COMÉRCIO

Empresas que encantam clientes começam pela cultura interna e não pela tecnologia

Valores claros, liderança coerente e comportamento consistente moldam a experiência do consumidor e explicam por que algumas marcas fidelizam enquanto outras apenas atendem

Publicado em 28/04/2026 às 15:47
Divulgação

Empresas com cultura organizacional forte têm até três vezes mais chances de alcançar alto desempenho e até 30% mais probabilidade de crescer de forma sustentável, segundo levantamento da McKinsey. No Brasil, a clareza de valores pode reduzir em até 35% a rotatividade, de acordo com a FGV. 

Para Alexandre Slivnik, especialista em excelência de serviços, vice-presidente da ABTD e professor convidado do MBA da FIA USP, esses dados ajudam a explicar por que a qualidade do atendimento não está diretamente ligada apenas a processos ou tecnologia. “A experiência do cliente é um reflexo direto da cultura interna. Não existe atendimento encantador sustentado por uma cultura frágil”, afirma.

A discussão ganha relevância em um momento em que empresas aceleram investimentos em automação e inteligência artificial para atendimento. Apesar dos ganhos operacionais, o consumidor demonstra crescente insatisfação com interações padronizadas. Para o especialista, o problema não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é utilizada. “Tecnologia é meio, não fim, afinal, nada substitui o toque humano”. O que encanta de verdade é o relacionamento, é a sensação de ser ouvido e respeitado. Quando a empresa substitui o humano em vez de potencializá-lo, ela cria experiências eficientes, mas vazias”, diz.

Na prática, o que diferencia empresas que se fidelizam daquelas que apenas resolvem demandas pontuais é a consistência entre discurso e comportamento. Valores institucionais, quando não aplicados no dia a dia, tendem a gerar desconfiança interna e impactar diretamente o cliente final. “Não adianta colocar valores na parede e agir de forma oposta na rotina. O colaborador percebe rapidamente essa incoerência, e isso se reflete na forma como ele atende”, explica.

Esse desalinhamento costuma aparecer de forma mais evidente em momentos de pressão por metas e resultados financeiros. Segundo o especialista, organizações que priorizam apenas indicadores acabam comprometendo a experiência. “Metas são essenciais, mas quando só se fala de números e não há reconhecimento ou propósito, o atendimento vira mecânico. O cliente sente isso imediatamente”, afirma.

Outro fator determinante é o papel da liderança. A forma como gestores tomam decisões, se comunicam e lidam com suas equipes estabelece o padrão de comportamento replicado na linha de frente. “Cultura não se sustenta por discurso. Ela é construída pelas atitudes dos líderes, principalmente nos momentos de pressão. É isso que define como o cliente será tratado”, diz.

Na avaliação do especialista, o encantamento do cliente externo é consequência direta do ambiente interno. Equipes que se sentem valorizadas tendem a criar relações mais genuínas com o público. Já ambientes marcados por desorganização ou incoerência produzem atendimentos frios, independentemente da tecnologia disponível. “Se o colaborador não se sente respeitado, ele pode até cumprir o processo, mas dificilmente vai gerar uma experiência memorável”, afirma.

Esse movimento também ajuda a explicar por que empresas reconhecidas globalmente por excelência em atendimento mantêm padrões consistentes em diferentes mercados. A combinação entre processos bem definidos, pessoas preparadas e práticas alinhadas ao propósito garante previsibilidade na experiência do cliente. “Encantamento não acontece por acaso. Ele é resultado de cultura, treinamento e repetição de comportamento ao longo do tempo”, diz.

Diante desse cenário, a principal mudança para empresas que buscam melhorar o atendimento passa menos por ferramentas e mais por revisão interna. Definir valores claros, alinhar liderança e transformar comportamentos em prática diária são etapas que antecedem qualquer investimento em tecnologia. “A cultura é o ponto de partida. A experiência do cliente é a consequência. Quando essa base está sólida, a tecnologia entra como aliada e não como substituta”, conclui.