IMPACTOS INTERNACIONAIS

Política de deportação dos EUA gera efeitos globais e agrava crises sociais, avalia especialista

Deportações para países terceiros, como Paraguai e Congo, violam direitos e alimentam estigmas, alerta analista de relações internacionais.

Publicado em 30/04/2026 às 12:10
Deportação dos EUA para países terceiros agrava crises sociais e estigmatiza migrantes, diz especialista. © telegram SputnikBrasil / Acessar o banco de imagens

Os Estados Unidos intensificaram sua política de deportação para países terceiros, o que significa que os deportados nem sempre retornam à sua terra natal, sendo enviados para nações como Paraguai, Gana e Congo. Essa estratégia do governo norte-americano pode agravar crises sociais e migratórias em escala global.

Em entrevista à Sputnik Brasil, Fabiana de Oliveira, mestre e doutora em relações internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da USP (PROLAM/USP), explica que a "terceirização" das deportações busca enviar uma mensagem simbólica para desestimular novos migrantes.

"A intenção é promover uma dissuasão e dizer: 'se você vier para cá, pode terminar pior do que estava no seu país de origem, então é melhor ficar onde está ou migrar para um país vizinho'. Isso desorganiza completamente a agenda e as dinâmicas internacionais de migração", avalia.

A internacionalista ressalta ainda que medidas punitivas e a perseguição aos imigrantes, seguidas de deportação para países terceiros, agravam a situação devido à falta de transparência nos acordos firmados, tornando o processo ainda mais vulnerável para quem é removido de forma abrupta.

"As pessoas ficam sabendo poucas horas antes para onde serão enviadas e não têm sequer a opção de escolher retornar ao seu país de origem, indo para destinos definidos pelos EUA. Não sabemos o que acontecerá com esses indivíduos, pois os acordos com Paraguai, El Salvador e Congo são extremamente opacos", comenta.

Deportados enfrentam estigma e violações de direitos

Fabiana, também pesquisadora de pós-doutorado do Instituto de Geografia da UERJ, aponta que essas ações da Casa Branca, além de ilegais, violam princípios do direito internacional.

"Outro aspecto importante é o estigma que recai sobre os deportados. Por exemplo, as 16 pessoas recentemente enviadas ao Paraguai chegam marcadas pela narrativa do governo Trump de que apenas criminosos são deportados, o que não corresponde à realidade", detalha.

A especialista contextualiza que, como os EUA não sofrem punições internacionais por essas práticas, o controle sobre deportações em massa depende das instituições internas, como ocorreu no Reino Unido e na Itália, onde cortes supremas barraram acordos similares com Ruanda e Albânia.

"A Suprema Corte do Reino Unido, em 2023, declarou ilegal o acordo com Ruanda, que foi encerrado em 2024. Na Itália, a Suprema Corte também impediu o envio de solicitantes de refúgio para a Albânia. Normalmente, são essas instituições que podem impor limites nos EUA, mas atualmente o governo detém maioria", afirma.

Deportação serve como instrumento de pressão política

Fabiana acrescenta que a deportação para países terceiros ocorre de forma impositiva, sendo os governos receptores pressionados por ameaças de retaliação dos EUA.

"O ex-presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador foi eleito prometendo não restringir fluxos migratórios, mas, diante da pressão de Washington durante a renovação do NAFTA, implementou o programa 'Remain in Mexico' em 2019, aceitando imigrantes deportados pelos EUA", relata.

Em um cenário globalizado, crises econômicas e sociais impulsionam a migração para potências centrais. Entretanto, esses mesmos países, muitas vezes responsáveis pelas instabilidades, rejeitam imigrantes por conta de crises internas e crescente xenofobia.

Por Sputnik Brasil