ECONOMIA E POLÍTICA

Governo Lula amplia pacote econômico e acende alerta do mercado em ano eleitoral

Medidas como desoneração do diesel, aporte bilionário e renegociação de dívidas preocupam analistas sobre inflação, juros e impacto eleitoral.

Publicado em 27/04/2026 às 10:30
Governo Lula lança pacote econômico em ano eleitoral, gerando preocupação entre analistas e mercado. © Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

O conjunto de medidas econômicas em estudo ou já anunciadas pelo governo Lula reacendeu o alerta entre analistas e técnicos da área econômica, que apontam riscos de estímulos excessivos em ano eleitoral e impactos sobre inflação e juros, especialmente diante das incertezas provocadas pela guerra entre Estados Unidos e Irã.

Nas últimas semanas, o governo desonerou o diesel, anunciou aporte de R$ 20 bilhões no Fundo Social para programas habitacionais e prepara um robusto pacote de renegociação de dívidas, que pode movimentar mais de R$ 100 bilhões.

O pacote inclui a liberação de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), reforço a fundos garantidores de crédito, linhas especiais para motoristas de aplicativos, taxistas e caminhoneiros renovarem seus veículos, além de medidas voltadas ao setor de fertilizantes.

De acordo com a Folha de S.Paulo, a percepção de que essas ações podem impulsionar a demanda ocorre em um momento no qual o Boletim Focus já aponta revisões para cima nas projeções de inflação e da taxa Selic para 2026 e 2027, refletindo maior incerteza.

Diante desse cenário, membros da equipe econômica têm sido orientados a reforçar ao mercado que as medidas não têm caráter eleitoral. Os ministros da Fazenda, Dario Durigan, e do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, afirmam que o objetivo é aumentar o patrimônio das famílias e a produtividade, e não estimular o consumo.

Bruno Moretti defende que, se calibradas corretamente, as ações não prejudicam a política monetária, embora reconheça a necessidade de diálogo com o Banco Central e agentes econômicos.

Nos bastidores, porém, técnicos do governo admitem preocupação com a possibilidade de uma eventual queda de Lula nas pesquisas levar ao reforço do pacote, inclusive com mudanças no Bolsa Família — estratégia semelhante à adotada por Jair Bolsonaro em 2022. A declaração do ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, sobre estudar subsídio à gasolina, ainda que descartada posteriormente, elevou ainda mais o alerta.

A alternativa apresentada pelo governo — utilizar receitas extras do petróleo para reduzir tributos — gerou reação negativa no mercado.

Segundo apuração, o temor é que a combinação de medidas fiscais amplas e um ambiente externo adverso pressione as taxas de juros futuras, justamente na semana em que o Copom se reúne para definir a Selic. A preocupação não é exclusiva do Brasil: o Fundo Monetário Internacional (FMI) discutiu recentemente o impacto global de políticas fiscais adotadas para conter a alta do petróleo, alertando para o risco de desequilíbrios entre oferta e demanda quando governos tentam amortecer choques sem reduzir o consumo.

Economistas consultados apontam que o ciclo de "bondades" em ano eleitoral se repete, independentemente do governo. Bráulio Borges observa que, embora o Brasil se beneficie da alta do petróleo por ser exportador, o conjunto das medidas pode dificultar o trabalho do Banco Central e reduzir o espaço para cortes de juros.

No setor financeiro, as opiniões divergem, mesmo com as medidas ainda em análise pelo Ministério da Fazenda. A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) apoia as renegociações de dívidas e destaca que não haverá "dinheiro novo" nessas operações. Já a Febraban afirma que o pacote não representa risco estrutural, mas deve ser avaliado quanto ao impacto sobre inflação, expectativas e forma de financiamento, conforme destacou a publicação.


Por Sputnik Brasil