Casa Bola em SP mostra que o Brasil também produz arquitetura icônica para o mundo
Num cruzamento estranho entre a estética Flintstones e Jetsons, como a define a curadora Kiki Mazzucchelli, uma esfera branca paira sobre os telhados da Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo (SP), como se tivesse pousado ali de outro tempo.
A Casa Bola, residência do arquiteto Eduardo Longo construída entre 1974 e 1979, completa quase cinco décadas como um dos mais ousados experimentos da arquitetura residencial brasileira.
Da Faria Lima, eixo financeiro que hoje concentra prédios envidraçados e fluxo constante de carros, a casa quase não aparece. Mas, nas ruas laterais, é possível espiar o estranho prédio. Uma esfera branca pousada sobre uma construção comum, como se alguém tivesse colocado uma nave numa laje aleatória. A estrutura esférica tem oito metros de diâmetro e foi soldada sobre a cobertura de uma casa existente, que hoje abriga Longo. As vigas originais foram descascadas para receber os ferros da nova estrutura.
Para entrar, você sobe uma escadaria de grade metálica que se divide em três níveis. Ao longo desses degraus, obras de arte, memorabilia e material de arquitetura criam uma espécie de prólogo para o que está por vir.
Nos fundos, você acessa a casa propriamente dita, que dá de frente para uma pequena piscina.
Longo a construiu no auge da Contracultura, fortemente influenciado pelo espírito de ruptura daquele momento. Seu objetivo era questionar o Modernismo e o Brutalismo, e também o próprio conceito de viver e construir. Paredes, mobiliário fixo e praticamente todos os equipamentos foram feitos em argamassa armada: pia, bancadas, camas, prateleiras, sofás, luminárias, vasos sanitários. Tudo branco. Outros móveis, como fogões e até uma vassourinha de banheiro, foram desenhados pelo arquiteto.
Ele chegou a fechar o escritório e fez um hiato de dez anos na carreira para se dedicar ao projeto. E morou ali com a família por cerca de 50 anos, saindo apenas no ano passado.
O espaço é pequeno. E neste domingo (26), durante a visita da Sputnik Brasil ao local, chegou a ter cerca de dez pessoas visitando ao mesmo tempo, com um fluxo contínuo de pessoas entrando e saindo. Mas a circulação flui de forma quase orgânica: cozinha, quartos dele e da família, sala de estar. Na área exterior, um escorregador amarelo, que, segundo funcionários, foi muito utilizado pelos filhos de Longo, completa a cena.
A sala de estar possui uma TV, cadeiras de praia, uma rede, e uma janela que enquadra São Paulo de forma sintática. De um lado, os arranha-céus gigantes que dominam a vista paulistana na região, e do outro, uma ruela decadente e até um pouco charmosa.
Do lado de fora, neste domingo, um grupo fotografava a fachada esférica com celulares erguidos. Entre eles, Mariana Souza, 34 anos, professora de história da arte que veio de Campinas para passar uns dias na capital. "Ver ao vivo é uma coisa completamente diferente", disse ela, ainda com o pescoço dobrado em direção à esfera branca. "Todo mundo devia parar aqui e olhar pra cima."
Casa modular
Segundo Fernando Sarpião, curador do núcleo arquitetônico, uma das propostas da casa é repensar até mesmo a moradia como um todo.
Talvez não como nos "studios" de poucos metros quadrados lançados aos montes em São Paulo, inclusive com incentivos fiscais públicos, mas que talvez ocupem menos espaço (uma vez que a Casa Bola possui diversos cômodos e abrigou uma família inteira durante décadas), e até mesmo reforce a necessidade das pessoas ocuparem mais as ruas.
"A Casa Bola desafia a lógica convencional do espaço doméstico e revela a visão experimental de Eduardo Longo para o futuro da habitação", afirma Serapião, "sendo uma das obras mais radicais da arquitetura brasileira", segundo ele.
São Paulo, por exemplo, tem caminhado no sentido oposto, com casas cada vez menores e mais enclausuradas, mesmo que a cidade sozinha abrigue mais de 101 mil pessoas nas ruas, concentrando 27% de todos os desabrigados do Brasil.
Visitação da Casa Bola em SP
A quinta edição da mostra Aberto, que ocupa a Casa Bola até 31 de maio, reúne cerca de 60 obras de arte e design de mais de 50 artistas brasileiros e internacionais distribuídas pelos cerca de 1.000 m² da casa.
A curadoria é de Filipe Assis, Claudia Moreira Salles e Kiki Mazzucchelli, com núcleo dedicado à arquitetura sob responsabilidade de Fernando Serapião. A galeria nova-iorquina Gladstone participa pela primeira vez, trazendo a artista britânica Sarah Lucas.
O endereço é Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2.889, e funciona de quarta a domingo, das 10h00 às 19h00, com ingressos disponíveis pelo site aberto.art. Na mesma avenida, a ABERTO Rua ocupa o trecho entre a Alameda Gabriel Monteiro da Silva e a Rua Adolfo Tabacow com mais de 15 intervenções artísticas — essas, de entrada gratuita.
Por Sputinik Brasil