Crédito livre recua com juros altos e bancos reforçam cautela diante de endividamento recorde
Com taxas médias de até 62% e renda familiar comprometida, famílias migram para linhas mais caras e risco de inadimplência cresce.
O crédito livre concedido pelos bancos registrou queda de 8,1% entre janeiro e fevereiro de 2026, influenciado pelos juros elevados, cautela das instituições financeiras e endividamento recorde das famílias brasileiras.
De acordo com dados do Banco Central (BC), o volume de crédito livre passou de R$ 331,9 bilhões para R$ 304,9 bilhões no período, aprofundando a retração iniciada após dezembro de 2025, quando o montante atingiu R$ 363,2 bilhões.
A diminuição reflete o ambiente de juros altos, com a Selic mantida em 14,75%, e o avanço do endividamento das famílias, fatores que levam os bancos a aprovar menos operações e exigir garantias mais robustas.
Desde outubro, o comprometimento da renda familiar com dívidas permanece próximo de um terço, enquanto a taxa média de juros dos recursos livres chegou a 62% em fevereiro, um recorde histórico. Esse cenário acende alertas para o risco de inadimplência.
Em entrevista ao Poder 360, a especialista Milene Dellatore afirmou que o sistema financeiro sinaliza risco elevado, resultando em spreads maiores e critérios mais rígidos. Segundo ela, o ajuste é inevitável, mas ocorre de forma "dolorosa", com impacto direto sobre os consumidores.
O economista Bruno Imaizumi avaliou à imprensa que, embora a desaceleração ainda seja moderada, os bancos tendem a acompanhar o aperto monetário e agir com mais prudência. Ele acrescentou que há sinais de moderação nas linhas de crédito, em meio a um ambiente fiscal expansionista e monetário restritivo.
Com a restrição, as famílias têm migrado para alternativas mais caras, como cartão de crédito e cheque especial. Para Imaizumi, o crédito às famílias cresce mais rapidamente do que o destinado às empresas, impulsionado pela dependência das linhas rotativas.
Esse movimento alimenta um ciclo de risco: os bancos restringem o crédito, as famílias se endividam mais, crescem as chances de inadimplência e, em resposta, as instituições apertam ainda mais as condições. Para Dellatore, trata-se de um processo que tende a se retroalimentar.
A especialista alertou que a combinação de crédito em queda e endividamento elevado pode resultar em desaceleração do consumo e da atividade econômica. Ela comparou o momento ao ciclo de 2015-2017, mas ressaltou que o nível atual de endividamento é muito maior, o que pode tornar um eventual ajuste mais severo.
Por Sputinik Brasil