos, que fornecem dados de monitoramento. "O diferencial agora é contar com uma solução desenvolvida no país, permitindo previsões próprias e acompanhamento independente do movimento dos satélites", ressalta. Dessa forma, a FAB passa a criar estimativas e prever o movimento de objetos orbitais para preservar os ativos espaciais nacionais.
Apesar do avanço, Matos pondera que o Brasil ainda não alcançou autonomia plena no setor espacial, pois continua dependente de dados internacionais. "Com a nova ferramenta, será possível realizar previsões específicas a partir dos dados já disponíveis, ampliando nosso grau de autonomia, mas ainda sem soberania total", afirma.
"Avançamos em autonomia ao usar esse modelo matemático para prever possíveis colisões e evitar situações de risco. O ambiente espacial está cada vez mais congestionado, com milhares de satélites em órbita, e alguns podem impactar negativamente nossas capacidades. O novo sistema fortalece nossa capacidade de monitoramento e previsão, mas ainda há necessidade de investimentos para conquistar plena soberania e fontes próprias de dados", enfatiza Matos.
Na mesma linha, Andrade reforça que o Brasil ainda não possui autonomia total no monitoramento do território, citando a ausência de um sistema próprio de posicionamento e navegação por satélite. Segundo ele, um grupo de estudos já foi criado para desenvolver esse projeto estratégico.
O analista destaca a importância da busca por autonomia no monitoramento espacial, tanto para a defesa quanto para o desenvolvimento nacional. "Os sistemas satelitais são fundamentais não apenas para atividades militares, mas também para o monitoramento da Amazônia, vigilância de fronteiras, previsão climática e suporte ao agronegócio, setores essenciais para a soberania e economia do país", conclui Andrade.