Pressão por resultado, IA e queda de preços reconfiguram o mercado de social media
Pesquisa da mLabs mostra avanço da cobrança por ROI e aponta desvalorização do modelo baseado em volume e métricas de engajamento
O mercado de marketing digital vive um momento de ruptura sem precedentes. Aquela versão clássica do profissional de mídias sociais, focado apenas em executar tarefas operacionais, produzir volume de publicações e relatar métricas de vaidade, está com os dias contados. A conclusão é da mLabs, maior plataforma de gestão de mídias sociais da América Latina, que a partir de sua pesquisa “Panorama Agências e Profissionais de Mídias Sociais no Brasil", realizada com mais de 4 mil profissionais da área, mapeou sinais claros de transformação no setor.
Segundo o levantamento, três forças simultâneas estão pressionando o mercado e acelerando uma reconfiguração estrutural da atividade:
1. A Inteligência Artificial transformou a produção de conteúdo em commodity: A primeira força é a adoção massiva de Inteligência Artificial. A IA tornou a criação em massa de textos, legendas e vídeos mais rápida, prática e acessível, permitindo que qualquer pessoa gere conteúdo em minutos. Hoje, mais de 12 milhões de posts são gerados por minuto no mundo. No Brasil, 83% dos profissionais utilizam IA no dia a dia e desses, 84% recorrem à tecnologia para desenvolver ideias de campanhas e conteúdos.
Nesse cenário, produzir em volume deixou de ser um diferencial competitivo e passou a ser o mínimo esperado. “Profissionais que ainda operam sob a lógica de pacotes genéricos e execução operacional tendem a perder relevância diante de uma tecnologia que entrega escala com mais eficiência e menor custo”, afirma Rafael Kiso, CMO da mLabs.
2. A canibalização do mercado e a guerra de preços: A segunda força vem do próprio inchaço do setor. Com uma barreira de entrada praticamente inexistente e baixa regulação, o mercado de social media passou a atrair um volume crescente de profissionais, muitos deles sem formação estruturada em marketing, comunicação ou negócios. O resultado é uma concorrência cada vez mais pressionada por preço, em que pacotes de posts são ofertados por valores irrisórios — frequentemente entre R$200 e R$500 —, puxando o mercado para uma espiral de desvalorização e aumento de carga operacional.
Dados da pesquisa mostram que apenas 9% dos profissionais se sentem valorizados; 55% cobram até R$1.500, enquanto só 8% ultrapassam a faixa de R$4.000 — percentual que, ainda assim, dobrou em relação ao ano anterior. “O que diferencia esses dois grupos não é o tempo de experiência, mas o nível de maturidade estratégica”, afirma Kiso
3. A exigência por ROI e o fim das métricas de vaidade: A terceira força vem da base do ecossistema: as empresas contratantes. A tolerância a entregas sustentadas apenas por métricas como engajamento e alcance diminuiu significativamente, enquanto cresce a pressão por impacto direto no negócio. Hoje, empresas exigem resultados financeiros concretos, como geração de leads qualificados e vendas, ainda assim, apenas 14% das agências têm o ROI como principal diferencial competitivo.Nesse contexto, 67% dos profissionais apontam a conquista de novos clientes como o maior desafio, enquanto 51% admitem dificuldade em entregar resultados reais para seus clientes.
A convergência dessas três pressões gerou o que a mLabs batizou de Paradoxo de 2026: "Nunca se usou tanta IA para acelerar a produção, nunca o mercado cobrou tantos resultados de negócios, mas nunca se pagou tão pouco aos profissionais".
Descompasso entre entrega e expectativa
Os dados também evidenciam um desalinhamento relevante entre o que é mensurado pelos profissionais de marketing e o que, de fato, é esperado pelos clientes. Enquanto os especialistas concentram seus esforços em métricas como engajamento (63%), alcance (59%) e impressões (53%), os clientes demonstram uma expectativa muito mais orientada a resultados de negócio, priorizando vendas (16%), geração de leads (16%) e, em menor escala, tráfego (7%).
“Não se trata de uma mudança incremental, mas de lógica. O profissional que apresenta crescimento de engajamento quando o cliente espera impacto financeiro, expõe um problema que não é técnico, mas de percepção de valor. O diferencial competitivo agora passa a ser a capacidade de conectar estratégia, dados e resultado de negócio”, afirma.
Movimento contra o "Achismo"
Para combater a extinção do profissional engolido pelo operacional e pelo "achismo", a mLabs acaba de lançar a comunidade smLab (Social Media Lab). O projeto não se propõe a ser mais um curso ou ferramenta, mas sim um ambiente de evolução contínua voltado para a nova geração de estrategistas digitais.
O objetivo é apoiar os profissionais a deixarem o papel de fazedores de posts para assumirem a cadeira de agentes de decisão de negócios, operando por meio de cinco pilares: pensamento estratégico, inteligência de dados, método estruturado (Unbound Marketing), uso inteligente da IA como assistente (e não substituta), e vivência em uma comunidade qualificada.
"O verdadeiro inimigo do social media não é a inteligência artificial, é o achismo, tomar decisões baseadas em opinião e não em dados com direção estratégica", conclui Kiso.