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Sudão do Sul: Médicos Sem Fronteiras é obrigada a fechar o hospital de Lankien após 31 anos

Cerca de 250 mil pessoas dependiam desses serviços para receber cuidados médicos

Por Assessoria Publicado em 30/04/2026 às 17:06
Coordenador-geral de MSF diante do que restou do estoque principal do hospital de Lankien, após o bombardeio. Nossas equipes perderam a maior parte dos suprimentos médicos. ©Stefan Pejovic/MSF Stefan Pejovic/MSF

Médicos Sem Fronteiras (MSF) foi forçada a fechar definitivamente o hospital em Lankien, no estado de Jonglei, no Sudão do Sul, depois que a instalação foi bombardeada, em 3 de fevereiro. O fechamento do hospital encerra 31 anos de apoio médico contínuo a uma comunidade que já tem acesso extremamente limitado aos serviços de saúde.

MSF apela a todas as partes em conflito para que não ataquem instalações e profissionais médicos e para que seja realizada uma investigação independente e imparcial sobre o bombardeio.

Não restou nada do hospital além de devastação

No dia 3 de fevereiro, uma bomba foi lançada de um avião no estoque do complexo hospitalar, e fomos forçados a interromper todas as atividades médicas. O ataque destruiu suprimentos e outros itens essenciais. Embora não possamos confirmar qual das partes envolvidas no conflito no Sudão do Sul é a responsável, pelo que foi possível apurar, as forças governamentais são as únicas com capacidade para realizar bombardeios aéreos.

Nos dias seguintes ao ataque, sabia-se que as forças governamentais controlavam a área de Lankien. O hospital de Lankien foi saqueado, partes dele foram incendiadas e as estruturas restantes foram vandalizadas, deixando nada além de devastação. MSF ainda não consegue confirmar qual das partes envolvidas no conflito é responsável pelos saques e vandalismos.

"Estamos indignados com o que testemunhamos recentemente no hospital", diz Gul Badshah, coordenador de operações de MSF. "Vimos buracos de bala nos para-brisas dos nossos veículos, nossos prédios de suprimentos médicos reduzidos a cinzas, e até mesmo equipamentos pediátricos foram alvejados e destruídos", acrescenta.

Horas antes do ataque em 3 de fevereiro, o hospital de Lankien foi evacuado e os pacientes receberam alta, devido ao aumento das tensões na área. Segundo relatos, as pessoas fugiram de Lankien após o bombardeio do hospital e do mercado da cidade naquele dia.

Ataques à assistência médica em conflitos armados

A destruição do nosso hospital em Lankien não é um incidente isolado, mas parte de uma tendência mais ampla e profundamente preocupante de violência contra os serviços de saúde no Sudão do Sul. Desde o início de 2025, as instalações e os profissionais de MSF foram afetados por pelo menos 12 ataques e eventos violentos.

Esses incidentes repetidos forçaram o fechamento de quatro hospitais — Ulang, Old Fangak, Akobo e agora Lankien — e deixaram centenas de milhares de pessoas sem acesso a cuidados médicos. Como sempre, a população está pagando um preço alto pelos ataques à assistência médica.

“Os ataques a instalações médicas, profissionais de saúde e civis são inaceitáveis e devem cessar”, enfatiza Badshah. “As forças governamentais e das outras partes envolvidas devem assumir total responsabilidade por suas ações. Devem também impedir ataques contra profissionais e instalações médicas e contra civis, e respeitar o Direito Internacional Humanitário e seus princípios, incluindo a distinção e a proporcionalidade”, acrescenta Badshah

Médicos Sem Fronteiras apela às autoridades do Sudão do Sul para que forneçam explicações transparentes, garantam a prestação de contas e tomem medidas concretas para proteger as operações de saúde e humanitárias.

MSF atuava em Lankien desde 1995, inicialmente respondendo ao calazar, uma doença tropical negligenciada. Ao longo dos anos, nossas atividades foram gradualmente ampliadas, e o hospital tornou-se a única unidade de saúde de nível avançado na região. Antes de sua destruição, cerca de 250 mil pessoas dependiam do hospital para receber cuidados que ajudavam a salvar vidas. Com seu fechamento definitivo, as comunidades da região ficaram agora sem serviços médicos e expostas a mortes evitáveis.